Reposting an article from the Estado de Sao Paulo analysing the dilemma that the Brazilian economy currently faces

Luís Eduardo Assis *

De forma pouco cerimoniosa, o retorno da inflação ao centro das preocupações mostra que alguma coisa deu errado nos planos do governo.

Não faz muito tempo, em julho de 2011, o dólar estava em R$ 1,56 – a mais baixa média mensal desde janeiro de 1999 -, enquanto a taxa Selic passava para 12,5% ao ano, o nível mais elevado desde fevereiro de 2009. A economia brasileira já desacelerava rapidamente, logo após o excepcional crescimento de 2010, quando alguém deve ter tido uma ideia que parecia brilhante: por que não cortar os juros e promover uma desvalorização cambial? Juros baixos estimulariam os investimentos, já que os empresários não teriam onde rentabilizar o capital, e o dólar mais caro protegeria a indústria da concorrência dos produtos importados, induzindo também, por esta via, a retomada do crescimento.

Não foi exatamente dessa maneira que aconteceu. A taxa anualizada de investimento despencou de 11,4%, em junho de 2011, para -4%, no final do ano passado. E mais: a desvalorização de 33% entre julho de 2011 e dezembro de 2012 atrapalhou o combate à inflação. Pior ainda, em 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou o segundo pior desempenho dos últimos 13 anos. Ao ser acompanhada por uma política fiscal expansionista e pela insistência em medidas pontuais e erráticas de estímulo ao consumo, a manobra reduziu sensivelmente o raio de ação da política econômica.

O Brasil está entalado. A economia gira em duas velocidades, como duas rodas dentadas de tamanhos distintos. Medida pelo PIB, a economia gira lentamente e faz as manchetes dos jornais. Mas o governo parece preferir olhar para a massa salarial disponível, calculada pelo Banco Central, que acumulou uma fantástica elevação real de 11,3% em 2011-2012. É este último indicador que ajuda a entender a popularidade da presidente Dilma Rousseff.

Mas qual é o problema se, ao contrário do que dizia o general Medici, a economia vai mal e o povo vai bem? O problema é que esse descolamento é temporário. Sem aumento da produtividade do trabalho, o crescimento real da massa de salários acaba por elevar os preços e empurrar a inflação, o que, mais adiante, pode erodir o entusiasmo dos eleitores. Nas atuais circunstâncias, há muito que fazer, mas é prudente esperar pouco.

Seria proveitosa, por exemplo, uma política fiscal menos perdulária que pudesse dividir com os juros o ônus de atacar a inflação. Isso não acontecerá, seja pela falta de convicção do governo, que considera esse ingrediente um item do receituário “neoliberal”, seja pelas dificuldades práticas de acomodar interesses patrimonialistas e corporativistas aninhados na vasta coalização de partidos que sustentam o governo federal.

Uma elevação de juros que enfrente de maneira incisiva a inflação também é improvável, haja vista a relutância de utilizar esse instrumento até mesmo quando a inflação estourou o teto da margem de tolerância. O governo teme que juros mais altos afetem o nível de emprego e reduzam a massa salarial.

Abrir a economia às importações seria algo benfazejo no longo prazo. Mas teme-se o impacto disso sobre o emprego industrial em plena campanha eleitoral. Proteger a indústria com a indexação do câmbio, por outro lado, poderia ser um retrocesso tentador, mas mesmo o governo percebe que isso apenas fomentaria a inflação.

A distribuição arbitrária de benesses na forma de desonerações tributárias não combate a inflação e não estimula o investimento. Não combate a inflação porque confunde nível de preços com o seu crescimento, toma alfa por beta. Também não combate a inflação, mesmo temporariamente, porque nada garante que a menor carga tributária não seja transformada em recuperação de margens, em vez de preços menores. Não estimula os investimentos porque não desanuvia o horizonte a ponto de aumentar a disposição dos empresários tomarem risco.

