Nelson Xavier – Profissional

Screen Shot 2017-05-14 at 20.05.22

Conheci o Nelson logo no inicio da década de 90 quando ele e minha cunhada foram viver juntos. Na época Nelson já era bem conhecido e tinha feito filmes de sucesso e sua presença na TV era corriqueira.

Embora há certo glamour, a vida de artista não é tão fácil como as pessoas podem imaginar. Ganha razoável quando trabalha mas normalmente a maioria dos artistas tem contratos temporários. Vive de filme a filme ou novela a novela ou peça a peça. Exige paciência, criatividade e sobretudo talento, dedicação e persistência. Muitos caem pelo caminho. Nelson iniciou sua carreira na década de 50 e usou sua arte para confrontar o regime militar no anos 60.

Sem duvida, Nelson sempre foi muito talentoso. Ele pode ser descrito como leading man, cangaceiro, assistente, diretor, gallant, estrela, mas o que mais percebo é sobretudo o Profissional. Lembro-me de quando os visitei em Santa Teresa. Nelson era um cara sistemático. Levantava cedo, tomava um café ligeiro e se metia no escritório. As vezes eu achava que ele estava fugindo das visitas mas, na realidade, era o trabalho. Uma vez, quando ele estava fazendo uma novela para a rede Globo e sabendo de seu passado “comunista”, provoquei bobamente, num certo esquerdismo infantil, quando ele estava treinando e declamando um dialogo. Ele ficou uma fera e me passou uma boa bronca. Disse ele, “Steve sou profissional, tenho talento mas o talento sozinho não basta. Tenho que trabalhar e quando trabalho, levo a serio. Quando você chama de “decoreba”, despreza meu trabalho. Meu esforço é de representar bem, de traduzir, transformar, produzir e projetar a personagem. Não é fácil e tenho que trabalhar.” E ai, eu encolhi diante de sua seriedade e o respeitei ainda mais.

Por infelicidade há mais de 10 anos, Nelson veio batalhando um câncer serio. Tinha que fazer quimioterapias e radioterapias. Coisas pesadas. Eu os visitei varias vezes nesses anos, e observei que Nelson ainda trabalhava bastante. Levava a doença e o tratamento como mais um desafio profissional, mesmo sendo muito doloroso.

Inteligente, intelectual e talentoso, Nelson foi grande em tudo o que fez. Como marido e pai amante de Via e Sofia, foi suporte com simplicidade, sabedoria e confiança. Seu exemplo deixou uma enorme herança profissional e pessoal.

Sua vasta coleção de filmes e trabalhos que já fazem parte do arquivo artístico nacional, e são provas de sua grande presença que não deixara de existir.

 

Excelente artigo do Bolivar Lamounier

Por Bolívar Lamounier

Indigência intelectual torna mais sombrio o futuro dos 14 milhões de desempregados

Estamos avançando no caminho da democracia, com mais transparência e instituições mais fortes, ou, ao contrário, sofrendo um retrocesso, com grave risco de uma recaída na corrupção e na violência?

As duas interpretações são cabíveis. Há indícios nas duas direções. A Lava Jato, por exemplo, é um avanço importante e, justamente por sê-lo, suscita reações contrárias, com empresas, partidos e até pessoas investidas em posições de autoridade fazendo de tudo para esvaziá-la e anular os seus efeitos. No terreno político, outro avanço inegável: hoje já ninguém contesta que as eleições são the only game in town – a única forma legítima de acesso ao poder –, mas não faltam tentativas de abastardá-las mediante o caixa 2, a publicidade enganosa, o coronelismo estatal em que o PT transformou o Bolsa Família, e por outros meios.

O que há, portanto, são dois processos simultâneos e contraditórios, ambos profundamente enraizados na realidade atual do País. Um, modernizador, apontando para a consolidação e o aprimoramento da democracia; o outro, reacionário, corporativista, empenhado em preservar privilégios injustificáveis e, no limite, nefasto para o regime democrático.

