2020 – Previsões para um Brasil Cheio de Desafios

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Acabo de analisar minhas previsões do ano passado e agora antes que acabe o mês de janeiro, estou apresentando minhas ideias para o Brasil no ano novo. Estamos terminando o primeiro ano do governo Bolsonaro e também começando uma nova década. Não sei se estarei com energia daqui uns 10 anos, em 2030, então vamos fitar apenas 2020.

Em primeiro lugar, vejo que o Brasil tem 3 desafios principais: 1) Manter e aprimorar a democracia; 2) diminuir a desigualdade econômica e social, e 3) crescer e desenvolver.

Olhando para o futuro próximo, temos duas posturas bem brasileiras.  Como no Brasil gostamos de oscilar entre a euforia do carnaval e a depressão da derrota no futebol.   Então a primeira perspectiva seria uma visão otimista. A segunda seria ver o futuro com pessimismo. Na realidade, há a terceira alternativa de nem tanto para o mar e nem tanto à terra. Já que não ha concordância com o que é ótimo ou ruim, devemos colocar o meio termo como algo mensurável e aí pode fazer uma avaliação “objetiva”.

Torcemos para o ótimo e aceitamos o bom. No caso, se o país “escapar” do discurso autoritário do Presidente Bolsonaro e de sua desconfiança da eficácia do projeto democrático e ateamo-nos as instituições para garantir a vida política (imprensa livre, liberdades individuais, 3 poderes separados) para ter então eleições municipais normais com oposição e voto livre.  Assim os agentes econômicos encontrarão num quadro institucional mais solido a confiança para investir e haverá criação de empregos e expansão da riqueza. Com a política e a economia funcionando, de acordo com regras de jogo, haverá uma tendência quase que normal para diminuir a desigualdade.

Ao contrário, temos o lado do pessimismo. No caso, a economia continuara estagnada, as ameaças tipo AI-5 e movimentos extremistas para denegrir e até quebrar, ocorrerão com mais frequência com a falta de regras e haverá apenas apelos para figuras políticas de natureza populista e messiânica. Nessa situação, não se constrói a democracia e dificilmente a desigualdade poderá diminuir. Olhando para América Latina e países próximos ao Brasil, o Chile talvez seria um exemplo do positivo enquanto Argentina seria o polo negativo com seu declínio já secular. Com isso, não quero dizer que o Chile seria o ideal e que Argentina seria o “anti”. Como os protestos recentes em Santiago demonstram, há problemas por lá. E Argentina, por sua vez, realizou sua eleição e sucessão de forma democrática. No caso específico do Brasil, por seu tamanho, potencial e liderança regional, o país é um caso a parte que precisa definir o fim e os meios para chegar lá.  O Brasil quer ou não quer a participação política com crescimento e atenuação do fosso econômico e social?

Vamos lá então com as previsões mensuráveis da economia:

  • 1)  Crescimento: PIB a 1,8% sem crescimento do setor secundário (indústria) e turbulência no mercado agroexportador. É provável que Xi Jinping e Trump chegam a um acordo parcial favorecendo os fazendeiros americanos e prejudicando as exportações brasileiras, principalmente de soja. Com mais um ano de crescimento fora da curva do “milagre brasileiro” (Veja Delfim Neto e a década de 70), a inflação oficial continuara baixa, com a estatística oficial registrando 5%. Vejo que os gastos com gás de cozinha, com escola e com saúde estão aumentando a um ritmo de mais de 5%. Haverá pressão também no aumento do preço de combustíveis, tanto por parte da Petrobras quanto por parte das distribuidoras.
  • 2)  Emprego: A taxa de desemprego deve permanecer em torno de 11 a 12% da população economicamente ativa (PEA). Com isso haverá uma ligeira melhoria com menos desempregados, mas mais pessoas trabalhando no setor informal e também na “Uberizacao” das atividades.
  • 3)  Investimento estrangeiro: Ao longo da última década, Brasil recebeu anualmente algo em torno de 60 bilhões de US$ em FDI (Foreign Direct Investment). Estimo que a entrada de recursos continuara no mesmo montante ou ate mais chegando a 70 bilhões. As principais áreas serão óleo e gás, infraestrutura de energia e em menor grau de saneamento básico, atividades financeiras incluindo FINTECHs e por fim educação e saúde que são áreas lucrativas que carecem de investimentos e podem atrair estrangeiros. Apesar do alinhamento ideológico do Presidente Bolsonaro com o Presidente Trump, os Estados Unidos não lideram como pais de origem de recursos. Também deve-se notar que os investimentos estrangeiros vindo dos EUA e da Europa, não serão para atividades novas, mas na forma de manutenção, modernização e em casos isolados expansão de atividades industriais tipo no setor automotivo. Embraer será um caso de desinvestimento devido a aquisição pela Boeing, mas com os problemas causados na companhia pelo 737 Max, a Boeing não devera deslocar imediatamente produção e a cadeia de fornecedores para os EUA.4) Privatizações: Apesar de prestigiado pelo Presidente, os planos do Secretario Especial Salim Mattar de privatizar algo em torno de 200 empresas publicas apresenta um grande desafio e a meta não será atingida. Certamente a Petrobras, a Eletrobrás, e ate a EBC (Empresa Brasileira de Comunicações) continuarão sob o controle do governo.