As bênçãos tributárias apenas provocam romarias a Brasília. Os setores apaniguados poderão até mesmo organizar uma sala de ex-votos como sinal de gratidão pelas graças alcançadas, porém não ampliarão a aposta em novos empreendimentos enquanto não tiverem a percepção de que o crescimento dos seus custos está em linha com o dos seus concorrentes internacionais.

O combate à inflação é importante não só para proteger os salários dos eleitores, mas também para assegurar condições de competitividade com os produtos importados, sem o que os investimentos não decolarão e o nível de emprego será afetado. Enquanto os custos internos subirem mais do que no resto do mundo, o câmbio semifixo que temos hoje desestimulará o aumento da capacidade produtiva.

Resta, claro, o recurso a um aumento nos investimentos em infraestrutura. Aqui, no entanto, a dificuldade é dupla. Não só o governo, refém de preconceitos ideológicos, lida mal com o fato de que a iniciativa privada é movida pela maximização de lucros, como não consegue abrir mão do centralismo nas decisões de minúcias, o que o condena ao imobilismo.

Jorge Luis Borges, numa de suas alegorias preferidas, lembrava que o labirinto é o símbolo mais evidente de estar perdido. Mais do que isso, dizia, todas as construções humanas têm uma finalidade explícita. O refeitório serve para comer; a sala de espera, para esperar; o dormitório, para dormir. Mas o labirinto é construído com o único intuito de nele se perder. Ao desprezar o longo prazo, o governo urdiu, laboriosamente, uma situação na qual hoje se vê impotente. Que daí não se depreenda que estamos à beira de uma hecatombe. Nem a inflação escapará do controle nem cairemos numa recessão. Mas tudo sugere um crescimento medíocre. Os historiadores do futuro terão dificuldade em entender a nossa opção pela pequenez.

* Luís Eduardo Assis é economista, foi diretor de Política Monetária do Banco Central do Brasil, professor da PUC-SP e da FGV-SP. E-mail: luiseduardoassis@gmail.com.

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Brazilians Don’t Complain (Article published in Portuguese in Epoca in 2007)

Por que o brasileiro não reclama?

Porque ele acredita que, se ninguém reage, é melhor ele também não reagir. Essa é a conclusão de um novo estudo sobre a notória passividade nacional

martha mendonça e ronald freitas

Na volta para casa, na hora do rush, a barriga de nove meses da operadora de caixa Josy de Sousa Santos, de 30 anos, vai espremida entre os passageiros do metrô que liga Brasília a Ceilândia, na periferia da capital. Josy, assim como outras gestantes, mulheres com bebê no colo, idosos e pessoas com deficiência, tem direito a um assento especial em transporte público. É o que diz a Lei Federal no 10.048, em vigor desde 2000. No aperto do trem, porém, são poucas as pessoas que cedem o lugar especial à grávida. Josy não reclama. “Não peço, não gosto de incomodar nem de criar confusão”, diz. Nesse mesmo metrô, até dois anos atrás, o aposentado Antônio Alves Barbosa, de 76 anos, queixava-se quando não lhe cediam o espaço reservado para idosos. Depois que um jovem o agrediu  verbalmente, desistiu de reclamar. “Ele disse que velho tinha de  morrer”, afirma Barbosa.

Não se trata de um problema exclusivo do metrô de Brasília. O brasileiro não tem o hábito de protestar no cotidiano. A corrupção dos políticos, o aumento de impostos, o descaso nos hospitais, as filas imensas nos bancos e a violência diária só levam a população às ruas em circunstâncias excepcionais. Por que isso acontece? A resposta a tanta passividade pode estar em um estudo de Fábio Iglesias, doutor em Psicologia e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, o brasileiro é protagonista do fenômeno “ignorância pluralística”, termo cunhado pela primeira vez em 1924 pelo americano Floyd Alport, pioneiro da psicologia social moderna.

