Vergonha: Falta de

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Fonte: Mapa da Cachaça

Lembro-me quando adolescente no interior de Minas chamar alguém de “sem vergonha” era bem pesado. Tinha umas meninas mais recatadas e outras talvez menos e muitas vezes a distinção aparente tinha a ver com classe social. As vezes, as mocinhas mais oferecidas eram vistas como as com menos vantagens de classe social e renda. Como menino, levei um bom tempo para sacar as diferenças. Na época, as velas vigiavam o namoro e quem não tinha vela podia ser de repente classificada como ‘sem vergonha” ou as vezes, até perdida.

Hoje o que mais vejo nas redes sociais são declarações como: “Que vergonha!”, “Que sem vergonha”, “Ai que vergonha de ser brasileiro/a” ou “O Brasileiro perdeu ou não tem vergonha.” Enfim ao longo de umas duas gerações, a natureza, o sentido e o peso da vergonha mudou. O que para mim, menino de 15 anos, era uma pista de comportamento sexual existe hoje num contexto completamente diferente.

Vergonha e as expressões acima citadas tem a ver hoje com os escândalos cada vez mais amplos e freqüentes que minam a legitimidade do governo. A Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_esc%C3%A2ndalos_pol%C3%ADticos_no_Brasil) oferece uma listagem de casos começando na década de 60 ate o presente momento. É interessante notar a evolução no numero de casos de um na década de 60 para mais 50 entre 2000 e 2016. Claro que a operação Lava Jato representa a mais divulgada e talvez a mais ampla em termos de escala e impacto mas resta a imagem que no Brasil não existe um setor que não seja comprometida. Embora a listagem de Wikipédia mostra o crescimento, não se pode afirmar com toda certeza que o Brasil esta ficando mais corrupto. O fato é que a corrupção sempre existiu e talvez hoje a imprensa, a policia e a justiça está mais atuante.

Sem querer colocar o Brasil como primus inter pares, devemos reconhecer a existência do ilícito em toda parte. Aqui nos EUA, por exemplo, os caso são corriqueiros. Eis alguns exemplos: Ex-Presidente Bill Clinton foi condenado na Câmara e sofreu “impeachment” só que o Senado (diferente do caso da Dilma) não concordou e permaneceu no cargo. Outro exemplo corriqueiro, uma senhora, antiga funcionaria da Cargill (empresa multinacional de porte grande muito atuante no Brasil), roubou 3.5 milhões de dólares e ainda causou prejuízo de mais de 25 milhões. Ela fez um acordo com a justiça e esta sujeita a 20 anos de prisão, restituição, a perda da casa e de seus fundos de investimento. (Milling and Baking News, 6/dez/2016). Mais um caso relevante:Deputado Federal Randy “Duke” Cunningham, herói de guerra no Vietnam e ídolo dos conservadores. Em 2006, perdeu o cargo e foi condenado a 8 anos de cadeia por um juiz federal por trafego de influencia e condução com grandes vantagens de negócios ilícitos para empresas contratados pelo Departamento de Defesa. Alguma semelhança com Brasil não é mera coincidência.

É correto então ter vergonha? O que acontece hoje é que as pessoas enxerguem o roubo, o crime, a falta de punição, a falta de justiça e o enriquecimento ilícito como praticas ou fatos normais de tão corriqueiros que são. No Brasil, a lei do Gerson, ainda vigora ou talvez esteja cada vez mais presente. Assim você não deve ter vergonha de levar vantagem. A maestria do Gerson em campo na precisa distribuição da bola e na visão de jogo era realmente impar. Por outro lado, Gerson como garoto de propaganda de cigarros reflete tanto a malandragem quanto a natureza de Macunaíma identificado por Mario de Andrade ha quase cem anos. Numa sociedade onde as elites (grandes proprietários, grandes industriais, grandes banqueiros e grandes políticos) constituem uma minoria bem fechada e onde as instituições não são transparentes e funcionam de forma diferente para a elite e para o povo, o jeitinho como forma de ganhar alguma vantagem acaba sendo aceito como norma.   O herói não tem caráter.

Mas, o que vemos hoje na sociedade, quase totalmente urbanizada e massificada, é a perda de eficiência do jeitinho.   Hoje, a justiça e o executivo tendem a rechaçar soluções arrumadas como o caso do Renan recentemente mas nem sempre conseguem escapar. O Legislativo por sua vez prevalece como o recinto dos resultados não transparentes. Se a lei não permite, faz pressão sobre a judiciário e/ou executivo ou muda a lei conforme a necessidade. A triste tentativa de distorcer e depenar as 10 medidas contra corrupção no meio da noite quando a população estava chorando queda do avião do time de Chapecó é o exemplo recente mais gritante.

Contudo a idéia da democracia como meta e ideal ainda sobrevive. Ha muita retórica mas a rotina das eleições e a existência de um Congresso e um executivo eleito diretamente, ainda que corrupto e retrogrado, constituem avanços básicos. Individualmente, pode-se ter vergonha dos representantes e de seus desvios, mas ainda ha espaço para uma luta digna no sentido de construir partidos e identificar lideranças diferentes dos existentes e do status quo. A eleição do Lula foi um passo neste sentido mas o avanço foi tragado pelo sistema e pela falta de uma liderança menos comprometida com um projeto de poder em vez de um projeto de construção política, econômica e social duradouro e sustentável.

Assim, os suspiros desesperados de “falta de vergonha” e semelhante não estão equivocados mas são incompletos que esquecem que a vergonha não precisa ser sempre um substantivo e característica permanente. A vergonha pode ser transformada em poder de decisão e autonomia. Como a moca que perdeu a virgindade e a “vergonha” antes de casar na década de 60, hoje é uma profissional, uma mãe, uma pessoa orgulhosa dentro do novo contexto que foi construído socialmente. O Brasil aos trancos e barrancos encontrara seu caminho e o encontro será “sem vergonha.” Assim esperamos

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