Dialogo de Nivel

Aqui segue, com permissao, parte de um dialogo entre duas das minhas amigas de longa data.  Andamos reclamando do baixo nivel mas aqui temos uma conversa informal de qualidade.  Com a palavra: Rosamaria Roedel.

A pedido de minha amiga Diva M Moreira, posto um comentário que fiz em post dela: é minha opinião e espero não ofender ninguém. E é incompleto nas críticas, assim como nos elogios.
“Diva M Moreira, vou dar minha opinião muito modestamente: dormi pouco também. Dormi triste. Mas, o PT chegou ao poder com votos não só da esquerda. O discurso do PT, à época, capturou o centro, e chegou a ter 80% de aprovação. Mas, como sabemos, e apesar da ampliação de programas de transferência de renda, apesar do apoio a algumas pautas progressistas, deixou pra trás grande parte de seus ideais. Em nome da governabilidade, aliou-se ao que há de pior na política. Nunca fez as reformas prometidas, a começar pela política. Não devia ter mais, hoje, sem terra, sem teto – o programa minha casa minha vida deixa aos empresários a escolha dos locais, em geral inacessíveis para quem precisa trabalhar. Não lutou pela ética na política. Não cumpriu o prometido em nossas greves: deixar o máximo dos cargos de confiança com pessoal técnico, de carreira.
Incluiu as pessoas pelo consumo e não pelo acesso a uma saúde de qualidade. Sem nenhum preconceito contra os cubanos médicos, eles vieram, em tese, atender a população sem acesso a médicos; debochou dos profissionais, que já em 2013, reclamavam da falta de material, de leitos e de equipamentos; Incluiu pelo acesso à educação superior privada, inundando de grana muitas delas, que bem sabemos, são fracas. A inclusão via consumo levou ao endividamento, à inadimplência e à elevação absurda dos spreads bancários. Os bancos tiveram lucros exorbitantes.
Insistiu numa Copa que não deu retorno esperado em termos de impostos. Mas, sim, deu lucros enormes a empresários, em particular às empreiteiras.
Aumentou absurdamente os impostos indiretos, sem atacar o que realmente precisava: os lucros, os salários de 100.000, 200.000 e até mais. A tabela do IR já era pouquíssimo progressiva; tornou-se pior, igualando a taxação pelo teto de quem ganha 4.500 a quem ganha 20, 30, 40 x mais. Manteve a isenção de taxação dos lucros e dividendos das pessoas físicas., Incentivou a compra de carros particulares em detrimento da melhoria do transporte público.
Tirou impostos de setores industriais, mas não de produtos básicos como o de medicamentos;
Por mais que não pese crime de enriquecimento pessoal contra Dilma, a escolha de Lula não foi a de alguém com jogo de cintura político, habilitada a lidar com os parlamentares da base.
Foram ferozes com seus críticos, sem aceitar, ao menos, as críticas construtivas, rotulando todos, sem distinção, com chavões de todo tipo. A classe média q hoje é atacada, em grande parte havia apoiado o PT. A inflação aumentou. Houve sim, estelionato eleitoral. O PT melhorou um pouco a nossa péssima e indecente distribuição de renda, mas os efeitos foram revertidos pela crise.
Não fez avanços em temas sensíveis, como as drogas, o aborto. Aliou-se a evangélicos fundamentalistas e curvou-se diante dos crentes.
Distanciou-se da população e não só da elite branca: senti o repúdio por parte de taxistas q recebem diárias; de manicures, de balconistas, de carteiros, de profissionais da saúde pública – de muita gente.
Em que pese a importância da mídia conservadora, tenho consciência de que posso filtrar as notícias, e também ter uma conversa sadia com quem é a favor ou contra os “lados” em disputas.
O PT tem que enfrentar uma auto-crítica forte para recuperar sua força. Não viu que era contra producente malhar o Joaquim Barbosa e ao mesmo tempo cobrar a punição dos mensaleiros de Minas; contra-producente atacar a Lava Jato e depois fazer posts alertando a população de que o voto sim levaria ao fim da Lava Jato.
Faço críticas para chamar à razão: minha verdade pode não ser a verdade de muitos, sou tão somente uma palpiteira. Fui contra o impeachment mas não fechei meus olhos para a crítica de muitos amigos e parentes que não são fascistas, não odeiam podres, não odeiam negros, não têm saudades do quarto de empregada e demais absurdos ditos para todos os críticos. Querida amiga: há que se repensar onde houve falhas, e não ficar tampando o sol. Aberta aqui a todas as críticas q não forem de desqualificação pessoal.”