Não peço, não gosto de incomodar, de criar confusão
Josy de Sousa Santos, grávida de nove meses, que viaja de pé no metrô, apesar de ter direito a um assento
“Esse comportamento ocorre quando um cidadão age de acordo com aquilo que os outros pensam, e não por aquilo que ele acha correto fazer. Essas pessoas pensam assim: se o outro não faz, por que eu vou fazer?”, diz Iglesias. O problema é que, se ninguém diz nada e conseqüentemente nada é feito, o desejo coletivo é sufocado. O brasileiro, de acordo com Iglesias, tem necessidade de pertencer a um grupo. “Ele não fala sobre si mesmo sem falar do grupo a que pertence.”

Iglesias começou sua pesquisa com filas de espera. Ele observou as reações das pessoas em bancos, cinemas e restaurantes. Quando alguém fura a fila, a maioria finge que não vê. O comportamento-padrão é cordial e pacífico. Durante dois meses, ele analisou o pico do almoço num restaurante coletivo de Brasília. Houve 57 “furadas de fila”. “Entravam como quem não quer nada, falando ao celular ou cumprimentando alguém. A reação das pessoas era olhar para o teto, fugir do olhar dos outros”, afirma. O aeroviário carioca Sandro Leal, de 29 anos, admite que não reage quando vê alguém furar a fila no banco. “Fico esperando que alguém faça alguma coisa. Ninguém quer bancar o chato”, diz.

Iglesias dá outro exemplo comum de ignorância pluralística: “Quando, na sala de aula, o professor pergunta se todos entenderam, é raro alguém levantar a mão dizendo que está com dúvidas”, afirma. Ninguém quer se destacar, ocorrendo o que se chama “difusão da responsabilidade”, o que leva à inércia.

Mesmo quem sofre uma série de prejuízos não abre a boca. É o caso da professora carioca Maria Luzia Boulier, de 58 anos. Ela já comprou uma enciclopédia em que faltava um volume; pagou compras no cartão de crédito que jamais fez; e adquiriu, pela internet, uma esteira ergométrica defeituosa. Maria Luzia reclamou apenas neste último caso. Durante alguns dias, ligou para a empresa. Não obteve resposta. Foi ao Procon, mas, depois de uma espera de 40 minutos, desistiu de dar queixa. “Sou preguiçosa. Sei que na maioria das vezes reclamar não adianta nada”, afirma.

O “não-vai-dar-em-na-da” é um discurso comum entre os “não-reclamantes”. O estudante de Artes Plásticas Solano Guedes, de 25 anos, diz que evita se envolver em qualquer situação pública. “Sou omisso, sim, como todo brasileiro. Já vi brigas na rua, gente tentando arrombar carro. Mas nunca denuncio. É uma mistura de medo e falta de credibilidade nas autoridades”, afirma.

A apatia diante de um escândalo público também é freqüente no Brasil. Nas décadas de 80 e 90, o contador brasiliense Honório Bispo saiu às ruas para lutar pelas Diretas Já e pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor. No mês passado, quando o plenário do Senado realizou uma sessão secreta para julgar o presidente da casa, Renan Calheiros, o contador tentou reunir alguns colegas para uma manifestação em frente ao Congresso Nacional. Poucos compareceram. Depois disso, Bispo disse que ficou desestimulado. “Os movimentos estudantis não se mobilizam mais. A UNE sumiu”, diz, referindo-se à outrora influente União Nacional dos Estudantes.

Sou preguiçosa. Sei que na maioria das vezes não adianta reclamar
Maria luzia boulier, professora que desistiu de reclamar de uma esteira ergométrica entregue com defeito
O estudo da UnB constatou que a “cultura do silêncio” também acontece em outros países. “Portugal, Espanha e parte da Itália são coletivistas como o Brasil”, afirma o psicólogo. Em nações mais individualistas, como em certos países europeus, os Estados Unidos e a vizinha Argentina, o que conta é o que cada um pensa. “As ações são baseadas na auto-referência”, diz o estudo. Nos centros de Buenos Aires e Paris, é comum ver marchas e protestos diários dos moradores. A mídia pode agir como um desencadeador de reclamações, principalmente nas situações de política pública. “Se o cidadão vê na mídia o que ele tem vontade de falar, conclui que não está isolado”, afirma o pesquisador.

