Intelligence, Education and “Esperteza” in Brazil

There are a lot of intelligent people in Brazil who for whatever reason have had limited access to formal education. Then there are also many who seem to lack in brainpower but nevertheless hold university degrees of all types. Indeed, education remains a growth industry in Brazil, despite its currently bleak economic outlook.   Most Brazilians aspire to higher levels of education and schooling, perhaps more than intelligence. Formal education is seen as a requirement for social ascension or maintenance of one’s status in a rigid social structure. Unpopular as she is, President Dilma insists on the theme of “Patria Educadora” to shore up her government. After all, who is not in favor of better and more instruction at all levels?

The table, at the end, contains four quadrants showing education and intelligence and suggests examples of different possible interactions and how individuals could be classified.

In simplistic terms, it might be easy to read the bottom left quadrant as the losers with little intelligence and consequently little education. On the other hand, the top right would be the winners who are both smart and schooled. In real life, things are more complicated and in Brazil more complex still. If we pull some contemporary names and fit them into the table, who might we find?

Lula, for example, scores low on formal education but undoubtedly is not dumb. He was a successful president elected to two terms. Obama called Lula “The Man” on meeting him the first time. Fernando Henrique Cardoso, the president prior to Lula, scores high in intelligence (author of many books and scholarly articles) as well as high in formal education.

In Brazil, in particular, (but elsewhere too) there is a missing component.   Brazilians call it “esperteza” or being street smart. Lula scores high in this category but FHC, as a politician, is no slouch either. In more generic terms, and not looking at presidents of the past or future, other categories can be used to fill in the boxes. A surgeon, for example, should score high on both education and intelligence. A successful salesman, on the other hand, could score high on intelligence but have only a modest education, as the formal barriers to his chosen carrier path are low.

Claudio Moura Castro, Simon Schwartzman are noted intellectuals in Brazil and able to speak to the positive impact of education and the importance of intelligence.   In turn, Roberto da Matta, the anthropologist, is one of the main students of “esperteza” or Brazilian street smarts. While all their analyses bemoan Brazil’s elitism, they are also attuned to the importance of being “clever” so as to gain advantage in Brazilian society.

Overall, because education is a scarce commodity with restricted access, Brazilians rely heavily on the quality of being “espertos”. Garrincha is a foremost and respected sports example. Reputedly, Garrincha scored poorly on intelligence tests and certainly had but a bare minimum of formal education. Nevertheless, he was a genius on the soccer field and certainly smart and attractive enough to marry a beautiful and successful singer. Other examples abound. Silvio Santos, the founder and owner of Brazil’s second most successful TV empire, parlayed his street vendor smarts into the creation of a media empire. Many evangelical ministers from the slums educate themselves and bootstrap up cleverly expounding the gospel and collecting tithes. Some even wind up in Congress. Tiririca, the well-known clown, received more votes than other Congressmen but was almost purged due to allegations that he could neither read nor write. So examples of intelligence mixed with being “clever” illustrate both disdain and the failure of the formal education.

In the developed world, there is a high correlation between education and intelligence and the convergence of the two through professional associations, regulations and cultural norms that reduce the role of the savvy and worldly. Sometime being too clever is considered bad form, particularly in first world “civilization”.

In Brazil, on the other hand, there is no lack of intelligence. The weakness is in consolidating education with brainpower. The R (correlation) is lower than it should be; while, at the same time, the culture takes pride in success through “esperteza”. The societal end result is disrespect for politicians, suspicion of the successful, envy of the powerful and apathy/distaste and cynicism in the electoral arena.

Table 1

Possible Correlation of Intelligence and Education

Quadrant 1: High Education, Low Intelligence Quadrant 3: High Education, High Intelligence

Fernando Henrique Cardoso

Quadrant 2: Low Education, Low Intelligence

Garrincha

Quadrant 4: Low Education, High Intelligence

Lula

In the table, Garrincha, FHC and Lula fall into different quadrants but also demonstrated “esperteza” and were highly successful.