Urucubaca, Systems and the Brazil Problem

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Urucubaca is a wonderful word often use in Brazil. Sometimes it is just a lack of luck but it also implies the existence of an evil eye and the casting of a spell. The solution is to be cleansed and pay tribute to otherworldly figures.

Brazil’s current situation might represent the lack of luck. President Dilma is in New York paying her tributes, anxious to escape impeachment. If she could only bring the Orixas and other gods to her rescue, she might have a chance but…the spell she suffers under is a heavy one and it looks like her urucubaca may be too strong.

While she is out of the country, Brazil continues to suffer. Yesterday, April 21, a holiday for getting to the beach and relaxing, the beautiful cliff hanging new bike path connecting Leblon to Sao Conrado collapsed in a high tide with strong waves. At least 2 people were killed and others were injured. The “ciclovia”, described by mayor Eduardo Paes, as the most beautiful in the world was suppose to be another showcase of Rio’s readiness to host the Olympics.

Today in Sao Paulo, another building collapsed and killed at least one person. More urucubaca.

The problem however goes beyond bad luck and, in reality, is systemic. Brazil has a long-standing aspiration to world-class status. The World Cup, the Olympics and 2010 Economist cover were all supposed to be indicators of the country’s success in achieving that goal. Like construction projects that sometimes fail, the aspiration has crashed and the country is keenly aware of the distance it must travel from its current reality and its future as a relevant power. Instead the system languishes and declines and Brazil moves from dream to nightmare.

In the rush to succeed, many have cut corners and resorted to the famous or perhaps infamous “jeitinho”. Brazilians have always been good at improvising and while they love to plan, the need to get, achieve, gain, win and take advantage has put to waste the good intentions. Instead of speaking of the “Brasil maravilha” (wonderful Brazil), the feeling is not even a miracle can provide respite.

The news today in Rio reports a close association between the mayor and the builder of the collapsed bike path. In technical competence and experience, Brazilians know better and have a long, solid and indeed outstanding record in building reinforced concrete structures. There is great pride in its stadiums, in Brasilia, in the Rio-Niteroi Bridge and basically anywhere you find Niemeyer project or a Brazilian engineer or architect. But the mixture of tradition, personal relationships, opportunity, greed, cronyism and closed door back slapping have deepened and entrenched a long standing practice of illicit innovation associated with outright corruption.

Now, it seems that outright avarice has penetrated too deeply. Jacques Warner, Dilma’s former chief of staff once commented, to the effect, that those who had never previously tasted honey, when they do so for the first time get sticky fingers. Perhaps the comment was a Freudian slip or made in a careless fashion but it can be taken to reflect disgust and disappointment with how the PT took over the State apparatus to its private advantage. The State no longer provides minimum basic services in health, education and security but instead has become the source of income for interests that have taken over its mechanisms. Bribes get approvals and the consequences are readily apparent. Things collapse and not only physical structures.

President Dilma rails against the coup. She affirms her personal uprightness but she has allowed and turned a blind eye to all of the malfeasance at the top and we see the results. In quality control, the term “stacking of tolerances” is used to illustrate how minimum errors can lead to major mistakes. Dilma has allowed the slippage to accumulate to a point that she can no longer control.   While it is not clear what technical errors resulted in the tragic deaths on the collapsed bike path, it is transparent that President has failed. She refuses, as does her party, to take responsibility for the crimes, mistakes and errors that have happened on her watch. Thus, she reaps the consequences of impeachment, in spite of no direct proven personal criminal activity on her part. Simultaneously, people suffer and die with the collapse of Brazil’s physical, political and management structures and systems. Urucubaca indeed!

Ruptura e Conciliacao

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Brasília – Para evitar confrontos entre manifestantes pró e contra impeachment a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal definiu divisão de espaço na Esplanada dos Ministérios (José Cruz /Agência Brasil)

