Nos Embalos do Fim de Ano

Estou com a perna engessada e, portanto, com a locomoção reduzida e então deve sobrar um tempo para refletir. Na realidade baixa um pouco de Macunaíma e ai digo: que preguiça.

De perna para o ar, tive tempo de assistir Nos Embalos de Ipanema. E’ uma pornochanchada de 1978 com a direção de Antonio Calmon. O filme conta a historia de um rapaz de subúrbio que tem o sonho de surfar no Havaí. Assim temos o “set up” de Zona Norte x Zona Sul, pobre x rico, anseio de mudança, decadência social, principalmente da classe media mas a classe baixa também e’ contaminada. Ainda contem os temas sexuais com a mudança de costumes, o homo sexualismo e as opções sexuais das jovens num mundo dominado pelo machismo.

Em 1978, estávamos no governo Geisel com a promessa da distensão lenta e gradual mas podemos observar que a mudança de costumes sociais estava na frente das mudanças de política. Teríamos ainda 5 anos do governo Figueiredo e ainda mais 5 do Sarney depois da inoportuna morte do Tancredo Neves. Assistindo o filme, fica claro que já estava em curso a revolução sexual no Brasil.

Ainda da para fazer os seguinte reparos. Ipanema parecia um pouco mais limpo, o estacionamento era com certeza mais fácil e tinha certa facilidade de entrar diretamente nos prédios sem câmeras e segurança. Continua a distinção entre classes mas hoje a sexualidade e as opções representadas no filme estão passando na TV a qualquer hora e sem censura.

A censura e preocupação com a falta de moralismo tradicional das pornochanchadas me lembra um pouco a conversa em torno de corrupção hoje. Todo mundo condena mas ha uma passividade que a permite. A forma que os indivíduos na década de setenta se libertaram foi através de escolhas que a sociedade acabou permitindo em nome de direitos e ampliação do raio de atuação do individuo. A corrupção também resulta de escolhas e opções feitas por indivíduos. E como no caso de preservar a virgindade (feminina), a honestidade talvez não seja mais uma opção para quem esta inserido no mundo de negócios.

Me lembro na década de 70, que tinha um certo receio moral em assistir as chanchadas. Recém casado, a esposa não gostava e as famílias tradicionais condenavam as praticas libertinas ou liberais, bem como a mudança de valores retratada no cinema. Havia uma certa hipocrisia e’ certo mas….

A luta contra corrupção tem o paralelo. Ninguém gosta mas tem gente que pratica. Grandes parcelas condenam mas por outro lado ha muita acomodação e passividade. Na década de 70, acabou prevalecendo o valor individual na escolha de atividades sexuais, talvez amanha podemos chegar a um consenso que escolhas individuais não corruptas ou corruptoras também sejam normativas. Assim a corrupção passa a ser uma atividade atípica e não normal.

Falta ainda o quadro institucional. Só’ agora, e aqui tiro o chapéu, não sei, se para a Dilma ou para o PF e judiciário. Pela primeira vez, temos um inicio de praticas legais que resultam em punições reais e significantes. Finalmente membros da classe política e da elite empresarial estão sendo julgados, condenados e punidos com prisão. Se continuar assim talvez a corrupção como a virgindade vai deixar de ser algo primordial e sem hipocrisia.

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