Comentarios sobre a Entrevista do Sociologo Portugues Boaventura de Sousa Santos

Meus comentários estão vermelho.

Entrevista longa mas levanta muitas questões. Paciência!

A entrevista foi publicado na Folha de São Paulo no domingo 30 de agosto de 2015. Republiquei a entrevista em meu blog no 1 de setembro sem comentários.

Boaventura de Sousa Santos – O mundo é demasiado vasto para que possamos ter uma idéia global de como vai a esquerda, até porque em muitas regiões do mundo as clivagens sociais e políticas são definidas em dicotomias distintas da dicotomia esquerda/direita. Por exemplo, secular/religioso, cristão/ muçulmano, hindu/muçulmano, branco/negro, etnicamente X/etnicamente Y.

Na medida em que a dicotomia está presente, a definição dos seus termos é, em parte, contextual. Nos EUA, o partido democrático é um partido de esquerda mas na Europa ou América Latina seria considerado um partido de direita. O partido comunista chinês é de esquerda? Com estas cautelas, há que começar por perguntar: o que é a esquerda?

À escala do mundo só é possível uma resposta minimalista. (Sim, concordo com o minimalismo, entretanto falta posicionar sobre a questão de propriedade) Esquerda é toda a posição política que promove todos (ou a grande maioria dos) seguintes objetivos: luta contra a desigualdade e a discriminação sociais, por via de uma articulação virtuosa entre o valor da liberdade e o valor da igualdade; defesa forte do pluralismo, tanto nos mídia como na economia, na educação e na cultura; democratização do Estado por via de valores republicanos, participação cidadã e independência das instituições, em especial, do sistema judicial; luta pela memória e pela reparação dos que sofreram (e sofrem) formas violentas de opressão; defesa de uma concepção forte de opinião pública, que expresse de modo equilibrado a diversidade de opiniões; defesa da soberania nacional e da soberania nacional de outros países; resolução pacífica dos conflitos internos e internacionais.

Se esta definição, apesar de minimalista, parecer maximalista, isso é já parte da minha resposta. Ou seja, olhando mundo à nossa volta, um mundo de concentração da riqueza a um nível sem precedentes (na realidade, o mundo nunca foi tão igual e tão pacifico), de corrupção endêmica, de racismo e de xenofobia (ambos com certeza existentes mas nunca foram tão condenados quanto hoje), de esvaziamento da democracia por via da privatização do Estado por parte de interesses poderosos, de concentração midiática (grande mídia, desconcentração nas redes sociais), de guerras internacionais e civis de alta e de baixa intensidade, não podemos deixar de concluir que um mundo assim não é um mundo cuidado pela esquerda. É, de fato, um retrato cruel da crise da esquerda. (Difícil apontar os sucessos da esquerda: Cuba?, China ?, Rússia? Venezuela? Bolívia? Chile de Allende? Portugal pôs revolução? Argentina neo peronista?

A crise de 2008 e as medidas de austeridade impulsionaram movimentos de protesto em vários países, como na Espanha e na Grécia. Há uma leitura global para isso? A esquerda soube aproveitar o tempo de crise capitalista?

As medidas de austeridade são o que fora da Europa sempre se chamou política de ajuste estrutural, uma política de que sempre foi campeão o FMI. São sempre medidas de privatização e de concentração da riqueza nacional, de redução das políticas sociais (saúde, educação, pensões etc.) e de diminuição do peso do Estado na economia e na sociedade. Tem-se chamado, a essa política, neoliberalismo. (Vale a definição mas…..)

Essa política foi seguida nos últimos 30 anos em muitas partes do mundo e, portanto, muito antes da crise de 2008. A crise de 2008 foi o resultado da desregulação do capital financeiro na década anterior. E o mais dramático foi que a crise foi ‘resolvida’ por quem a causou. Daí a situação de volatilidade financeira permanente em que nos encontramos. Na Europa, a crise de 2008 acabou por ser o pretexto para estender a política neoliberal a uma das regiões mais ricas do mundo. (Para ter políticas sociais e riqueza para pagar as políticas sociais precisa-se de geração de valor, o neo-liberal (social-democrata?) advoga geração com distribuição politicamente controlada. Quando o estado não consegue arrecadar para redistribuir e’ porque faltou geração de valor ou a geração pelo estado foi insuficiente.)