A “greve geral” – assim mesmo, entre aspas – de 28 de abril ressaltou os contornos da segunda tendência, reacionária e de duvidoso teor democrático. Se o objetivo das entidades que a convocaram fosse debater com seriedade as reformas, o lógico seria que patrocinassem eventos plurais, em recintos apropriados, propícios a discussões serenas. Ainda que o objetivo fosse apenas manifestar uma posição contrária, de forma unilateral, por que não mobilizaram o público para ouvir seus porta-vozes? A verdade é que as entidades organizadoras não fizeram uma coisa nem outra.

Partiram direto para a violência, incumbindo pequenos grupos de paralisar os transportes (às favas, portanto, os interessados no debate!), bloqueando vias públicas, obrigando o comércio a fechar suas portas e dando ensejo a não poucas depredações. Nas ruas percorridas, o que se viu não foi a solitária pedra do poema de Drummond, mas dezenas ou centenas de pedras, tocos de pau e outros objetos.

Esse modo de agir evidencia a importante mudança de ênfase havida na ideologia do PT e das organizações sindicais e dos movimentos sociais que ele satelitiza. Em seus primórdios, o pensamento petista podia ser apropriadamente descrito como um marxismo de sacristia.

O assembleísmo daqueles tempos falava em ética e martelava a tecla da “construção do socialismo”, evocando o cristianismo das catacumbas. No momento atual, a nota dominante é o recurso à ação direta, com o declarado intuito de causar transtorno às atividades diárias da sociedade. Para alcançar tal fim serve queimar pneus, apedrejar vidraças, etc; transmitir ameaças sem perder tempo com palavras. A esse modo de agir se pode apropriadamente denominar anarcossindicalismo, uma das modalidades ideológicas do pré-fascismo, classicamente exposta por Georges Sorel no livro Reflexões sobre a Violência, obra de 1908. Sorel queria “educar a burguesia”, fazendo-a deparar-se com o poder coletivo da classe operária. O que estamos começando a ver no Brasil é pior que isso, é uma violência cega, aleatória, que atinge muito mais duramente os pobres que os ricos. Ou será que foi para assustar a burguesia que queimaram nove ônibus no Rio de Janeiro?

Se, como antes assinalei, o objetivo da manifestação do dia 28 de abril fosse debater as reformas, os meios seriam outros, e dois pontos se destacariam obrigatoriamente na pauta: o imposto sindical e a reforma da Previdência. O imposto – um dia de trabalho que a força do Estado arranca de cada assalariado a fim de sustentar os sindicatos – é a pedra angular da organização sindical brasileira.

Complementa-o a chamada unicidade sindical, ou seja, o monopólio da representação de uma categoria numa dada base territorial, excluindo, portanto, a competição entre sindicatos (Constituição de 1988, artigo 8, II). Décadas atrás, passava por ignorante o advogado ou sociólogo que discorresse sobre a organização sindical brasileira sem indicar seu parentesco com o regime de Mussolini; citar a Carta del Lavoro era sinal de cultura. Mas foi para preservar tais excrescências que os manifestantes do dia 28 recorreram à peculiar retórica dos pneus queimando e do apedrejamento.

Semelhante ou até pior foi a posição assumida na ocasião pelo sindicalismo no tocante à reforma da Previdência Social. Pior porque a discussão de tal reforma deve obrigatoriamente partir de uma evidência incontornável, a mudança demográfica. A sociedade brasileira está ficando mais velha. Os nascimentos e a mortalidade infantil diminuem, os vivos vivem mais do que há 30 ou 40 anos.

Ora, se cada cidadão quer, como é justo que queira, ser garantido na velhice, é óbvio que precisa trabalhar e contribuir por mais tempo. Esse é o cerne da questão, o resto são as regras específicas da transição para o novo sistema, que o Congresso está analisando e negociando. Eis aqui, portanto, uma evidência meridiana: o foro adequado para a negociação é o Congresso, não as ruas. A linguagem apropriada é a do discurso parlamentar, não a do coquetel Molotov. Ameaçar ou tentar chantagear o Parlamento por meio da ação direta é uma insanidade que só pode mesmo vicejar na mentalidade anarcossindicalista.