O antropólogo Roberto DaMatta diz que não se pode dissociar o comportamento omisso dos brasileiros da prática do “jeitinho”. Para ele, o fato de o povo não lutar por seus direitos, em maior ou menor grau, também pode ser explicado pelas pequenas infrações que a maioria comete no dia-a-dia. “Molhar a mão” do guarda para fugir da multa, estacionar nas vagas para deficientes ou driblar o engarrafamento ao usar o acostamento das estradas são práticas comuns e fazem o brasileiro achar que não tem moral para reclamar do político corrupto. “Existe um elo entre todos esses comportamentos. Uma sociedade de rabo preso não pode ser uma sociedade de protesto”, diz o antropólogo.

O sociólogo Pedro Demo, autor do livro Cidadania Pequena s (ed. Autores Associados), diz que há baixíssimos índices de organização da sociedade civil – decorrentes, em boa parte, dos também baixos índices educacionais. Em seu livro, que tem base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o sociólogo conclui que o brasileiro até se mobiliza em algumas questões, mas não dá continuidade a elas e não vê a importância de se aprofundar. Um exemplo é o racionamento de energia ocorrido há cinco anos: rapidamente as pessoas compreenderam a necessidade de economizar. Passada a urgência, não se importaram com as razões que levaram à crise. Para o sociólogo, além de toda a conjuntura atual, há o fator histórico: a colonização portuguesa voltada para a exploração e a independência declarada de cima para baixo, por dom Pedro I, príncipe regente da metrópole. “Historicamente aprendemos a esperar que a decisão venha de fora. Ainda nos falta a noção do bem comum. Acredito que, ao longo do tempo, não tivemos lutas suficientes para formá-la”, diz Demo.

Já vi roubo de carro e não denunciei
Solano Guedes, estudante de Artes Plásticas que evita se envolver em situações de confl ito em público

A historiadora e cientista política Isabel Lustosa, autora da biografia Dom Pedro I, um Herói sem Nenhum Caráter (ed. Companhia das Letras), acredita que os brasileiros reclamam, sim, mas têm dificuldades de levar adiante esses protestos sob a forma de organizações civis. “Nas filas ou mesas de bar, as pessoas estão falando mal dos políticos. As seções de leitores de jornais e revistas estão repletas de cartas de protesto. Mas existe uma espécie de fadiga em relação aos resultados das reclamações, especialmente no que diz respeito à política.” Segundo Isabel, quem mais sofre com a falta de condições para reclamar é a população de baixa renda. Diante da deterioração dos serviços de educação e saúde, o povo fica sem voz. “Esses serviços estão pulverizados. Seus usuários não moram em suas cercanias. A possibilidade de mobilização também se pulveriza”, diz.

Apesar das explicações diversas sobre o comportamento passivo dos brasileiros, os estudiosos concordam num ponto: nas filas de espera, nos direitos do consumidor ou na fiscalização da democracia, é preciso agir individualmente e de acordo com a própria consciência. “Isso evita a chamada espiral do silêncio”, diz o pesquisador Iglesias. O primeiro passo para a mudança é abrir a boca.

Paulo Procon, o campeão de reclamações

Em 1977, em plena ditadura, poucas pessoas falavam em direito do consumidor. Uma delas era o funcionário público piauiense Paulo Vinícius Basto. Naquele ano, Basto comprou um Fusca com defeito na parte elétrica. Mesmo sem o amparo de leis ou ouvidores, conseguiu fazer a Volkswagen trocá-lo por outro, ameaçando sustar o pagamento das prestações futuras. Trinta anos depois, Basto, de 55 anos, já fez 86 reclamações só no Procon do Distrito Federal. “Nunca perdi uma ação”, diz Basto, que ganhou o apelido de “Paulo Procon”. Basto tornou-se uma espécie de consultor informal de familiares e amigos no Tribunal de Contas da União, onde trabalha. “Não existe artigo do Código de Defesa do Consumidor que eu desconheça”, diz.