Os movimentos de protesto foram muito distintos mas tiveram, em geral, duas bandeiras: a luta contra a concentração da riqueza (os 99% contra os 1%) e pela democracia real (no caso da Primavera Árabe era luta pela democracia sem adjetivos). Essas duas bandeiras estão inscritas no DNA da esquerda. Mas, na Europa, a esquerda social-democrática (partidos socialistas e partido trabalhista inglês) tinham-se rendido há muito ao neoliberalismo através do que se chamou a terceira via, que, de fato, foi um beco sem saída. (Ok mas a esquerda não apresenta alternativa melhor? E também não explica o que e democracia real…..os países árabes nunca foram democráticos, são sociedades tribais, e nos países tradicionalmente “democráticos” o processo político esta sempre em construção.

Nessa esquerda não havia alternativa à resolução da crise financeira mesmo que tivesse havido poder para a impor. Na esquerda-à-esquerda houve novidades. Tanto na Grécia como na Espanha houve vitórias importantes, a emergência do Syriza e do Podemos. (Syriza faz aue mas não resolve, falta o poder a Podemos e ainda assim não vai mudar a questão de propriedade).

Mas o problema maior foi que a esquerda européia no seu conjunto não se deu conta de que o Banco Central Europeu e o euro tinham sido criados segundo o mais puro catecismo neoliberal. Disso resultou que as instituições européias são hoje mais neoliberais que os diferentes Estados europeus e têm um poder enorme para intervir neles, sobretudo nos mais pequenos e periféricos. (Ok, aqui me parece que esta falando do domínio do capital financeiro mas quem condena o capital financeiro e’ quem nunca fez uma industria ou talvez nem comprou uma casa. O capital financeiro pode ser abusivo e parecer fora de controle mas o que e fora de controle na realidade e o sistema político que tem a obrigação impor as regras ao capital. No Brasil, isso vincula se a reforma eleitoral e a reforma do financiamento dos políticos.

Na América Latina, houve avanços nos partidos de esquerda no início do século 21. Esse movimento continua? Parou? Há retrocesso?

Foi uma das novidades políticas mais brilhantes do século 21, num momento em que havia poucas boas notícias no mundo. Teve causas e perfis diferentes nos vários países mas, em geral, os partidos ou movimentos de esquerda chegaram ao poder na base de fortes mobilizações populares contra as políticas neoliberais. (No caso do Brasil, a esquerda de Lula teve sucesso enquanto praticava a receita social democrata e ainda favorecido pela conjuntura econômica do ciclo favorável de commodities Essa energia progressista tinha sido anunciada com muito vigor no primeiro Fórum Social Mundial em janeiro de 2001. (que reuniu talvez 15 mil pessoas em Porto Alegre segundo Wikipédia)

Os avanços consistiram, por um lado, na ampliação da classe política governante que passou a incluir membros das classes populares e dos movimentos sociais e sindicais (incluindo presidentes, no caso do Brasil, um operário; no caso da Bolívia, um indígena).  (O avanço e na realidade a institucionalização do processo eleitoral que funcionou muito bem e levou ao reino do Lula durante 8 anos e mais 8 anos incompletos da Presidente Dilma. Entretanto, o partido e governo que não soube responder a uma conjuntura interna e externa desfavorável. E a atuação do partido de “esquerda” agravou problemas estruturais e de corrupção.

E, por outro lado, em combinar a aceitação das regras impostas pela ordem econômica global com políticas sociais compensatórias (na maioria não universais) que permitiram significativa redistribuição social e que, no conjunto, foram designadas como social democracia à latino-americana. (Algumas políticas sociais de baixo custo como bolsa família, mais médicos foram bem sucedidos, outros como MCMV nem tanto e outras áreas pioraram como educação e saúde).

A ordem econômica global (ou seja a ascensão da China Mercantilista) impunha na América Latina um novo extrativismo, uma exploração sem precedentes dos recursos naturais (agricultura industrial, exploração petrolífera e mineira, megaprojetos hidrelétricos e de outras infra-estruturas) impulsionado pelo crescimento assombroso da China. (E isso de mãos dadas com o financiamento do capital financeiro do Estado, no caso do Brasil o BNDES).

O Estado acumulou recursos (tal como o sistema bancário acumulou lucros), o que permitiu uma redistribuição social significativa e uma grande ampliação do sistema educativo superior. (Sem controle de qualidade e esgotado em termos financeiros que acabou beneficiando mais empresas capitalistas de produção de diplomas) Destes dois pilares surgiu uma nova classe média ansiosa por se integrar na sociedade de consumo.(Mais importante do que as bolsas e exportação foi a estabilização monetária e relativa previsibilidade do sistema econômico/financeiro que libertou uma boa onda de empreendedorismo).