Para Quem Rosna o Brasil – Artigo de Eliana Blum copiado do Jornal El Pais 20-julho-2015

Copio abaixo artigo escaldante da Eliana Blum.  Acho ela um pouco pessimista e gostaria de comentar ou debater alguns dos pontos principais.

O que é o Brasil, agora que não pode contar nem com os clichês? Como uma pessoa, que no território de turbulências que é uma vida vai construindo sentidos e ilusões sobre si mesma, um país também se sustenta a partir de imaginários sobre uma identidade nacional. Por aqui acreditamos por gerações que éramos o país do futebol e do samba, e que os brasileiros eram um povo cordial. Clichês, assim como imaginários, não são verdades, mas construções. Impõem-se como resultado de conflitos, hegemonias e apagamentos. E parece que estes, que por tanto tempo alimentaram essa ideia dos brasileiros sobre si mesmos e sobre o Brasil, desmancharam-se. O Brasil hoje é uma criatura que não se reconhece no espelho de sua imagem simbólica.

Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato ao recebimento de 5 milhões de dólares em propina, brada: “Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.

Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos der a notícia.

Os linchamentos dos corpos nas ruas e o strip-tease das almas na internet desmancharam as últimas ilusões sobre o brasileiro cordial

Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.

O futebol continua a falar de nós em profundezas, basta escutar a largura do silêncio das bolas dos alemães estourando na nossa rede nos 7X1 da Copa das Copas, assim como o discurso sem lastro, a não ser na corrupção, dos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas, se já não somos o país do futebol, de que futebol somos o país?

Tampouco lamento o fato de que “mulata” finalmente começa a ser reconhecido como um termo racista e não mais como um “produto de exportação”. E lamento menos ainda que a suposta existência de uma “democracia racial” no Brasil só seja defendida ainda por gente sem nenhum senso. Os linchamentos dos corpos nas ruas do país e o strip-tease das almas nas redes sociais desmancharam a derradeira ilusão da imagem que importávamos para nosso espelho. Quando tudo o mais faltava, ainda restavam os clichês para grudar em nosso rosto. Acabou. Com tanto silicone nos peitos, nem o país da bunda somos mais.

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Quando os clichês, depois de tanto girar em falso, tornam-se obsoletos, ainda se pode contar com o consumo de todas as outras mercadorias. Mas, quando o esfacelamento dos imaginários se soma ao esfacelamento das condições materiais da vida, o discurso autoritário e a adesão a ele tornam-se um atalho sedutor. É nisso que muitos apostam neste momento de esquina do Brasil.

É também isso que explica tanto um Eduardo Cunha na Câmara quanto pastores evangélicos que pregam o ódio para milhões de fiéis e apresentadores de TV que estimulam a violência enquanto fingem denunciá-la. Estes personagens paradigmáticos do Brasil atual formam as três faces de uma mesma mediocridade barulhenta e perigosa, que se expressa por bravatas diante das câmeras. Numa crise que é também de identidade, forjam realidades que possam servir ao seu projeto de poder e de enriquecimento para abastecer a manada. Esta, por sua vez, prefere qualquer falsificação ao vazio.

A invenção de inimigos para a população culpar virou um negócio lucrativo num país com a autoimagem fraturada

Para estes personagens tão em evidência, quanto mais medo, melhor. Inventar inimigos para a população culpar tem se mostrado um grande negócio nesse momento do país. Se as pessoas sentem-se acuadas por uma violência de causas complexas, por que não dar a elas um culpado fácil de odiar, como “menores” violentos, os pretos e pobres de sempre, e, assim, abrir espaço para a construção de presídios ou unidades de internação? Se os “empreendimentos” comprovadamente não representam redução de criminalidade, certamente rendem muito dinheiro para aqueles que vão construí-los e também para aqueles que vão fazer a engrenagem se mover para lugar nenhum. Depois, o passo seguinte pode ser aumentar a pressão sobre o debate da privatização do sistema prisional, que para ser lucrativo precisa do crescimento do número já apavorante de encarcerados.

