Sintomas, Causas e Falso Dilema

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Fonte Foto: Bem Paraná

Há hoje uma mistura estranha de euforia e desespero.  Os que apoiam o capitão reformado, Jair Bolsonaro estão felizes e esperançosos apos os resultados do primeiro turno.  Por outro lado, os Petista estão magoados por vários motivos, mas o principal é que o ex-Presidente Lula continua preso em Curitiba.  Mas a maior tristeza e por parte da grande maioria dos brasileiros que rejeitam os dois candidatos que vão para o segundo turno.

Forcados a optar entre um e outro na votação final, tudo indica que o capitão prevalecera com ampla vantagem.  A escolha de um candidato sobre outro, baseia-se na construção de uma narrativa que deve ter um certo fundamento racional, mas que é na realidade, sobretudo emocional.  As emoções viscerais que o brasileiro sente são:

Corrupção e roubalheira

Crime e violência

Desemprego e falta de oportunidade

Cada item da lista toca as pessoas no seu interior, no seu coração mais do que na cabeça.  E nitidamente todo mundo condena o roubo, a violência e as dificuldades de se arrumar na vida.  E a condenação vem de um sentimento de revolta com um sistema que aparentemente falhou.  As pessoas percebem que embora querendo trabalhar honestamente, não veem chance de progredir sem fazer ou sem aceitar aquilo que percebem como equivocado, errado ou errôneo.  Acabam por concluir que quem está mais errada e mais injusta e a classe politica que administra o pais.   Racionalmente, as pessoas reconhecem a necessidade de um poder publico ou de um gestor do bem-estar, mas na emoção rejeitam toda a classe politica e por extensão todos aqueles que talvez poderiam resgatar o pais desta situação.

Bolsonaro lidera, porque ele capturou e transmitiu bem o desespero e rejeição do povo, prometendo uma solução para os males que assolam o pais.  O candidato Haddad, por outro lado, também tenta apelar para a emoção invocando as lembranças já distantes dos bons dias da administração do Presidente Lula quando o Brasil “estava feliz” e o presidente operário gozava de seu 80% de aprovação.

Entretanto, os problemas de corrupção, crime e desemprego não são causas, mas apenas sintomas.  A corrupção e causada pela falta de transparência. As ações e infrações são feitas secretamente, sem o conhecimento e a revelia do povo.  E quando por ventura vem à tona, as instituições existentes ou são fracas e sem poder para inibir e punir.  Vale lembrar que crime não ocorre porque as pessoas são naturalmente más ou bandidas, mas porque aproveitam as oportunidades, sabendo que o policiamento é precário e a justiça não funciona. A questão do desemprego ocorre de forma similar.  O governo inibe investimentos com uma burocracia e um sistema de tributação excessivo. Os recursos arrecadados desaparecem antes de serem reinvestidos em benefícios prioritários como educação, saúde e segurança.

O que preocupa no Brasil de hoje são as emoções exacerbadas, a busca de soluções simplistas, e a falta de engajamento das pessoas na sociedade civil fora do período eleitoral.  A aceitação e passividade diante da agressividade da campanha, principalmente da direita, são notórias.

Por outro lado, o Brasil tem uma economia relativamente complexa, com uma população grande e em evolução, e com uma estrutura democrática. Possui eleições, liberdade de imprensa, direitos individuais, acesso (embora parcial) a propriedade e a ideia de prosperidade individual. Essas características e a possibilidade de novos partidos e participação politica com a ideia emergente de que mudanças são possíveis, constituem, em seu conjunto, fatores de alento.  Ao poucos os indivíduos vão melhorando sua educação.  Os próprios bandidos almejam uma vida diferente para seus filhos, e a corrupção e roubo não correspondem aos anseios reais e razoáveis das pessoas.  O sentimento de revolta e rejeição eventualmente levam ao reconhecimento de que as causas precisam ser endereçadas.  O sistema autoritário sempre tem um problema de sucessão.  As pessoas no Brasil hoje não acreditam piamente na democracia, mas quando chega a vez de substituir o novo mandatário, o pais ainda recorre as eleições.  As ditaduras podem durar anos, a economia pode empacar e perder décadas e as pessoas podem continuar analfabetas e ignorantes, mas este não é automaticamente o destino do Brasil.

Embora a escolha entre Haddad e Bolsonaro apareça como um dilema, mas não é.  Na realidade, são opções que retratam o estado da politica do momento. O que precisa ser feito depende das ações responsáveis de atores dentro dos parâmetros da sociedade civil em sua interação com as instituições. Neste processo, os eleitores vão escolher e de certa forma legitimar o eleito.   Mas o dilema real é descobrir como se educar e proporcionar saúde e segurança.  O dilema é prover saneamento básico.  O dilema real será achar a formula para deixar o mercado e a economia funcionarem num quadro de interesses encastelados dentro da maquina publica.

Infelizmente, nem Haddad e nem Bolsonaro tem propostas claras que lidam com os dilemas reais. Dai, a escolha entre um ou outro não é nada mais do que um falso dilema.

Entretanto, anular voto ou votar em branco não é boa solução.  Ao contrario, as pessoas devem escolher, nem que seja candidato “menos ruim” a seu ver.  E aí, depois das eleições, o vencedor terá que algo de legitimidade a manter e a sociedade civil tem que resolver assumir o mando sobre os políticos.

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