Qual sua avaliação sobre a grave crise que ocorre no Brasil? Por que a base política da presidente se erodiu tão rapidamente? Há chance de impeachment?

No momento em que o crescimento da China começou a abrandar, este modelo socioeconômico começou a colapsar. Para manter os níveis de redistribuição social seria necessário tributar os mais ricos e isso não é possível em contexto de neoliberalismo. (Bom os tributos para pobres e as vezes para ricos no Brasil são os mais abusivos, paga-se impostos e ganha muito pouco de volta em termos de infra-estrutura, saúde, educação e segurança) As novas classes médias foram integradas pelo consumo e não pela cidadania. (A política econômica optou pelas facilidade de credito e importação e menos pelo favorecimento da industria que foi esmagada em termos de exportações pelo real excessivamente e artificialmente “forte”. E pelo tipo de consumo que era próprio das velhas classes médias e altas. Não se pensou em novos tipos de consumo (transportes públicos) nem em qualificar os serviços públicos que tinham agora mais clientes mais exigentes (dos serviços de saúde às universidades). (Então erro dos governantes em alocação de recursos e desenvolvimento de políticas publicas adequadas.)

A nova classe média é tipicamente ingrata a quem lhe dá condições para ascender ao novo estatuto e tende a identificar-se com os que estão acima dela e não com os que estão abaixo. (A “nova” classe media que subiu graças a estabilidade monetária que deveria ser obrigação do governo não deve agradecimentos as elites dentro ou fora do aparato estatal).

Os que estão acima são os que sempre olharam com suspeita os governos progressistas. Além de tudo, estes governos traziam uma nova classe política feita de gente de baixo que a gente de cima, numa sociedade classista e cheia de ranço colonial, olhava e olha com desprezo e até com repugnância. (Sim ha uma herança escravocrata pesada, racismo, preconceito de classe e ranço mas ha também alternativas e aberturas como nunca antes).

Acontece que esta nova classe política, também ela própria se quis identificar com a gente de cima que sempre tinha dominado o poder político durante muitas décadas. Isto significava governar à moda antiga para atingir objetivos novos. (Sim o PT no poder se mostrou tão venal quanto qualquer outra aglomeração e as estruturas e instituições políticas tardaram em frear o alastramento da safadeza) Ou seja, tirar da governação os mesmos benefícios que a gente de cima sempre tinha tirado, quer por vias legais, quer por vias ilegais. (Para alguns parece que o fim justificou o uso de todos os meios)

Foi, em parte, por isso que nunca se fez a anunciada reforma política. Foi uma tentação fatal porque os mesmos atos de governo, os mesmos erros e as mesmas ilegalidades têm conseqüências diferentes quando são cometidos por grupos sociais diferentes. Não há hoje mais corrupção no Brasil que nos períodos anteriores; ela é apenas mais visível porque há mais interesse político em expô-la. (Pode ate ser mas precisamos de um estudo histórico comparativo e a extensão e profundidade do problema parece impar).

E não esqueçamos a dimensão externa da crise política: o interesse do ‘big brother’ em que desapareçam de cena governos nacionalistas que retiram ao mercado internacional recursos, como o Pré-Sal e a Petrobras. Está em curso na região um novo intervencionismo ‘soft’ de que iremos ter mais notícias. (Entre a ideologia nacionalista e a perspectiva do controle estatal, a PBR perdeu um bom momento quando o barril estava acima de 100 dólares e hoje esta menos de 50 o que pode talvez inviabilizar o Pré Sal)

Se houver impeachment será um enorme retrocesso para o processo democrático brasileiro, pelo menos até se provar algum ato ilegal em que a presidente esteja envolvida, o que até agora não aconteceu. (Concordamos, incompetência e incapacidade de criação e execução de políticas publicas não e motivo de impeachment).

Eleita, a presidente adotou medidas contra teses da esquerda e desagradou boa parcela de seus apoiadores nesse campo. O que Dilma deveria fazer para recompor sua base? A crise desacreditou a esquerda?

Não estamos em tempo de coerência política. Veja o caso do Syriza. A crise sempre desacreditará a esquerda enquanto esta não aprender a desacreditar a crise. Em momentos de crise, o número de bilionários continua a crescer, o que significa que a crise não é de todos e que, pelo contrário, há muitos que enriquecem com ela.