    Afinal com as eleições municipais o Congresso terá um tempo reduzido para debater e eventualmente aprovar a venda de companhias publicas. A pauta também não e’ popular entre os empregados e funcionários que também farão forte lobby contra. Enfim o discurso existe, mas não tem um cronograma ou um mapa que mostra para o investidor estrangeiro o “caminho das pedras”.

    5) Desigualdade econômica e oportunidades: Vou manter a minha previsão do ano passado do aumento de desigualdade usando o fator Gini como medida. Devo dizer também que a educação de base seria o principal meio para atenuar, e a atuação do Ministro de Educação tem sido muito mais política e de guerra cultural do que no sentido de realmente melhorar qualitativamente o ensino de primeiro grau.

  • 6) Juros: A taxa de juros a 4,5% nunca teve tão baixa e há um consenso entre os empresários (pelo menos os grandes) que isso por si representa uma grande oportunidade.  Esperamos que sim, mas a realidade é um pouco diferente. As linhas de crédito dos bancos comerciais são muito mais elevadas.  Os novos programas do BNDES voltados para pequenos e médios empresários, ainda são amplamente desconhecidos e pouco aproveitados.  Ademais, os empresários ainda assumem a postura conservadora de ver para crer e com a desconfiança não arrisquem.  Os consumidores, por sua vez, estão pendurados e as taxas que são oferecidas continuam exorbitantes.  Finalmente se a economia volta a crescer, os juros vão subir.

Previsões Sociais

  • 1)  Violência: Em 2019 para nossa surpresa, os números da violência, pelo menos em homicídios, caíram. Por outro lado, o número de mortes causados pela polícia aumentou ultrapassando 5000. Com certeza, a queda é importante e entender a causalidade mais importante ainda. Não creio que compreendemos as razoes. Pode ser uma trégua entre os carteis emergentes, pode ser algum pacto entre os criminosos e o aparato de segurança do governo ou pode ser ate progresso positivo da civilização brasileira onde as pessoas estão dispostas a usar outros meios de resolução de conflito. Todavia, do meu ponto de vista nada de básico mudou e os números de violência em 2020 serão iguais ou piores do que 2019.

2)  Amazônia e Terras Indígenas: Haverá mais mortes de índios em conflitos de terra e mais invasões.  Os incêndios, entretanto, serão menores em 2020 do que em 2019 já que o governo está sendo forcado a reconhecer o impacto negativo no resto do mundo.  Apesar disso, o Ministério de Meio Ambiente estimulará a mineração, a exploração de madeira e a expansão da fronteira agrícola em prejuízo a floresta original, principalmente no Para.

3)  Brasil continuará do Acordo de Paris (Clima) mas não contribuirá para medidas que visam reduzir aquecimento global.

4)  O governo Bolsonaro incorpora um moralismo e conservadorismo forte ao lado de um pragmatismo liberalizante na economia.  A Bancada da Bíblia, a Ministra Damares e o cristão das cruzadas, Ernesto Araújo, são os representantes mais destacados do moralismo e conservadorismo.  Sergio Moro, o Ministro da Justiça também estaria nesta ala, mas ele está sendo mais fluido ideologicamente, procurando, me parece, ser o condutor de seu projeto pessoal. Para tanto ele precisa sobreviver, com alguma produção e prestígio, o governo Bolsonaro.  Se o Bolsonaro conseguir manter a aprovação entre 30 a 40%, seus ministros “cristãos” permanecerão.  Senão deve cair em primeiro lugar, Weintraub da Educação.  Os pragmáticos como Guedes da Economia, Tereza Cristina da Agricultura e Tarciso de Infraestrutura estão seguros a não ser que tenham que comprar uma briga com os anti-globalistas.  Se porventura, o Presidente Trump for derrotado então os anti-globalista também perdem.

Finalmente Previsões Políticas:

  • 1)  O grande evento político do ano são as eleições municipais. Com sua popularidade mais ou menos restrita e com relativa pouco poder do bolso, o Presidente terá influencia apenas por seu prestígio pessoal.  Em Rio e São Paulo, os novos prefeitos não serão do grupo de apoio ao Presidente.  Seu novo partido não está organizado ainda e tem relativamente poucos recursos financeiros e então não terá impacto forte na eleição.  O PT, como oposição também está em situação desfavorável podendo no máximo manter o número de prefeituras que atualmente tem e recebera menos votos do que nas últimas eleições municipais.

