Cultura Politica, Cultura e Passagens

Tunga

Tunga, “a luz de dois mundos” no Palacete das Artes Rodin Bahia. Foto de Márcio Lima

Vi hoje que faleceu o artista Tunga. Eu o conheci de forma superficial quando éramos jovens por volta de 1973. Na época fiquei no Rio na casa de seu pai Gerardo Melo Mourão. Como Gerardo se hospedou em minha casa enquanto nos Estados Unidos, ele me convidou para ficar no seu apartamento. Era uma coisa de permuta, reciprocidade e a cordialidade brasileira de antigamente.

A cultura política, como as pessoas, tem também sua evolução natural. As pessoas morrem mas a cultura continua e transforma. Embora o Tunga foi um artista de renome, só as pessoas digamos “cultas” e interessadas o conhecem. Da mesma forma, Melo Mourão foi um grande poeta, mas poucas pessoas que não são das áreas de política e cultura já ouviram falar. Seu livro principal de poesia “O Pais dos Mourões” e’ conhecido por connoisseurs, mas o publico geral desconhece. Assim, a arte de Tunga talvez pareça esquisita para a maioria das pessoas.

Na cultura política, atualmente estamos com um poeta bem menor na presidência e a sua volta um montão de pessoas suspeitas. Ele mesmo também e’ ficha suja. O problema, entretanto, não e’ corrupção. O problema e’ cultura e cultura política. Da mesma forma que ha’ uma vasta separação entre a cultura artística de elite e o povo, ha também a mesma separação entre o povo e o político. A cultura tradicional que era orgânica e praticamente de fazenda e casa grande acabou. A cordialidade vinha da relação do pai e do patrão e do patrimonialismo condescendente. Nessa cultura era possível resolver os problemas através de uma incorporação estratégica com base na oferta de benesses e na manutenção de um contrato informal entre o dono da fazenda ou coronel e de seus agregados.

Ao longo do século 20 a herança escravagista permaneceu e ainda ha’ os elevadores de serviço e os uniformes de domesticas para garantir e manter a “correta” separação.

Só que o pais chegou ao século 21 e, em 2016, temos mais de 200 milhões de pessoas, todo mundo morando nos centros urbanos. A escravidão acabou e não ha’ mais como manter a relação patriarcal direta. Se bem que o Estado tenta e os partidos no poder também. Por exemplo, a Constituição de 1988 sacramentou e incorporou os interesses de grupos organicamente estruturados. O governo de Temer, por sua vez, acaba de anunciar a criação de mais 14 mil empregos federais.   Mas hoje o pais não tem mais como pagar os empregos, a estrutura e os “direitos” adquiridos. Alem disso, ha’ o problema sistêmico onde os “Donos do Poder”, na expressão do Raymundo Faoro, acostumados a aproveitar do sistema como se fossem proprietários, acabam de lentamente descobrir que tal manipulação já não e’ mais aceitável. A estrutura esta’ ruindo e esta’ levando quem se julgou acima de tudo.   E’ interessante observar a indignação dos políticos tradicionais ameaçados pelo Ministério Publico.

A cultura do povo e a cultura política estão completamente defasadas. A economia por sua vez sofre com as amarras das estruturas da cultura e do sistema de poder. A atual administração talvez esteja engatinhando em liberar e “liberalizar” a economia, as restrições, regras e burocracias. Mas enquanto não mudar a cultura, o Brasil seguira’ aos trancos e barrancos. Todos sabemos que e’ preciso reformar e ampliar a educação, de forma que realmente alfabetize, capacite e ensine a pensar. Isto não esta’ acontecendo. Ampliou-se o alcance mas perdeu-se na qualidade. A cultura de elite segue, mas todavia dependente dos benesses. A política continua também sem reforma e o custo da campanha praticamente exige praticas ilícitas. Como mudar? E’ um trabalho de gerações. Pena que não começou antes.

 

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