Canseira!

Cansado-del-camino-o-cansado-en-el-caminoFonte foto: https://acpipr.com/cansado-del-camino-o-cansado-en-el-camino/

 

Estamos cansados, chateados, e frustrados.  Afinal já estamos com 120 dias de “lockdown” e sem muita perspectiva de melhoria.  O racismo continua, “black lives” parecem não importar com o perigo do Covid19 já que a perseguição racial mata mais do que o vírus.  As mortes pelos xerifes continuam, assim como a violação e saque de pequenos e grandes negócios praticados por oportunistas e rebeldes.  Covid19 está nas ruas com mais de 100 mil mortos nos EUA e mais de 40 mil no Brasil.  Enfrentando a polícia, a segurança pública e o vírus, as pessoas protestam enquanto se expõem a um risco duplo.  O Presidente Trump ameaça com as forças armadas em Washington mas felizmente não encontrou o respaldo que ele desejava entre os militares.  No Brasil, o Senhor Presidente Jair Bolsonaro continua tentando proteger seu mandato através de nomeações de soldados e com ameaças não tão veladas de intervenção militar caso a oposição “estique a corda”.

A tormenta “perfeita” continua, e como sempre quando chove muito, ficamos presos dentro de casa deprimidos.  A vontade de sair e encontrar os amigos e parentes é grande, mas como e onde?  Atualmente, Brasil e os EUA estão traçando caminhos paralelos.  Há receio por parte de pessoas do partido democrata que caso o Biden ganhe no voto, o Trump invente uma desculpa do tipo “os votos foram roubados”, e não sairá da Casa Branca.  Da mesma forma, muitas pessoas de esquerda no Brasil identificam o ataque da direita às instituições e já temem o golpe do Presidente com uma intervenção militar, o fechamento do Congresso, e a saída dos juízes do Supremo Tribunal Federal para o xilindró.

No dia dos namorados, por exemplo, um grupo de apoiadores do Presidente lançou bombas de efeito e foguetes de festa ou de jogo de futebol na direção do Supremo. Eventualmente foram retirados de perto e pelo menos uma pessoa da liderança foi presa.  Todo fim de semana em Brasília e outros locais há manifestações pedindo o afastamento dos Presidentes da Câmara e do Senado.  Bolsonaristas também estão “invadindo” alguns hospitais públicos supostamente para mostrar que Covid19 não é problema para o sistema de saúde.

É certo que existem ameaças e o desejo de fechamento do sistema político por certos setores da sociedade, e talvez por parte de certos militares, em sua maioria aposentados, que fazem parte do governo Bolsonaro.   Trump pelo seu lado, tem vontade de dispensar com as formalidades e usar a força como exemplificou em Lafayette Park.

Desvalorizar a democracia e participação política acaba desmerecendo o sistema.  Da mesma forma, populismo de um líder messiânico e a criação de mensagens sem embasamento (fake news) também emperram as engrenagens.  A corrupção também contribui para o desencanto e o descrédito da máquina púiblica.  A tentativa do Ministério de Saúde de não repassar os dados dos óbitos e dos novos casos de Corona exemplifica a tendência de pensamento autoritário e militar, que acabou não funcionando.  Da mesma forma, Trump conseguiu impor sua versão de “lei e ordem” com a anuência do Partido Republicano.

Lembremos que a tomada de poder pelos militares em 1964 também foi feita em nome da democracia e em defesa das instituições.  Sempre nos golpes ou nas rupturas institucionais os mandantes procuram criar uma narrativa aceitável pela população.  A dificuldade, talvez a impossibilidade, de um autogolpe do Presidente Bolsonaro hoje reside em várias falta e falhas:

  1. Falta apoio para uma nova aventura visando o fechamento do sistema democrático. O Presidente procura alavancar seus 57 milhões de votos mas ele não consegue nem o apoio militar, nem a legitimação econômica, e nem o respaldo político.  Enfim prevalece uma Constituição acima da pessoa do Presidente.  Ele, embora “autêntico” e grosseiro acaba se curvando quando não consegue impor suas ideias.  Em sua fala, ele ameaça, mas seus atos publicados no Diário Oficial reforçam suas limitações e mostram como ele é muito mais fraco do que pode parecer.
  2. Falta um projeto e um plano para realização. Existe sem dúvida no Brasil, canseira de corrupção, apoio aos valores tradicionais da família e religião, e a vontade de reduzir a criminalidade e violência.  Enfim, o deputado do baixo clero foi eleito com esse discurso.  Por isso, o apoio de Sergio Moro e sua alçada ao posto de Ministro da Justiça foram importantes na eleição.  Entretanto, a falta de combate à corrupção, o defenestramento do Moro, e a aproximação do governo ao Centrão revelam que não havia substância suficiente para se cumprir as promessas.  Enfim, o Presidente encontra-se politicamente isolado.
  3. Falta a economia. A reforma da previdência, as mexidas fiscais observando o teto de gastos, as prometidas reformas no sistema tributário e a ideia de menos governo, menos burocracia e menos Brasília para ter mais Brasil também ficaram no meio do caminho.  Havia dois super-Ministros e hoje só sobra o Guedes.  Ele, por sua vez, acaba de perder seu Secretario do Tesouro, Mansueto Almeida, e é certo que os dias do Guedes como suprassumo já ficaram para traz.  Ele não tem a competência e nem a vontade de negociar com os políticos tradicionais do Centrão, inviabilizando seu plano de arrumação o qual já foi atropelado pelo alastramento do vírus.
  4. Além das medidas paliativas, o governo precisa alavancar os investimentos. Há grandes necessidades de infraestrutura, em especial saneamento básico, havendo também obra paradas de todo tipo. Este e o resultado do desarranjo político que incapacita e dificulta arregimentar os recursos econômicos para tocar obras e efetivar investimentos.  O governo não tem demonstrado nenhuma competência em equacionar a tradicional briga entre o “desenvolvimento” e a “economia.” Vide a recente disputa ministerial entre Guedes e os criadores do novo “Plano de Desenvolvimento”.

Embora a administração demonstre fraqueza, não há por outro lado um projeto de poder alternativo.  Não há novas lideranças e na falta de novas ideias e novas composições, gerando canseira e frustração, que vão continuar.  A alternativa do momento deve ser se resguardar do vírus, depois a ativação gradativa do comercio, aliada às medidas paliativas.  Enquanto isso, foca-se nas eleições municipais, no papel das ideias, e no lento desenvolvimento de novas lideranças.  O Brasil é um país imenso com uma economia razoavelmente sofisticada.  No passado, os militares tentaram sem sucesso sua gestão política e econômica mas rapidamente perderam legitimidade.  Tiveram que editar um AI-5 e impor a repressão que não funcionou na década de 70 e tem muito menos condições de funcionar 50 anos depois.

Com certeza estamos frustrados, e reclamamos do sistema democrático e todos os seus defeitos, mas quando ele desaparece e instala-se a arbitrariedade, todos irão sentir falta de algo que era bom mas que não sabiam.