Descaso, Acomodação e Fatalismo: A Morte Anunciada em Brumadinho

mortevidaseverinaGravura do livro: Morte e Vida Severina

 

Joao Cabral de Melo Neto escreveu sua obra Morte e Vida Severina na década de 50 retratando a epopeia de sofrimento, morte e a esperança da vida sertaneja.  Na década, milhares de nordestinos migraram em direção aos centros do sudeste do Brasil, inclusive a Região Metropolitana de Belo Horizonte.  Ainda na década de 50, a estatal CVRD estava começando a ganhar corpo como um gigante futuro na mineração.  Minas está no nome.  Lá reside o nascedouro do rio que era uma vez doce.

Aprendemos criança que Minas Gerais é prodígio em riquezas naturais, principalmente, do subsolo.  O estado, nos ensinaram, tem um coração de ouro dentro de um peito de ferro.  O ouro e depois os diamantes e pedras financiaram as igrejas coloniais e as riquezas de Ouro Preto, Diamantina e muitas outras cidades.  Sua transferência para a matriz (Portugal) e de lá para Inglaterra ajudou a financiar a revolução industrial dos séculos XVIII e XIX.  De minas e Minas Gerais vem a riqueza que não fica mas transforma.

Ouro e diamantes poderiam ser extraídos de uma forma artesanal e seu transporte era feito por tropeiros com suas mulas.  O alto valor do produto permitia.  Hoje, a escala é outra e a produção já não se mede em gramas, quilates ou onças, mas em toneladas.  A principal riqueza hoje é o minério de ferro que vai em imensos comboios de vagões e navios gigantes.  A escala industrial tomou corpo no Sec. XX e sua transformação continua no Sec. XXI.  O que era uma agressão ambiental localizada virou grande problema para as cidades e o pais.

Apesar dos pesares e da relutância do Ministro de Relações Exteriores, o Brasil inseriu-se cada vez mais no capitalismo globalizante.  As industrias e a mineração cresceram com o capital estrangeiro e com as varias associações e parcerias com capital do Estado e capital nacional.  O processo nem sempre desenvolveu sem percalços, mas sem duvida tornou-se algo cumulativo e irreversível.  O Brasil é cada vez menos uma autarquia, fechado em si.  Vale é uma empresa mundial e segue até hoje como “campeão nacional. “ Se a Vale cair, será por seus próprios erros e não o anti-globalismo do Min. Ernesto Araújo.

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Marca da Vale

O processo de crescimento do capitalismo periférico e desigual trouxe certamente a expansão econômica e a produção de mais riqueza, mas sem atenuar as desigualdades e sempre afastado e alheio às vontades mal definidas da população.  A transformação politica é sempre mais lenta.

O Estado representando predominantemente as elites e seus interesses não podia ignorar totalmente a população, e sempre seguiu uma politica de antecipar necessidades e de prover para o “povão” de uma forma paternalista.  Aí temos “avanços” começando com a Proclamação da Republica e o sufrágio ampliado para ter depois a implantação da legislação trabalhista do Estado Novo de Getúlio em “prol” do trabalhador. As medidas de saúde, de um decimo-terceiro salario, de criação de um sistema de previdência sempre foram dadas em avanço às demandas.  Foram basicamente outorgas do Estado para os clientes com o efeito de sempre controlar ou enfraquecer movimentos partidários e sociais.  Assim os grandes partidos “populares” como o PTB do Getúlio ou o PT do Lula se aliaram as elites retrogradas ganhando acomodação, mas perdendo coerência programática.

Há mais de um século, fala-se da incorporação através do desenvolvimento econômico liderado pelo estado e seus aliados.  Mas apesar da evolução, o analfabetismo real e funcional permanece e até expande.  Da mesma forma, ate hoje 50% da população não tem conexão a rede de esgoto e acaba sofrendo as consequências, antigamente na forma de disenterias intestinais e febres, e agora agravados pelo aparecimento de dengue, zica, chikungunya e a volta da malária e febre amarela que haviam sido extirpadas.

Todas as desgraças ecológicas e sociológicas resultam em parte da manutenção da população na ignorância e na pobreza.  As estruturas de mudanças existentes apenas reforçam a passividade, fatalismo e acomodação.  O Brasileiro está acostumado a tragédia.  Tem todo ano mais de 60 mil mortes criminosas, mais de 40 mil mortes no transito, deslizamentos de terra todo ano com as chuvas resultando em desabrigados feridos e mortos.  Com o desenvolvimento as elites aceitam o descaso e desleixo e aí encaixa Brumadinho, uma tragédia que repete de forma humana mais nefasta do que o caso de Mariana onde a mesma Vale do Rio Doce e seu parceiro Samarco foram responsáveis.  Já são mais de 100 mortos em Brumadinho e ainda mais de 200 desaparecidos.  Chocante, mas como dizem os sobreviventes que esperam que não repete o “azar”.  Enfim o povo acomodado com a morte, com a desgraça, com o desleixo do Estado, e ainda bestializados sem saber como reagir.

Temo que não permaneça a repugnância e raiva.  Penso que não dura a revolta e estou preparado para que Brumadinho, depois do Carnaval e depois de uns tempos, acaba no esquecimento como já foi esquecido as tragédias da Gameleira e de Mariana. Pode ser e espero que esteja enganado.  Afinal das contas, cada vez mais estão morrendo não só pobres, mas também os instruídos.  Será que a classe media e setores da elite podem desvincular da ganancia, da necessidade de manter o apartheid social e de sua complacência?  Será que o brasileiro poderá conseguir transformar sua tristeza, sua angustia e seu desespero em algo diferente.  Na ultima eleição os eleitores deram uma vitória a um ex-militar para supostamente acabar com a corrupção.  Será que vai ficar aparente que a corrupção é sintoma e não causa e que as causas precisam ser combatidas?  Será que o Presidente e sua administração poderão reconhecer os problemas reais que impedem um desenvolvimento verdadeiro e possível?

Brumadinho sem duvida é uma grande tragédia e um crime contra as pessoas e a natureza mas se o Brasil seguir o mesmo percurso de sempre, as mortes e danos simplesmente passarão como parte da rotina normal de descaso, acomodação e fatalismo que caracterizam a cultura brasileira.

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Foto tirado Internet apos o rompimento da barragem em 25/01/2019

Uma nota pessoal: Prof. Marcio Mascarenhas e sua familia foram vitimas.  Marcio foi meu colega no ICBEU na década de 60 e 70 em Belo Horizonte.  Lamento muito sua morte e transmito minha solidariedade para a família e amigos.

 

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