Desde pelo menos os tempos do Império, o Brasil vive e existe como unidade graças ao poder das elites e sua capacidade de cooptar e reconciliar dentro da ordem política. As rupturas existem mas são superadas e com ligeiras modificações o status quo de antes segue existindo. Assim temos a passagem do Império para a Republica em 1889, a Nova Republica de 1930, a democratização pos guerra, o golpe militar de 1964, o re-estabelecimento do processo democrático em 1985 (Nova Republica), a eleição de Lula em 2002 e agora a provável derrocada da Presidente Dilma em 2016. As rupturas tipicamente são provocadas pela necessidade de absorver novos grupos, novas camadas ou pela exigência de modernizar ou adequar o sistema político e econômico. A historia demonstra a capacidade de manutenção e de acomodação. Ate a eleição de Lula pode ser vista mais como processo de continuidade do que de ruptura. Lula, com sua origem humilde, sua liderança sindical e como criador do PT, representou uma ameaça aos setores conservadores. E assim antes de assumir a presidência, ele escreveu sua famosa carta prometendo a continuidade de uma economia de mercado e a continuidade da política do Plano Real. Assim Lula “tranqüilizou” as elites nacionais e internacionais. E Fernando Henrique lhe passou a faixa presidencial, ate com certo orgulho, talvez misturado com desdém, assim abonando a passagem do poder para uma liderança trabalhista. Em pouco tempo Lula conquistou alianças com amplos setores conservadores da sociedade e ainda alcançou níveis ineditos de popularidade nacional e no exterior. Todos lembram que o recém inaugurado Presidente Obama tratou Lula em seu primeiro encontro como “The Man” ou “O Cara”.

O governo Lula, especialmente no primeiro mandato, aproveitou o terreno plantado e manteve consistencia na política econômica, favorecida tambem pela conjuntura externa e a demanda de “commodities” de exportação principalmente da China. Enquanto o bolo crescia de uma forma favorável as tensões entre empresários e trabalhadores, classe media tradicional e classe media nova, o rural e o urbano e as muitas demandas sociais foram acomodadas.   O carisma do Lula, sua capacidade política e a visão positiva dos BRIC (Brasil, Rusia, Índia, China) como novo pólo dinâmico da economia mundial, legitimou e permitiu políticas sociais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, alem de um amplo programa de obras voltadas para a Copa, as Olimpíadas e infra-estrutura, permitindo uma celebração da possibilidade de um Brasil emergente. Havia na superfície a idéia de que o “Gigante havia despertado.”

Nao obstante os avanços econômicos e a euforia do Brasil grande, os problemas e rupturas nao tardaram em aparecer. O mais obvio foi o escândalo do Mensalao que acabou engolindo o braço direito do Lula, Jose Dirceu que ocupava a Casa Civil. As investigações e eventual condenação do Dirceu levou Lula a optar pela Dilma como a sucessora capaz de continuar os programas de incorporação social e da extensão defato de direitos de cidadania para camada da população tidas como “marginalizadas”.

Na visão política ideológica do PT, o processo seria a conciliação de classes sob a liderança do partido dentro de uma visão nacionalista com controle sobre os mecanismos do mercado. O problema entretanto foi a necessidade de agradar gregos e troianos ou seja o mercado/propriedade privada (capital), o controle pelo Estado do investimentos e os lucros (“trabalho nacional”). Foi nesta dinâmica e talvez pela falta de visão, que emergiu o Petrolao. A ideologia do PT (e oportunisticamente também de seus aliados) justificou o assalto a Petrobras e outros setores do Estado, porque o partido necessitava avançar seu projeto de incorporação e conciliação de grupos que antes eram apenas caudatorios. Ha de notar aqui que alem da ideologia, ha sempre o tradicional cinismo. Assim, entre a necessidade de fazer o bem (avançar politicamente um projeto), juntava se o por que nao avançar também um projeto individual. Na palavras do Jacques Wagner, pessoas que nunca comeram melado acabaram-se lambuzando. Tragicamente, a acomodação e aceitação de um projeto político misturado com ambições pessoais acabou tragando e praticamente destruindo empresas tradicionais que nem sempre eram corruptas em sua cultura mas acabaram tendo que participar e assim também viraram corruptores.

Agora com a provável degola da Presidente com justificativas legais juridicamente questionáveis, fala-se novamente em rupturas e polarização total. O símbolo do momento e a construção da cerca no Planalto para separar a “direita” e a “esquerda”. Do lado da Dilma, acusa-se todos de golpe mas sem levar em conta uma autocrítica das manipulações (leia-se pelo menos parcialmente – pedaladas) que permitiram sua reeleição. Do lado da oposição, ha uma disparada descontrolada para retomar o aparato do Estado as vezes por motivos escusos. Os parlamentares que estão votando o impeachment são também investigados em grandes números e tem como líder o suspeitadissimo Eduardo Cunha.

Ha notadamente uma sensação no ar da necessidade de agir. Dilma nao resolve e nao consegue, ao que parece, nem com a ajuda do Lula articular uma defesa. Mas quem esta pensando no “day after”? Um impeachment agora representara uma ruptura. Senador Jose Serra já fala no fim da Nova Republica. E agora, Jose? Quem terá condições de liderar ou articular uma nova concialiacao?