Se há tantos que se sentem humilhados e diminuídos por uma vida de gado, porque não convencê-los de que são melhores que os outros pelo menos em algum quesito? Que tal dizer a eles que são superiores porque têm a família “certa”, aquela “formada por um homem e por uma mulher”? E então dar a esses fiéis seguidores pelo menos um motivo para pagar o dízimo alegremente, distraídos por um instante da degradação do seu cotidiano? Fabricar “cidadãos de bem” numa tábua de discriminações e preconceitos tem se mostrado uma fórmula de sucesso no mercado da fé.

A invenção de inimigos dá lucro e mantém tudo como está, porque, para os profetas do ódio, o Brasil está ótimo e rendendo dinheiro como nunca. Ou que emprego teriam estes apresentadores, se não tiverem mais corpos mortos para ofertar no altar da TV? Ou que lucro teria um certo tipo de “religioso” que criou seu próprio mandamento – “odeie o próximo para enriquecer o pastor”? Ou que voto teria um deputado da estirpe de Eduardo Cunha se os eleitores exigissem um projeto de fato, para o país e não para os seus pares? Para estes, que estimulam o ódio e comercializam o medo, o Brasil nunca esteve tão bem. E é preciso que continue exatamente assim.

A ilusão mais sedutora do governo Lula era a de criar um Brasil igualitário sem mexer nos privilégios dos mais ricos

Se o governo Lula, na história recente do país, fundou-se sobre um pacto de conciliações, para compreendê-lo é necessário também decodificá-lo como um conciliador de imaginários. Lula, o líder carismático, foi muito eficiente ao ser ao mesmo tempo o novo – “o operário que chegou ao poder” num país historicamente governado pelas elites – e o velho –, o governante “que cuida do povo como um pai”. A centralização na imagem do líder esvazia de força e de significados o coletivo. Do mesmo modo, a relação entre pais e filhos alçada à política atrasa a formação do cidadão autônomo, que fiscaliza o governo e concede ao governante, pelo voto, um poder temporário.

Mas a ideia mais sedutora do governo Lula, em especial no segundo mandato, era a possibilidade de incluir no mundo do consumo milhões de brasileiros e reduzir a miséria de outros milhões sem tocar no privilégio dos mais ricos. Este era um encantamento poderoso, que funcionou enquanto o Brasil cresceu, mas que, qualquer que fosse o desempenho da economia, só poderia funcionar por um tempo limitado num país com acertos históricos para fazer e uma desigualdade abissal. Enquanto o encanto não se quebrou, muitos acreditaram que o eterno país do futuro finalmente tinha chegado ao futuro. O Brasil, que valoriza tanto o olhar estrangeiro (do estrangeiro dos países ricos, bem entendido), leu-se como notícia boa lá fora. A Copa do Mundo aqui foi sonhada para ser a apoteose-síntese deste Brasil: enfim, o encontro entre identidade e destino.

Não foi. E não foi muito antes dos 7X1. Essa frágil construção simbólica, que desempenhou um papel muito maior do que pode parecer na autoimagem do Brasil e nas relações cotidianas da população na história recente, exibiu vários sinais de que se quebrava aqui e ali, vazando por muitos lados. Sua ruína se tornou explícita nas manifestações de junho de 2013, protestos identificados com a rebelião e com a esquerda, apesar da multiplicidade contraditória das bandeiras. Quem acha que 2013 foi apenas um soluço, não entendeu o impacto profundo sobre o país. A partir dali todos os imaginários sobre o Brasil perderam a validade. Assim como os clichês. E a imagem no espelho se revelou demasiado nua. E bastante crua.

O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado

O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado. Entre tantas realidades simultâneas, este é o país que lincha pessoas; que maltrata imigrantes africanos, haitianos e bolivianos; que assassina parte da juventude negra sem que a maioria se importe; que massacra povos indígenas para liberar suas terras, preferindo mantê-los como gravuras num livro de história a conviver com eles; em que as pessoas rosnam umas para as outras nas ruas, nos balcões das padarias, nas repartições públicas; em que os discursos de ódio se impõem nas redes sociais sobre todos os outros; em que proclamar a própria ignorância é motivo de orgulho na internet; em que a ausência de “catástrofes naturais”, sempre vista como uma espécie de “bênção divina” para um povo eleito, já deixou de ser um fato há muito; em que as paisagens “paradisíacas” são borradas pelo inferno da contaminação ambiental e a Amazônia, “pulmão do mundo”, vai virando soja, gado e favela – quando não hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.

Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.

Neste Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT), acuada por ameaças de impeachment mesmo quando (ainda) não há elementos para isso, é um personagem trágico. Vendida por Lula e pelos marqueteiros na primeira eleição, a de 2010, como “mãe dos pobres”, ela nunca foi capaz de vestir com desenvoltura esse figurino populista, até por sinceridade. Quando tenta invocar simbologias em seus discursos, torna-se motivo de piada. O slogan de seu segundo mandato – “Brasil, Pátria Educadora” – não encontra nenhum lastro na realidade, virando mais uma denúncia do colapso da educação pública do que o movimento para recuperá-la. Parece que os marqueteiros tampouco entendem o Brasil deste momento e seguem acreditando que basta criar imagens para que elas se tornem imaginários. O próprio Lula parece ter perdido sua famosa intuição sobre o Brasil e sobre os brasileiros. Em suas manifestações, Lula soa perdido, intérprete confuso de um Brasil que já não existe.

Os protagonistas das manifestações de 2015 gritam também para manter seus privilégios

Agora que já não contamos com os velhos clichês e imaginários, a crueza de nossa imagem no espelho nos assusta. Diante dela e de uma presidente com a autoridade corroída, cresce a sedução dos autoritarismos. Nada mais fácil do que culpar o outro quando não gostamos do que vemos em nós. Em vez de encarar o próprio rosto, cobre-se a imagem perturbadora com alvos a serem destruídos. Aqueles que encontram nesta adesão aos discursos autoritários uma possibilidade de ascensão, esquecem-se da lição mais básica, a de que não há controle quando se aposta no pior. Só há chance se enfrentarmos conflitos e contradições com a cara que temos. É com esses Brasis que precisamos nos haver. É essa imagem múltipla que temos de encarar no espelho se quisermos construir uma outra, menos brutal.

O que o governo Lula adiou, ao escolher a conciliação em vez da ruptura com os setores conservadores, está na mesa. Há várias forças se movendo para encontrar uma nova acomodação, que evite o enfrentamento das contradições e das desigualdades. É pelas bandeiras da reacomodação que as ruas foram ocupadas em 2015 pelo que alguns têm chamado de “nova direita”. Esta, se adere à novidade da organização pelas redes sociais e aparentemente se coloca fora dos esquemas tradicionais da política e dos partidos, talvez seja menos “nova” do que possa parecer nas questões de fundo.

A próxima manifestação, marcada para 16 de agosto, é acompanhada com atenção pelos políticos e partidos tradicionais que conspiram pelo impeachment da presidente eleita. Os manifestantes de 2015 gritam contra a corrupção, mas basta escutá-los com atenção para compreender que gritam para deixar tudo como está. E, se possível, voltar inclusive atrás, já que uma parte significativa parece ter se sentido lesada por políticas como a das cotas raciais e outros tímidos avanços na direção da reparação e da equidade. A redução da maioridade penal, assim como outros projetos conservadores em curso, são também exemplos de uma resposta autoritária – e inócua – para o esgarçamento crescente das relações sociais e para a violência.

Há muito barulho sendo produzido hoje, como o próprio discurso de Eduardo Cunha em cadeia nacional (17/7), para desviar o foco do grande nó a ser desatado: não haverá justiça social e igualdade no Brasil sem tocar nos privilégios. Muita gente bacana ainda segue acreditando no conto de fadas de que é possível alcançar a paz sem perder nada. Não é. Quem quiser de fato reduzir a violência e a corrupção que atravessa o Brasil e os brasileiros vai ter de pensar sobre o quanto está disposto a perder para estar com o outro. É este o ponto de interrogação no espelho. É por isso que o som ameaçador dos dentes sendo afiados cresce. E cresce também onde menos se espera.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Que Sera’?