2)   Além das eleições municipais, haverá também novas escolhas para a presidência e a mesa da Câmara e do Senado.  Não há garantia que Rodrigo Maia e David Alcolumbre, Presidentes da Câmara e do Senado serão reconduzidos já que o regime interno não permite.  Mas minha aposta é que pelo menos um dos dois e provavelmente os dois serão reeleitos através de manobras corriqueiras dentro do Congresso.  De qualquer forma, quem quer que seja não será aliado automático do Bolsonaro.

3)  A eleição presidencial no EUA poderá afetar pesadamente.  Mas minha previsão é que o Trump, a contragosto de muitos, será reeleito.  Os Democratas não têm um candidato que inspira confiança na condução da economia.  Trump está em cima da proverbial “carne seca” e seu discurso de “performance”, militarismo e nacionalismo vai convencer outra vez.  Se o Trump não for reconduzido, a ala anti-globalista no Brasil vai cair e provavelmente acabarão também as chances de Bolsonaro em 2022.

O poder é curioso e o uso do poder na governança e administração tem consequências.  Se as instituições conseguem funcionar com relativa grau de autonomia, independente das pessoas, que ocupam os cargos podemos ter um certo otimismo com relação ao Brasil.  Se por outro lado, as pessoas no poder conseguir atropelar e personalizar a instituições corremos perigo e caímos no pessimismo.  Ou como comentei no início temos algo no meio e Brasil irá como sempre aos trancos e barrancos com um voo de galinha na economia e de acordo com vieses populistas e individuais na política.  Espero que o Brasil consegue a alternativa otimista, mas não temos garantias.

 

Grading my 2019 Predictions – Brazil

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I have a hard time believing that 2020 marks my 57th year from the issue of my first Carteira de Estrangeiro.  One would think that after a lifetime, I would have a grip on what is going and what might happen and while sometimes I have an inkling worth sharing, there are times when we are wide of the mark.  With this, it is time to look back at my 2019 forecast with its hits and misses.  Here is the link (https://allabroadconsulting.wordpress.com/2019/01/20/brazil-predictions-2019/)

I divided the predictions into 3 groupings: Political, Economic and Social.

Politics: 1) My first prediction had to do with Foreign Minister Ernesto Araujo and I stated that it was likely that his crusade against all things global and leftist would likely not last a year and he would be replaced.  His campaign continues but his rhetoric seems increasingly irrelevant.  Personally, I have nothing against an individual espousing strong religious belief and standing up for them.  However, as Foreign Minister, one expects results.  Instead, both Bolsonaro and Araujo have been caught off guard by Trump’s mercurial decisions on imposing/removing/reimposing and then removing again.  Araujo would like to take credit for a European Union/Mercosur accord, but the Amazon burn threw this off track.  The fires stained Brazil’s image and Araujo has not helped putting them out.  He has only clamored about Brazilian sovereignty over the Amazon and this would not even be contested except for what European countries see as unapologetic mismanagement.  Brazil has yet to move the Embassy from Tel Aviv to Jerusalem as promised.  Nor has Brazil achieved anything in Venezuela where Itamaraty’s chief has supported ousting Maduro to no effect.  Finally, Brazil started by alienating the new government in Argentina but has since become a bit more pragmatic and it is actively supporting the more right-wing interim President of Bolivia who took over after Evo Morales had to resign.  So, while still heading Itamaraty, Araujo has been largely ineffective and mostly ignored by Finance Minister Guedes.

2) I thought Sergio Moro would be embarrassed enough to step down.  He did not but his stature, while still high among a majority of the Brazilian public, has definitely been tarnished as he has had to accept President Bolsonaro’s put downs.  His latest comeuppance was having to accept the creation of a special “citizen’s judge” as a new instance for case review.  In reality, this decision may help Bolsonaro’s sons and associates further delay and put off their corruption cases.  On a positive note, Brazil’s 60 thousand plus homicides have actually declined substantially even though the government has facilitated acquiring firearms.  On the other hand, police killing have broken records as security forces feel unleashed and see reduced likelihood of being held accountable.

3 & 4) These predictions were correct as Social Security reform did pass in a somewhat watered-down version with a long phase in period and with the military and judges, prosecutors and justice officials preserving most of their special benefits.  While the least will be most impacted, investors, entrepreneurs and businesspeople almost universally favor the reform, and this represents a major political shift in Brazil.

5 & 6) Point 5 dealt with some wishful thinking that Bolsonaro could be impeached.  This will not come about under circumstances even if his family members are somehow condemned for corruption.

General Mourao continues as Vice-President and will remain so throughout the whole term.  In this sense, the political institutions seem solid and there are no obvious military movements to replace the Captain with a higher-ranking officer.