Bom, Ruim e Muito Feio no Brasil or The Good, the Bad and the Ugly

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Ok, Lets start with the good.  Brazil’s civil society is active and dynamic.  There are tons of voluntary associations where Brazilian engage.  And, it is good to remember that Lula’s Workers’ Party (PT) and the Catholic Church (CEBs Comunidades Eclesiasticas de Base) had an important role in this mobilization.  Of course, one can and should separate the PT’s corrupted political elite from the base of support.

Some organizations are NGOs and supported by foreign associations and some are funded directly through government. A few are truly voluntary and operate on their own using member time and resources and sometimes foundations or religious support.

Alexis de Tocqueville noted in Democracy in America how civic participation made a fairly unique contribution to U.S. democracy. Brazil is slowly developing this tradition. Some of Brazil’s strongest voluntary associations are the groups formed to support the soccer teams. While often associated with hooliganism and violence, these groups have recently tried to soften their image.

One such group, The Torcida Organizada Pela Paz (Torppaz), has been active since 2011. Some groups do charitable work and also participate in politics. Outside of soccer, both the Catholic Church and protestant groups have been active in promoting religious study, charitable activities, and community organization. Together with Brazil’s widespread use of the Internet, active participation has grown and we now see some of this flowing into the political arena. Witness the latest street marches for and against the government. Nevertheless, the political parties lag as voluntary organizations and individual connections are more important than party programs.

Still, the good news is that people are participating and using their voice to achieve some independence from the all-pervasive and ever-present Brazilian state system of syndicates, unions and clubs financed and controlled directly and indirectly by the power elite.   Brazil’s tailing mine disaster last year in Mariana, Minas Gerais, caused by negligence from the Samarco mining company, has left a legacy of destruction against which small groups have mobilized to seek redress and repair. Just another example.

The economy is obviously the bad part of this story. Over a million formal sector jobs have been lost in the last year as Brazil continues to reverse its growth pattern.   The government has long blamed the slowdown in China, the recession in Europe, falling commodity prices and the generally negative international economic environment. Unfortunately, policy makers need to look at their own mistakes. These include a well-known litany of excessive intervention in the market, overspending and non-productive investments by government, high taxes, excessive bureaucracy and of course corruption that has centered on the state-owned Petrobras oil company. And, as always, avaricious political parties and politicians have their hands and hats out.

But with crisis comes opportunity. Some of the positive signs include Brazil’s recent record monthly trade surplus. The Real has strengthened from 4 to 3.6 against the dollar. The Brazilian stock market has posted gains. Foreign capital is moving in seeking bargains. If Dilma goes down, BOVESPA (Sao Paulo’s stock exchange) will go up 10 to 20 percent. If she is not impeached, it will probably drop by an equal amount.

While the economy is bad, the political atmosphere is even uglier. Dilma’s impeachment is moving forward even if only in a lurching fashion. While there’s a better than 50% chance that Dilma will be ousted, the opposition to Vice-President, Michel Temer, has also initiated impeachment proceedings against him.

The next in line to succeed Temer is the notoriously corrupt President of the Chamber, Eduardo Cunha. Swiss authorities have presented convincing evidence that he holds undeclared bank accounts and that his wife has used resources tied to these accounts for luxury shopping and entertainment in Europe and the United State. Cunha’s name also was cited in the recently released Panama Papers.

But malfeasance and corruption are not the monopoly of any one party. They have touched just about all of the major opposition leaders. There are questions about how former President Fernando Henrique Cardoso supported his lover and child in France. Aecio Neves, the candidate that Dilma narrowly defeated, is suspected of taking funds from one of the Brazilian state owned firms (FURNAS). The ugly story marches on.

The repugnance extends to the street and goes beyond the shrinking economy, unemployment and increased poverty. In truth, these are things that Brazilians have long had to live with. The really scary thing is the potential for real civil unrest, something that has not been a tradition in Brazil. Now, radicals on the right and left are stoking the fires. Name calling and stereotyping is becoming universal and predictable, some of which is to be expected. But the call for killing and physical harm is not. So far we have escaped tragedy and major confrontation, even with both sides at times calling for all-out war. This is unacceptable.

Someone asked me recently how this might all end. I said Brazil has a tremendous future and always has had one as the old joke goes. The problem is not so much that the future fails to arrive but rather Brazil is having a hard time finding its way there.