Neste momento em que o Brasil precisa desesperadamente das reformas mencionadas a fim de superar a recessão e retomar o crescimento econômico, essa forma de indigência intelectual não “educa” ninguém. O que ela faz é tornar mais sombrio o futuro dos nossos 14 milhões de desempregados e dos pobres em geral.

*Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria, membro das academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências, é autor do livro “Liberais e Antiliberais: a luta ideológica de nosso tempo” (Companhia das Letras, 2016)

O Estado de São Paulo

KD a Raiva?

Screen Shot 2017-05-05 at 16.58.33

Anos a fio com uma repetição para além de cansativa, ocorrem atrocidades que causam repulsa.  Enquanto o Congresso e os políticos empenham-se em negociar proteção política em troca de reformas acontecem em toda parte as desgraças rotineiras.  Matam e mutilam Índios, degradam o meio ambiente, os assaltantes tomam com impunidade, as policias invadem, as milícias “protegem”, mulheres são assediadas e ameaçadas, as crianças morrem por balas “perdidas” e pessoas de “bem” insistem na continua rapinagem. Enquanto isso, o cidadão comum assiste de boca aberta e engole seco com o atendimento de qualquer serviço publico.  KD a raiva?

É verdade que há casos de prisões de políticos e empresários por corrupção mas tem se a percepção que o tratamento desigual perante a justiça permanece e muitos corruptos aparentemente gozam de boas vidas em casa.  KD a raiva?

Propaga-se a cordialidade do brasileiro.  Mas talvez é melhor observar que a acomodação e passividade são ainda mais característicos.  A população queda perplexa, passiva e atônita diante dos acontecimentos.  Aceita-se com fatalidade que o governo é corrupto, que a policia é violenta, que desigualdade, machismo e racismo são parte da realidade que não vai mudar. E ainda ha gente que clama pela volta da ditadura militar, mas por frustração e menos por ira.  KD a raiva?

Volta-se para a família, para a igreja, para a torcida ou mesmo para um movimento que ofereça um beneficio ou ao menos uma promessa de melhora ou sentimento de valorização individual.  Mas sem raiva e com acomodação.  Dar muro em ponta de faca não faz bem.  Arriscar contra a maré não faz sentido quando o emprego é precário ou inexistente e o dinheiro está curto.  A opressão da escassez quase absoluta e a passividade induzida favorecem o status quo.  Assim também a falta de interesse pela educação publica de primeiro e segundo grau.   A falta de conteúdo e a aprendizagem apenas para passar levam também ao não questionamento.  KD a raiva?

Não é que o brasileiro não tenha raiva.  O marido bate na mulher, a mãe castiga as crianças e os meninos usam a raiva para bullying e intimidação.  Desafortunadamente as pessoas não encontram como: 1) compreender a raiva; 2) lidar com a raiva de forma produtiva; e 3) canalizar a raiva através de uma participação social.  Sem consenso fica difícil compreender.  A frustração resulta no atavismo e botar para quebrar numa rejeição sem resultado.  E se não há resultados e mudança, por que participar?  E assim a não participação acaba favorecendo os de cima e as coisas mudam só para ficar no mesmo.  KD a raiva?

Quando pergunto: KD a Raiva? Umas pessoas respondem que estão com vergonha, mas não com raiva.  Outros respondem que a raiva é da direita, ou seja, acham que a revolta contra a corrupção é coisa de um lado só.  Por trás, existe o pensamento que os pobres, os homossexuais ou os “diferentes” representam uma ameaça de alguma forma.  Os negros, as minorias sexuais e ate os religiosos se sentem perseguidos.  E todos recorrem para o estado paternal e patronal para verbas e socorro.  E aí continua todo mundo “bestializado” como bem descreveu meu mestre Prof. Jose Murilo de Carvalho.

KD a raiva?  KD a bendita raiva?