No caso do Brasil, tenho pena que a presidente não tenha avançado com a reforma política, o que implicava uma assembléia constituinte originária. (Penso que a Constituição de 1988 consagra um caminho institucional factível com adequada separação de poderes e com o papel dos 3 poderes razoavelmente bem definido. Se ha defeitos, são aqueles que protegem grupos de interesse. Mas como conclui o entrevistado, uma aposta difícil).Seria uma aposta difícil, mas era o único tema em que a sua base podia ir buscar apoios mais amplos.

Seria o começo da resolução de todos os outros problemas, num país em que o poder do proselitismo endinheirado capturou a grande sede do poder dos cidadãos, o Congresso. Sem essa reforma política não será possível uma política de esquerda sustentável. (A própria esquerda precisa criar seu próprio lugar no sol mas reconhecendo que o Brasil eh fundamentalmente um pais capitalista com um peso demasiado grande de um estado ineficiente. A esquerda tem que zelar por medidas que diminuem a desigualdade mas a desigualdade não vai cair sem um programa econômico e as bases do programa e a iniciativa privada com menos tutela do Estado).

Muitos afirmam que o real alvo dessa crise política é o ex-presidente Lula. O Sr. concorda com essa visão?

Concordo mas com mágoa. O fato de o PT precisar do regresso de Lula da Silva é a prova de que não pôde ou não soube renovar-se. O presidente Lula tem já assegurado um lugar destacado na história contemporânea
do Brasil. (O Lula representou um grande avanço para o Brasil mas também um retrocesso na medida que ele permitiu ou assistiu o partido agir totalmente fora de seus compromissos de criação. Ademais, o PT perdeu o rumo ideológico e só e socialista da boca pra fora).

Muitas análises consideram que o PT deve perder a eleição em 2018 em razão dos escândalos de corrupção e da forte recessão na economia. Qual seu ponto de vista?

Normalmente essas análises visam criar profecias auto-realizadas. A corrupção, venha donde venha, deve ser punida. A recessão econômica não é culpa do governo, tal como o boom anterior não foi criado por ele. A seu crédito está apenas o modo como o utilizou para realizar uma redistribuição social que transformou o país para sempre. (Claro que ha fatores externos mas o PT e o governo Dilma não souber reagir e os desejos eleitorais prevaleceram sobre o bom senso e as boas políticas.)

A nova classe média, que agora se mostra ingrata ao PT, não será mais leal durante muito tempo a outros governos. Para que seja leal terá de ser intimidada. (Quem vai intimidar? Quem controla o aparato de segurança ou o “uso legitimo” da forca?

Penso que se houver a curto prazo um ciclo político pós-PT, ele será dominado pela inculcação do medo que leve à resignação das classes médias e populares perante uma quebra do nível de vida que de todos modos vai ocorrer. (A desmobilização e resignação são típica e tradicionais como também são as contra-forcas de organizações sociais. Eh um jogo constante e será interessante observar se ha um papel para as chamadas mídias sociais.

Qual o futuro do PT? Alguns defendem que seria necessário refazer as alianças à esquerda para discutir um novo projeto. Estaria no horizonte a formação de um novo partido ou partidos de esquerda, como ocorreu, por exemplo, na Espanha?

Costumo dizer que os sociólogos são bons a prever o passado. As transformações a realizar são de tal ordem que a questão do PT do futuro, ou, se quiser, da esquerda do futuro, implica a questão de saber se há ou não futuro para o PT ou para a esquerda. Na Europa estamos a aprender pela via mais dolorosa que o que se não aprendeu tranquilamente em tempos de bonança tem de se aprender aos solavancos em tempos de borrasca. (Não creio que modelos que buscam maior liberdade para minorias ou maior acesso a educação, ou menor desigualdade sejam superados. O que, parece-me superado eh querer depender do estado paternal.)

Há paralelos entre o PT e o PSOE? Ou entre o PT e o partido socialista francês?

São histórias muito diferentes que enigmaticamente conduzem a presentes com fortes semelhanças. O PT nasceu de movimentos sociais de base popular com a radicalidade discursiva da esquerda-à-esquerda.

Mas com um programa moderado, reverente perante o FMI, e consistindo numa política social-democrática menos universal que a europeia, mas igualmente informada pela idéia de maximizar a justiça social permitida pelo capitalismo. (A percepção do entrevistado então e que o PT acabou sendo “social-democratica” e diria por influencia do Lula só que o PT em seus Congressos e documento aceitou essa realidade.)