Paulo Procon guarda folhetos promocionais, manuais e notas fiscais. Certa vez, depois de comprar um toca-fitas, percebeu que a qualidade do som não era boa. Foi à loja tentar a substituição. Sem sucesso, fez uma reclamação por  escrito, em carta registrada. Foi ignorado. Parou de pagar as prestações até o departamento jurídico da empresa convocá-lo. “Quando o advogado da empresa leu minha carta, mandou devolver o dinheiro da compra”, diz. Ele já acionou companhias aéreas, operadoras de cartão de crédito e de TV por assinatura e lojas de informática, entre outros. “Nunca quis ganhar dinheiro fácil.” Mesmo assim, recebeu R$ 37 mil de indenização depois que um banco enviou indevidamente seu nome ao cadastro de inadimplentes do Serasa.

Selic, Brazil’s basic interest rate up .25%

So the Brazilian government has recognized the threat of inflation and has started a new cycle of interest hikes.  The quarter point adjustment announced by Central Bank President Trombini last week ends a cycle of record low interbank rates.  However, market expectation had been for a half point increase and some are questioning the autonomy of the Central Bank.  (Formally, it is not autonomous but has acted in a fairly independent manner over the period of the Real.)  So although reactions have been somewhat muted, the move favors banks and finance capital.  As typical of Brazil, the move was also related to scandal with a rumored leak of the adjustment to a major player in the meat industry.  This player is said to have made a major killing on the future’s market by using the insider information.  The CVM, (Brazil’s SEC) should investigate but probably won’t.

The implications for the broader economy are that with a new cycle of interest hikes, the consumer economy will weaken.  I am not convinced at this point that that is the case.  There is so much activity in the informal sector that does not get recorded which can keep consumers afloat for a while yet.  Also with Brazil’s inflation running at close to 7%a.a., real interest rates are still perceived as low by consumers and because margins are so high on products sold in Brazil, everyone can keep playing the game at least for a while.

On the other hand, the move will make people think about new investments and there is still so much uncertainty that projects will continue to be put off or slow paced.  None of this is new in Brazil and people will keep moving on.

In general, there is a mixture of extreme optimism and extreme cynicism co-mingling in the same person and same class.  We express horror at paying maids 25 dollars a day and  having to legally register them as employees with rights.  At the same time, we feel bad for the poor and wish that the government would just clean up “cracolandia” in downtown Sao Paulo.

President Dilma continues to navigate in choppy waters without much direction and policy decisions are looking increasingly adhoc and reactive.  But God is Brazilian so no worries except for the fact that the Pope is Argentine.

Rio news article on recent crimes/accidents with impact beyond Rio

In Portuguese: but the minivan rape was reported in the NY Times.

O Rio e a cultura da desordem
O estupro da turista na van que circulava ilegalmente na cidade e o desastre do ônibus que despencou do viaduto desvendam facetas de uma crise de falta de controles

