Brasil: Marcha Ré para o Futuro

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Sempre que chego de volta ao Brasil, tenho que acostumar com o fuso horário, mas não só. A distância física, a diferença de clima, o ambiente, a comida, as pessoas e o astral são diferentes. A impressão, sob a perspectiva norte-americana, mesmo em um mundo tomado de assalto por Trumpistas, Trumbetas e Trambiques, é que o Brasil continua sendo o Brasil e nunca perde uma boa oportunidade para se estrepar. O país que tem tudo para dar certo só tropeça.

Entretanto, a impressão de longe não é completa. Entre as duzentos e tanto de milhões de pessoas, há quem procura viver com boas expectativas e com esperança. Há ceticismo, mas também há a idéia de que as coisas podem e devem melhorar. Um dos problemas, no entanto, vem da tradição ibérica de fechar o foco apenas naquilo que se tem à mão: a família dentro da proteção das paredes. Aceita-se como imutável aquilo que parece impossível mudar ou que nunca mudou. Fecha-se entre paredes, liga-se a TV e se protege ou se aliena como pode.

Como se pode esperar, surgem as reclamações: Não há emprego, a escola está ruim e/ou chata, os serviços de saúde não prestam e o perigo mora do lado de fora, no mero malandro ou no assassino cruel ou simplesmente estúpido. A TV alardeia e os jornais vendem o sensacional, a realidade sanguenta.

E apesar de tudo, o futuro chega. E fica a questão: o que futuro? O país sai lentamente da recessão e a economia é cíclica. Mas quais são as possibilidades de trabalho para quem hoje está com 10 anos e estará com 20 logo depois da Copa em Qatar? Quais são as chances de quem egressa da escola pública? Quem pode subir se ainda tropeça no esgoto e lama das chuvas por falta de interesse no saneamento básico?

Reclama-se, mas quem faz algo para melhorar? O Presidente manda o exército para intervir no Rio e ainda faz paralelo com a participação através da ONU no Haiti. O Haiti é aqui, mas o exército não é a solução do problema de violência no Rio.

Com certeza, temos que reconhecer os movimentos sociais e as tentativas individuais e coletivas para atenuar a situação. Infelizmente, contudo, os movimentos ainda não alcançam o “tipping point” para virar a direção e alterar profundamente o quadro. A vontade que existe não basta, não atinge a massa critica.

Com o discurso direita x esquerda e apenas a identificação da corrupção como problema fundamental, as pessoas bem informadas acabam com um enfoque limitado. Intelectuais de esquerda como Vladimir Safatle, desencantado com qualquer progresso político institucional, advoga uma democracia direta que parece ser uma “solução” Cubana ou Chavista, o que, por sua vez, não vai resolver nem o problema de corrupção e muito menos o problema econômico de gerir produção. A direita, por sua vez, na forma populista de um capitão, clama por uma solução voltando para a intervenção militar mais ampla do que o atual experimento no Rio. E quem conhece ou viveu nos anos de chumbo, sabe que o governo pela armas não oferece nada de positivo e duradouro. É nada mais que falsa solução enraizada no desespero e desencanto.

A construção da democracia no Brasil, embora árdua, não é impossível ou não menos improvável do que o voluntarismo de esquerda ou de uma investida militar. Na realidade, tudo é possível. Mas espero que o caminho atual no sentido de realização de eleições abertas e da participação das pessoas na política e no mercado ainda represente a direção mais acertada. Talvez o mundo tenha implodido ou explodido antes da chegada de uma solução melhor no Brasil, mas as duas opções vislumbradas até agora são ainda menos atraentes.

Paciência e vamos para o futuro, sem um regresso indevido ao passado ditatorial. Sem retrocesso, por favor.

 

 

 

 

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