O PT o PSOE e o PS francês vivem o dilema de já não existir o capitalismo em que podiam florescer. O neoliberalismo transformou a desigualdade social e o individualismo em suprema virtude (o empreendedorismo) e não se sente ameaçado por nenhuma força social que o obrigue a agir de outro modo. (Qual e a base da ação coletiva? O individualismo existe e na modernidade a tendência e a afirmação do individuo. Embora, ha controles e os mais individualista são ou elogiados ou condenados. Mas o capitalismo precisa do empreendedor da mesma forma que o socialismo depende do grande líder, i.e. Fidel, Mao, Stalin).

Na Grécia, o Syriza venceu as eleições, o plebiscito, mas acabou cedendo à troica. Quais os reflexos em outros partidos de esquerda? Eles podem ficar desacreditados com a idéia de que não conseguem levar adiante uma alternativa?

O que se passa na Grécia é um desafio total à imaginação política, particularmente à de esquerda. Nas próximas eleições (20 de setembro) o Syriza vai a votos com um programa que é o oposto do aprovado no último congresso do partido. É um programa de austeridade e não de anti-austeridade e é a tradução em grego do memorandum da troika.

Os dissidentes do Syriza criaram um novo partido que vai a votos com o antigo programa do Syriza, acrescentado da proposta da saída do euro e regresso ao dracma. É provável que o Syriza ganhe as eleições. [Alexis] Tsipras pensa mesmo na maioria absoluta, para o que lhe basta ter (segundo o sistema eleitoral grego) cerca de 40% dos votos.

Será imaginável uma aliança pós-eleitoral entre o Syriza e os dissidentes do Syriza? Decididamente a realidade política corre hoje muito mais rápido que a análise política, pelo menos na Europa.

Na Espanha, o Podemos surgiu com uma nova força. O partido é uma referência para o movimento de esquerda no mundo de hoje? Por quê?

O Podemos é o partido que na Europa melhor interpretou a crise da democracia esvaziada de cidadania e ocupada por antidemocratas, plutocratas (detentores de dinheiro) e até cleptocratas (ladrões). Fê-lo trazendo para a política os cidadãos que a teoria política (e a esquerda em particular) considerava despolitizados porque não participantes nem em movimentos sociais nem em partidos.

Ora, a grande maioria da população não participa nem nuns nem noutros. E, por vezes, nem sequer vota. Mas isso não significa que não acompanhe a política nacional e não se revolte com a injustiça e a corrupção. Só não vê meios credíveis e eficazes para participar. O Podemos ofereceu-lhe esse meio. (E no Brasil? Não ha Podemos?)

O que o Podemos tem de diferente em relação a partidos de esquerda tradicionais? Como ele deve ser definido? É de esquerda, de centro-esquerda, moderado?

O Podemos é até agora a melhor formulação do que pode ser a esquerda no século 21. Tem de passar por uma reinvenção da esquerda. Esse objetivo faz com que o Podemos nem sequer se reveja na dicotomia esquerda/direita tal como está a esquerda hoje. Mas sabe bem o que é a direita e sabe que a direita está bem porque está no poder e porque tem a seu favor o capitalismo financeiro mundial –o que lhe dá um capital de confiança que nenhum grupo social lhe poderia dar. (O que e a direita? Todo mundo que esta cansado da falta de idéias e sucesso da esquerda?) Nem sequer a burguesia nacional, se é que esse conceito ainda hoje tem validade, dada a internacionalização profunda do capitalismo. (Quem e a burguesia nacional no Brasil? Abílio Diniz do Pão de Açúcar?)

Podemos é o primeiro partido a assumir o que muitos teóricos (eu próprio incluído) defenderam: para levar a sério a articulação entre democracia representativa e democracia participativa, os partidos de esquerda têm de a adotar no seu seio. (A democracia participativa eh uma bandeira antiga mas nunca foi bem institucionalizada nem ao nível do partido e muito menos em termos amplos como comunidades, bairros, cidades, etc. Não ha a tradição de partido único guiando a participação no Brasil.)

A escolha dos programas e dos candidatos tem de ser feita pelos mecanismos de democracia participativa, pelos cidadãos organizados em círculos temáticos ou regionais. Quem ainda se lembra do orçamento participativo de Porto Alegre sabe o que isso é. Foi, aliás, aqui que o Podemos bebeu a inspiração. (Não deixe de ser irônico que Rio Grande do Sul e’ tido como a Grécia do Brasil).

