Lula: Estou Triste

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A condenação do Lula por unanimidade certamente é um marco na historia recente.  Talvez não seja surpresa, mas ainda assim mexa com as emoções.

Pessoalmente, o que me deixa triste e frustrado é aquilo que talvez podia ser sido e não foi.  Me lembro muito bem das eleições de 1989: Lula contra Fernando Collor.  Embora o Collor apareceu do nada como algo modernizante num Brasil saindo das trevas da ditadura, Lula tinha mais historia e oferecia uma narrativa de justiça muito mais atraente do que o garoto dourado que de repente galgou toda a simpatia da mídia tradicional.

Na época, Lula ainda tinha as origens de pobreza.  Ele ainda não tinha o transito fácil entre as elites.  Ele pregava uma mensagem de mudança e de esperança baseado na sua historia de migrante nordestino, de militância sindical, na sua luta contra os governos militares pelo menos desde Geisel e na personificação de uma mudança radical que prometia mais igualdade, diminuição das diferenças, libertação de jovens e mulheres e todo um projeto de busca de modernização à parte das oligarquias tradicionais.

Não tinha jeito e Collor foi eleito.  Somente, depois de uma nova passagem de construção e evolução com Fernando Henrique Cardoso, o plano Real, e a crise econômica do inicio do século, que Luís Ignácio finalmente conseguiu com todo direito e todas as honras sua eleição como presidente batendo nitidamente o candidato Tucano, Geraldo Alckmin em 2002.

Lula, eleito inicialmente criou um ambiente de incerteza, mas logo, logo com a indicação de Antônio Palocci e a carta ao povo brasileiro, Lula acabou tranquilizando o mercado financeiro e assim eliminou uma grande e potencial fonte de instabilidade.  Apaziguado o mercado, Lula galgou a simpatia não só de sua base tradicional, mas também das elites diante de sua atuação em prol das politicas econômicas tradicionais.  Prometeu e deu continuidade a politica econômica de seu antecessor.   O ambiente externo favorável puxou o crescimento e Lula soube administrar a expansão no sentido de corrigir de uma forma mais acentuada o salario mínimo e também ampliar o programa fome zero para bolsa família.  Como Presidente, ele continuou e melhorou as medidas de correção já iniciadas.

Entretanto, o grande desapontamento foi que a partir do discurso de maior igualdade, o Presidente Lula acabou aceitando e elevando uma proposta para firmar o PT no poder.  E assim começou a ampliação do poder através de medidas cooptativas e de compra aberta de votos e aliados não com o intuito de redistribuir, mas com o objetivo de criar uma base de poder assentada no controle da maquina publica usando a em favor de um projeto de acomodar aqueles que trocavam apoio politico pelo acesso aos recursos da administração publica.  Lula usou e abusou o sistema, expandindo sem preocupação, os postos de trabalho na maquina publica.

A politica de cooptação através do uso do estado a nível nacional, estadual e local funcionou até certo ponto.  Mas foi uma expansão aonde o PT e os partidos aliados não se preocuparam tanto com a boa administração, mas muito mais com o acesso aos recursos e seu uso “liberal”.  Lambuzaram-se no poder.

Infelizmente, Lula não usou educação e cultura para melhorar a aprendizagem e escolaridade.  Embora foram criadas escolas técnicas e universidades, perdeu-se em qualidade e recursos produtivos. Infelizmente, educação não foi seu enfoque.   As taxas de aproveitamento escolar não melhoraram e a baita diferença de qualidade entre a escolas publicas e privadas permaneceu.  De forma semelhante, aconteceu o mesmo com a saúde e reformas no setor primário.  Lula foi tolerante ou conivente com o MST, mas na realidade não fez nenhuma reforma agraria com assentamentos e reais inovações na oferta de recursos para trabalhadores sem terra.  Em vez disso, os supostos trabalhadores viraram apenas massa de manobra na luta politica com objetivos limitados que pouco tinham a ver com produção rural.  Durante o governo Lula e do PT expandiu-se a fronteira agrícola de mãos dadas com os latifundiários que tiveram basicamente mão livre nos cerrados e na Amazônia.  O mesmo ocorreu com a aliança desenvolvimentista do governo e os empreiteiros na construção das barragens e obras antiecológicas.  Bel Monte começou com Lula e foi em frente com sua agressão antropológica e ambiental no governo Dilma.

Enfim, Lula aprimorou um discurso baseado na sua narrativa de nordestino, trabalhador, engajado, progressista, consciente e reformista.  As boas intenções revolucionarias de mudar a distribuição de renda funcionaram enquanto os ambientes internos e externos proviam recursos suficientes num ciclo positivo.  No entanto, quando reverteu como sempre reverte, não havia uma base de sustentação.  Lula não criou nada solido no sentido de oferecer alternativas reais para os desfavorecidos.  Como sempre, a educação foi insuficiente e de baixa qualidade, a saúde também e até a mobilização politica das pessoas foi feita em troca de favores em vez de objetivos reais de mudança e participação politica.

Infelizmente, o sistema absorveu Lula e ele ofereceu pouca resistência.  Acabou aceitando um projeto de poder para favorecer, em primeiro lugar, um circulo pequeno de sicofantas, em segundo lugar um grupo de oportunistas coniventes de ocasião e em terceiro lugar aqueles que já se apoderavam da maquina publica e continuaram aproveitando de forma conivente com um governo que ficou ideologicamente cego.

Pode-se culpar Lula.  Pode-se chama-lo de grande chefe do esquema criminoso, mas é mais acertado ver Lula como quem chegou e acabou acomodando aos sistemas tradicionais do poder e distribuição de favores.  Ele chegou ao topo do sistema, mas o sistema foi maior do que ele como individuo e ele acomodou na aceitação e administração de demandas.  Assim, ele se confirmou como um populista de esquerda nos moldes do Getúlio da década de 50.

É triste porque, em principio, Lula poderia ter sido mais.  Ele poderia ter liderado a costura de um acordo nacional mais sustentável e favorável às novas classes que emergiram com a estabilidade da moeda (Plano Real e controle da inflação).  Em vez disso, ele optou por um caminho de reformas fáceis e de alcance limitado, e que hoje estão sendo revertidas.

Esta primeira condenação (com apelo) do Lula não será a ultima.  Mas o pior é que Lula se perde hoje na falta de autocritica, não admitindo nenhum erro.  Ele se acha a alma mais honesta, além de ser a própria encarnação o povo.  O que é um auto definição sem base e sem fundo.  Não houve um caminho de construção nem no sentido politico e menos ainda no sentido de um modelo econômico funcional.  Se Lula voltar, é só com as mesmas e cansadas fórmulas anti-mercado, anti-capital e anti-investimento que nunca funcionam.  Definir um modelo sustentável a longo prazo num pais com a tradição escravocrata que o Brasil tem não é fácil, mas está mais do que claro que o estado lotado e capturado por um partido, aliados e/ou castas estatais, se tornou um grande empecilho ao desenvolvimento e redistribuição.  Lula tinha em mãos a forca politica para promover alterações importantes, mas no final do dia isto não aconteceu e ficamos hoje com sua condenação, decepcionados com ele, frustrados e sem projetos.

Há gente feliz, dizendo que as instituições funcionaram.  Não é a verdade completa.  A justiça também anda capenga como a sociedade.  A construção vai ser lenta e resta saber se há um projeto no Brasil que ultrapasse Lula populista ou as elites eternamente enraizadas.

 

 

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