Economics: 1) After years of corruption, mismanagement and recession, I was optimistic that the economic cycle would kick in and I predicted a 2.2% growth rate.  Certainly wrong!  Confidence continued to lag and mismanagement in many areas under the President’s direct control dragged on and the economy in spite of promises by Minister Paulo Guedes only expanded at about 1%.

2) Inflation.  Here I was off the mark as inflation went down as lack of confidence led to lackluster growth and inflation going down instead of up.  The year 2018 ended with inflation of less than 4% versus my prediction of 6% plus.

3) Interest rates: Wrong again: The benchmark SELIC rate sits at an historic low of 4.5% and I predicted it would have been around 8%.  In looking at whatever optimism and achievements might be expected in 2020, this low interest rate is universally cited as a positive factor and has indeed favored the government as it has reduced the interest burden as the government is the largest borrower.

4) Foreign Direct Investment (FDI): Correct.  I stated that Brazil would attract over 60 billion in FDI by the end of November 2019, Brazil’s Central Bank registered 69.1 billion dollars.  The largest share of this FDI went into investments in the Oil & Gas business targeting mainly offshore operations.  In this prediction, I made reference to Bolsonaro’s ideological distrust of the Chinese who he had accused of “buying Brazil”.  Over the year, he has changed his posture and is now more favorable or perhaps more realistic in being more welcoming to the Chinese as investors especially in oil and gas, energy distribution, and infra-structure.

5) Inequality: The statistics for 2019 are not in so my affirmation using the Gini index is inconclusive.  However, education is fundamental for inequality reduction and the Ministry of Education has been adrift and tainted by the ineffectiveness of its leadership.  While unemployment has dropped to just under 12%, the informal sector is growing as witnessed by the return of engraxates, mainly minors, who work the bars at night providing shoeshines to samba beats.

Social Policies: 1) Violence.  I am pleased that I was only partially right here.  The number of homicides in Brazil have fallen remarkably from over 60 thousand per year to less than 45 thousand in 2019.  Most of this drop can be attributed to an accommodation amongst the major gangs who run the drug trade and other illegal activities in Brazil’s big cities but increasingly in mid-size urban areas as well.  The bad part and I was right about this are that murders committed by the police are indeed over 5000 per year and there is the idea of a carte blanche.

2) Indian and Quilombola lands:  Brazil was in the negative news mainly for the major upswing in the destruction of the Amazon caused by fires.  At the same time, violence, land invasions, illegal logging and mining and other illicit activities resulted in the death of Indians.  The main public agencies, i.e. FUNAI, for protecting tribes and tribal lands have been gutted.  Support for Quilombola communities through NGO’s and government policy have been stopped and or blocked.

3) Brazil did not withdraw from the Paris Climate Agreement, but it did help throw a wrench into the Madrid COP-25 climate meeting.

4 & 5) Bolsonaro’s popularity, mayoral elections and the opposition.  The President’s approval ratings have fallen from over 70% to about 40% in just over a year.  Still a major share of the population strongly supports the Bolsonaro administration.  Opposition is active, but the PT even with Lula out of jail, is no longer the force it once was.  Lula has failed to think beyond his own person and project.  As a result, a new leadership on the left and/or center has failed to gain traction.  The mayoral elections this year will provide a point of focus and perhaps the beginning and strengthening of a more democratic and socially liberal governance. 

6) Infra-structure: Brazil’s Ministry of Infra-Structure set itself apart from as a technically competent and well guided sector of the government.  Its focus has been on roads, ports, airports, railroads and improving, through public-private partnership and outright privatization, Brazil’s lagging infra-structure.  In the 2019 predictions, I referred specifically to sewage infra-structure noting that approximately 50% of Brazil’s households are not connected to basis sanitation systems.  Some small progress has been made in this area in the past year, with work on the legal framework for privatizations and partnerships.  However, the basic problem of lack of public resources or the political will to address the problem still exists.

7) Evangelicals and Minister Damaris.  Yes, evangelical influence continues to grow, and no Damaris was not replaced.  As a matter of fact, she is the most or the second most popular, after Sergio Moro, in Bolsonaro’s Cabinet.  Her connection to poorer women without a university or even high school diploma has been on a sentimental and visceral basis where she has tapped into deep socially conservative roots.  In this she has not been tainted by suspect actions and family corruption as has the President.

Finally, I stated that “in spite alienation and anomie, Brazilian society will not break down like Venezuela nor will it revert to a right-wing military dictatorship.”  Certainly, this is correct, in spite of, and perhaps because of President Bolsonaro’s dictatorial penchant.  He cannot govern alone.  His support among the military is tenuous at best and as a result, Brazil will continue on its muddling path.

My grade for the 2019 predictions: a B with a little condescension.