Mais uma semana conturbada e interessante: Lula na mira, Collor, Cunha, Renan e Dilma também, sem falar do Ministro Levy. Que coisa, hein?

Os eventos estão me lembrando da expressão do Benedito Valadares: “Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.” Será que as oligarquias estão ficando sem reposta e divididas? O PT hoje se tornou parte da elite, por projeto de seus lideres e por engano de seus seguidores. Então faz parte da oligarquia. Ate ha pouco tempo atrás, iniciando por volta do movimento “Diretas Já” e a Constituição “Colcha de Retalhos” de 1988, prevalecia a noção totalmente patriarcal do tudo para os amigos do rei. Agora em 2015 com os erros e a ganância pelo poder e pelo dinheiro do PT, da-se conta de que, de repente a lei finalmente e’ para todos e não só os inimigos do poder. A noção e’ perigosa para quem e’ ou foi do lado do “tudo”.

A patinação na definição do modelo econômico agrava a crise e a produção encolhe (exceto no complexo agro-industrial). Assim falta excedente para alocação de cargos e recursos o que por sua vez agrava a situação política. Mas tem um lado positivo. Na falta de benesses e diante do esgotamento da capacidade distributiva do Estado, demanda-se acesso igual para todos. Os clamores de “fair play” começam a pipocar em toda parte. Ironicamente, ate os escândalos do futebol e da FIFA deram sua contribuição.

Dentro do quadro conturbado e diante da situação onde todos tem “culpa no cartório”, a pergunta e’: onde estão as lideranças e os movimentos sociais que deveriam apontar o caminho institucional de legalidade e construção?

Durante os governos militares, a população assistiu passivamente a crise de saúde do Presidente General Costa e Silva mas não deixaram de criar um poeminha de sabedoria popular, tratando da sucessão. “Nada fiz, nada deixo. Nessa b%#&* eu não mexo, assinado _____________________”

A expectativa e’ de que haverá um quadro institucional e regras mais legitimas do que aquelas impostas pelos militares e portanto espera-se que não haja algo como a “renuncia” forcada de um Vice Presidente, ou arranjos pouco legítimos como o parlamentarismo.

Pontos para quem complete a rima!

Alem dos Desafios Atuais: Brasil a Longo Prazo

“O Brasil esta’ onde sempre esteve”

E’ sempre um desafio tentar pensar o Brasil a longo prazo.   As noticias, e mesmo muitas analises serias e conseqüentes, tem quase sempre um horizonte de poucos dias ou semanas, ou ate’ a próxima eleição ou talvez 2018. O imediatismo não deixa de ter seu valor. E’ preciso entender a conjuntura, porem olhando apenas o momento, deixa-se de pensar e visualizar o objetivo maior ou onde realmente quer se chegar.

Entre as pessoas que pensam, vivem e participam no Brasil, ha nitidamente um anseio para uma sociedade mais justa, mais igualitária, menos racista, com melhor distribuição de renda e, talvez mais importante, um obvio desejo de acesso amplo a todas as oportunidades. As pessoas querem mudanças políticas e o aperfeiçoamento de um sistema democrático com eleições periódicas que permitem participação. Querem também acesso as informações tanto das mídias tradicionais (TV e radio) mas também através das redes sociais e internet.

Quando o discurso político não esta’ centrado apenas na corrupção ou ma administração, os políticos de quase todos os partidos e matrizes propagam a mesma mensagem. Existe então formalmente um consenso, embora difuso, que o Brasil e’ uma sociedade democrática em sua definição e anseio.

Já o consenso em torno da economia e da produção e’ bem mais complicado. Existem, de fato, muitos monopólios privados e estatais. Os monopólios ou oligopólios controlam setores importantes da economia tanto na produção quanto no setor financeiro. Ademais ha uma tendência para mais concentração.