O Podemos poderá unificar as esquerdas na Espanha? Quais são os obstáculos para que isso ocorra? E a Esquerda Unida?

Dificilmente, ainda que algum progresso interessante esteja a ser feito neste domínio ao nível das regiões autônomas. Podemos tem feito um esforço notável para essa unificação, o que nem sempre é fácil por ser “a força de câmbio” e não querer perder a sua identidade no meio de outras (velhas) esquerdas. É ainda muito grande o peso da história na esquerda européia e há muito individualismo egocêntrico disfarçado de diferença política. (Gostei do reconhecimento do individualismo egocêntrico também de esquerda face a discussão de individualismo capitalista acima).

A Esquerda Unida saiu derrotada das últimas eleições e busca reconstruir-se numa nova frente popular. Tem um jovem líder que podia estar no Podemos e a quem, aliás, Pablo Iglesias propôs que integrasse a sua lista de candidatos. O aparelho do partido é velho e não responde ao anseio de renovação do seu líder. Mas a Esquerda Unida tem na base muitos quadros que podiam ser preciosos para a implantação sustentável do Podemos.

Quais as semelhanças e diferenças entre o Podemos e o Syriza?

O Podemos é uma emergência dos movimentos dos indignados enquanto o Syriza tem raízes na esquerda mais tradicional. O Syriza nunca ousaria problematizar se é ou não de esquerda. Mas ambos são o resultado de uma conglomeração de forças políticas e movimentos sociais. Ambos viram bem a ameaça do neoliberalismo na Europa e ambos estão a mostrar grande flexibilidade.

Até onde pode ir essa flexibilidade é uma incógnita. Por agora, o Podemos não vai mais longe do que se abrir a uma coligação com o PSOE. Penso que nunca iria tão longe quanto o Syriza na aceitação da austeridade européia, não só porque a situação na Espanha é muito diferente da grega, como, sobretudo, porque os círculos de cidadãos não permitiriam.

Um desgaste maior do Syriza poderia atingir o Podemos?

Sim. Não diretamente, mas através do peso que terá na opinião pública uma eventual derrota incondicional do Syriza. O objetivo das instituições européias é liquidar qualquer hipótese de contestação à política de austeridade. Se o Podemos se sair bem nas próximas eleições significará que os cidadãos não se estão a deixar intimidar pela ortodoxia de Bruxelas. (Mas com desemprego acima de 25% na Espanha, a esquerda fica sem programa e perspectiva.)

*Desde a queda do Muro de Berlin (antes, talvez), as esquerdas no mundo parecem desnorteadas. O Sr. concorda com essa afirmação? Como explicar esse processo? Ele está sendo modificado agora? As esquerdas
estão perdendo uma oportunidade histórica?*

Ao longo do século passado, a esquerda foi constituída pela crença de que havia uma alternativa ao capitalismo. Todas as divisões dentro da esquerda (revolução/reformismo, luta armada/luta pacifica, comunismo/socialismo democrático) partiram da possibilidade dessa alternativa.

Quando, a partir da década de 1960, a social-democracia abandonou a idéia de alternativa ao capitalismo, a sua política passou a centrar-se na idéia de regulação e tributação do capitalismo para permitir a paz social e garantir a justiça social possível através do estado de bem-estar. (E também esta sendo questionado hoje mas ainda funciona na Alemanha da Ângela e ate na Franca do Hollande).

A existência do Bloco de Leste fez com que o capitalismo aceitasse o compromisso. Findo o Bloco, não havia mais razões para aceitar limitações tão drásticas à remuneração do capital. A queda de Muro de Berlim não foi apenas o fim do comunismo. Foi também o fim da social-democracia.

Em debate na Espanha, o Sr. falou de um movimento ainda embrionário em Portugal. O que ocorre?

Está em curso uma reorganização das forças de esquerda que eventualmente só dará frutos daqui a vários anos. No presente período eleitoral (eleições em 4 de outubro) serão todas punidas (incluindo eventualmente o PS) com a possível exceção do Partido Comunista Português, que tem um eleitorado leal e absorve como nenhum outro o voto de protesto contra a injustiça social.

A punição da esquerda deve-se a três fatores: o PS não se propõe realizar uma política muito diferente da seguida pela coligação de direita no poder; a esquerda-à-esquerda está, por agora, mais dividida que nunca; o governo e as instituições europeias conseguiram convencer os portugueses de que o pior já passou e que a política de austeridade deu certo.

Por agora, Portugal é um caso de sucesso. Sobre o que virá depois das eleições nada se diz.

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