6/04/13 – 0h00
Atualizado:
6/04/13 – 0h00
Como toda grande cidade, o Rio tem seu “lado b”. Em Nova York, a atenção policial precisa ser constante em bairros do outro lado do East River, em Paris não é aconselhável se aventurar na periferia (banlieue) etc. O Rio não é exceção. A política de pacificação de áreas dominadas pelo crime organizado se consolida e avança, com importantes resultados na redução da violência, embora ainda haja longo percurso até a criminalidade ficar em níveis “civilizados”, compatíveis aos de outras grandes centros urbanos do mundo desenvolvido.
O ataque ao casal de turistas que apanhou uma van na Zona Sul, com estupro e agressões generalizadas, fez soar o alarme para os mais otimistas. Logo em seguida, o ônibus da linha 328 (Castelo-Bananal) despencou de um viaduto na Avenida Brasil, matando sete passageiros e deixando vários feridos. Não são assuntos desconexos. Pode-se encontrar nos dois dramas características comuns, deformações com as quais os cariocas convivem, e que não serão extirpadas pelas UPPs. Se a van, registrada para fazer transporte apenas em Niterói, tripulada por bandidos, pôde apanhar passageiros no Rio, sem ser molestada pelos órgãos de fiscalização, o ônibus que se estatelou no asfalto da Avenida Brasil estava com a vistoria vencida desde dezembro. Acumulava 46 multas a partir de 2008, quando começou a circular. A ineficácia da vigilância no trânsito é cabal. A van atravessou a Ponte e estava em Copacabana quando o casal de turistas entrou nela pensando em ir para a Lapa. Nenhum agente público interveio. O ônibus, segundo relato de passageiros sobreviventes, trafegava em alta velocidade, tanto que não parou em vários pontos. Também ninguém viu.
É possível que o motorista, André Luís Silva Oliveira, já batesse boca com o passageiro Rodrigo dos Santos Freire, estudante de física no Fundão. Rodrigo teria agredido André, a causa final do desastre. Que poderia ter sido evitado se o Estado também não tivesse falhado no campo da prevenção policial: há pelo menos dois registros contra o motorista, na delegacia da Ilha do Governador, por agredir a mulher. Já seria o suficiente para a empresa e o próprio sindicato dos motoristas considerarem André um risco, e dar-lhe algum tipo de apoio. Para azar dos passageiros, André cruzou com Rodrigo, também com registros na mesma delegacia por brigas num condomínio em que morou. Nada é obra do acaso.
A informalidade e descontração, a cara do Rio, com o tempo geraram uma cultura de desordem e incivilidade. A cidade tem de ser informal e descontraída, mas quando setores vitais da administração deixam de funcionar, e a população, no cotidiano, não se preocupa com regras mínimas de convívio e de respeito ao bem público — lixo nas ruas, depredações de monumentos —, é porque está na hora de recolocar nos trilhos o jeito carioca de ser e de haver um efetivo choque de competência que aperfeiçoe os serviços públicos. As duas coisas também estão ligadas. Cabe ao Estado começar a acabar com o clima de “liberou geral”.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-rio-a-cultura-da-desordem-8040691#ixzz2PqYlHHpw

Happy 2013 Again

This is a bit late for April Fools Day and, in reality, it is kind of serious so I’ll put a light spin on it.

2013 did not really begin in Brazil until after Semana Santa (Holy Week). It’s a good thing we are on the Julian-inspired rather than the Orthodox calendar.  Were it an Orthodox calendar, the Brazilian New Year might not start until May!

At year’s end in Brazil, Brazilians wish everyone a “Happy a year in advance” as in Happy 2014.  You are supposed to feign surprise and ask what happened to incoming year (2013) and the practiced cynic will wink and say that 13 promises to be worse than 12 so we may as well deposit our hopes another 12 months out.  Brazilians love to joke and we are also great cynics.

It is interesting that the Lula years brought significant optimism as well as growth with social inclusion in a democratic framework.  So what is there not to like?  The problem is that the growth model shows clear signs of exhaustion.  Everyone talks about sustainability in Brazil but the fear is that the country only “flies like a chicken”, that it never takes off and cannot seem to find firm footing that would make growth more organic and less subject to the typical swings between unsupported optimism and unrealistic pessimism.

I hope that the generation born in the nineties and currently coming to adulthood can advance and develop a clear and acceptable project for Brazil.  My generation had several goals.  The most obvious was to get rid of the dictatorship and, in so far, as the military returned to the barracks, we were successful.  We contributed to but did not finish the construction of democratic institutions.  We labored under the weight of the Iberian patrimonial heritage, the peripheral position and the “blessing” of an elite that is more self serving than altruistic.

The internet, with more ample access to information, helps.  Young people can see the possibility of actually changing things although fatalism and passivity still exist.  And education (especially public) keeps falling in quality and does a great disservice to any notion of progress.  Still many, many things are improving.

Darcy Ribeiro continues to be one of my heroes and as he stated, we are getting there “aos trancos e barrancos.”