Ha um conflito entre a esquerda e a direita em termos lingüísticos, mas todos são “nacionalistas” e almejam o controle do aparato estatal que possibilita a distribuição de recursos. Embora haja, por parte da esquerda, uma critica severa aos neo liberais (leia-se principalmente Tucanos e Dems), nenhum dos lados quer largar o estado enquanto aparato de distribuição de benesses para os partidários e amigos.  Diferente dos europeus ou americanos, não ha praticamente ninguém no Brasil que se declare abertamente a favor da economia de mercado livre ou seja, o essencial do capitalismo, dito liberal com um estado menor. Simplificando, a briga entre o PT e o PSDB e’ essencialmente furada e os demais partidos são mais fisiológicos ou irrelevantes.

O embate político do dia a dia não leva em conta, de forma direta, o fluxo demográfico. Quem, por exemplo, esta pensando e planejando o Brasil de 240 milhões de pessoas e com a proporção de idosos “aposentados” crescendo por um fator de 3 nos próximos 35 anos.   O bônus demográfico, de hoje, onde se tem uma forca de trabalho jovem e produtiva, estará se acabando nos próximos 25 anos e então o Brasil e o INSS terão uma situação, que será, se mal administrada, bem pior do que a Grécia.

Outro assunto de impacto imediato, mas não tão claro em suas conseqüências e’ a mudança climática. Brasil como pais de extensão continental, e dono da maior parcela da Amazônia, tem uma responsabilidade de alcance alem de suas fronteiras. Ate hoje, com a população concentrada na costa Atlântica, a Amazônia e seu impacto sobre o clima, tem sido ignorado. A conscientização em torno do problema vem crescendo, mas quais diretrizes o Brasil realmente vai implementar continuam nebulosas e sem definição.

A população quer educação e o governo oferece o lema “Pátria Educadora”. Entretanto, não se vê substancia. Sim, a instrução, principalmente a primaria, precisa de muita atenção. No momento de crise, os recursos estão minguando e corre o risco de perpetuação do falso ensino para aprovar todos no sistema. A expansão do ensino de base não esta’ sendo acompanhada por melhorias de qualidade. Ao contrario, o ensino básico cai, a não ser em raras e honrosas exceções. Parte do problema e’ a segurança, que por sua vez e’ tratada apenas como problema policial e não de forma mais ampla.

E provável que ao longo das próximas décadas, avanços serão feitos. Afinal existe riqueza econômica e população com recursos que não dependem do governo, ou de quem esta’ no poder.

Cada vez mais, fica claro para aqueles que estão ascendendo socialmente, que o estado não tem condições de empregar mais gente. Então a sociedade civil esta criando alternativas próprias fora do âmbito do controle direto do Estado. Na ausência de políticas publicas que funcionam, a sociedade acaba tendo que criar um caminho. O processo e’ lento mas ha cada vez mais o reconhecimento que o Estado tem muitas limitações diante do tamanho e complexidade do pais.

Neste sentido, As mudanças tecnológicas oferecem algo favorável. A abundancia de informações disponíveis pela internet e pela participação na mídia social, tem um poder de transformação oferecendo educação e empreendedorismo para quem tem a iniciativa.   Novas oportunidades fora do Estado e que não dependem do governo ou de grandes corporações, oferecem um caminho alternativo para realização e atualização individual, social e política.

O Brasil e o governo atual esta de saia justa, mas a crescente complexidade cria cada vez mais desafios, mas também novas oportunidades que podem ser vislumbradas com relativa otimismo.   Evidentemente, e com tempo, tem que ter soluções para os problemas estruturais e espera-se que, apesar do momento difícil, haverá progresso a partir da mobilização da sociedade, apesar das políticas do momento e em oposição aos políticos de hoje.

A

Dilma’s US Trip: The Take Away

Dilma’s popularity may have received a mini-boost with her visit to the USA. But it’s hard to find any immediate evidence of a boost beyond the thawing of U.S.-Brazil relations. It’s clear that Brazil needs the US more than the US needs Brazil. Obama might have been too gracious in describing Brazil as a “great power”.

As with all presidential visits, the objectives of Dilma’s trip, maybe better, the intentions, were outlined in a joint communiqué, which spoke about the ongoing dialogue in economic cooperation, energy and defense between Brazil and the United States.

As China’s economy has slowed, so has Brazil’s. Dilma was trying to make up some of the ground that Brazil’s manufacturers have lost in the US during the past 15 years. Obama, in turn, hopes to promote US exports to Brazil, especially in the energy sector both in oil and other areas. The devil is always in the details. A closer reading of the joint communiqué reveals intentions but little change of substance.

Brazil maintains it traditional stance on imports (make it hard) and Dilma did not budge on her push for local content in the oil industry and deep sea drilling.

One positive gain for Brazil or at least JBS, Brazil’s largest meat company and the owner of numerous assets in the US, is the promise of opening the US market to Brazilian fresh beef. This is suppose to be a two-way exchange but it remains to be seen how much can actually happen on this front.

Another significant gain, not only for Brazil, but also for other nations, was the renewal of GSP (the General System of Preferences) on June 29, ending a two-year suspension of the program.

The joint communiqué also covered travel, education, science and technology and innovation. The main points here are muted in the their effect. The U.S. requires that Brazilians have visas before entering the U.S. This requirement will not be dropped despite the wishes of some. The US is instead offering a Global Entry Program for business and elite Brazilians. The program will continue to require a visa for Brazilians, together with a FBI background check in return for being able to use a computerized kiosk at some U.S. airports.

The agenda on science and technology was pretty much wrapped up in the Science without Borders Program.  Recently, Brazil has sent close to 30 thousand students to US universities but budget problems are delaying payments. Apparently University of California President Janet Napolitano made mention of the issue. Finally, on Dilma’s last day in the Bay Area, she made a big deal of riding around in Google’s driverless Prius and stated she never expected such “innovation”. Meanwhile in Brazil, people jokingly refer to the driverless country.  More positively, on the other hand, Google is substantially increasing its investment in its research center in Belo Horizonte, Minas Gerais.

Obama got Dilma to commit to zero deforestation by 2030.   This is largely a vague promise as Dilma will be termed out in 3 years and her current policy at home involves expansion of Brazil agricultural frontier and greater use of the Amazon’s water resources for energy. Both of which involve cutting down trees.

Dilma and Obama also put in writing their “agreement” on Syria, the Israeli-Palestinian conflict (“two state solution”) and hunger and poverty in the Caribbean (i.e. Haiti) and Africa. Brazil has committed troops under the UN flag in Haiti as well as having a long-standing involvement in Angola and Mozambique, two former Portuguese colonies. In short, Dilma and Obama agreed that the solution in the  Middle East must be diplomatic and that hunger should be addressed in Haiti and Africa. All this is very nice but a bit short on details.

Jacques Wagner, Brazil’s defense minister, signed a couple of defense accords which in the heyday of former Brazilian President Lula probably would have been regarded as a submission to “Yankee” forces. Nevertheless, the accords were proudly presented as positive for the possible benefits to Brazil’s aerospace industry in Sao Jose dos Campos.

Overall, it is interesting to note how the reaction of Dilma’s labor party to her U.S. visit. Just as she was leaving for the US, the labor party held its annual convention and produced its program statement. Some of the main economic and political points include: “free Brazil from the dictatorship of finance capital” and give it more “autonomy” from the financial system controlled by the USA and Europe. The party states the need for a new financial structure through the recently created mechanisms of the “Bank of the South” (UNASUL), the BRICS development bank and the Chinese-controlled Asian Development and Industry Bank.

Obviously, the labor party program is either disconnected from Dilma or she is in a “tight skirt” with her party backers as she engages with Obama and the “Yankee imperialists” of Wall Street.

Brazil is a complicated place. The rhetoric and political demands, the nationalism, and the tone often do not match what happens in the country’s economic engagement with the rest of the world. Dilma’s ideological cohort is perhaps looking more to Greece and the Grexit with applause while her economic and technocratic teams serve up the country as an important attraction to the “Colossus of the North”.

Contradictions abound and keep things interesting but perhaps a little too much so.