A Segunda Vinda do Messias

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Muitas vezes criamos dificuldades para compreensão da política brasileira porque ficamos amarradas e comprometidas com uma ideia fixa.  Me parece que é isso que ocorre no Brasil com relação ao Presidente Jair Messias Bolsonaro.  A oposição ao Presidente recusa ver, fecha os olhos, e não entende, que apesar de mais de 100 mil óbitos na pandemia, apesar da recessão, apesar de toda a ineficácia administrativa e apesar da corrupção da família Bolsonaro, e apesar dos pesares, não ha outro candidato que vencerá o Presidente.  No momento, tudo indica uma forte possibilidade de sua segunda vinda.  Isso se explica pelo fato que a oposição não tem uma narrativa e nem um líder que possa enfrentar o Capitão e vencer.  Ex-Presidente Lula, se for elegível está velho e tem altíssimas taxas de rejeição.  Joao Doria, o governador de São Paulo, não tem apelo popular.  Flavio Dino, o governador de Maranhão, não consegue agregar forcas a sua volta.  Ciro Gomes foi candidato e perdeu para Bolsonaro e de Fernando Haddad.  Haddad, por sua vez, é visto apenas como “poste” do Lula e assim não tem densidade e perderia outra vez como perdeu em 2018.

Na falta de ideias, há um abuso no uso de termos como fascismo e genocídio na procura de um apelo emocional contra o presidente mas o mau uso dos vocábulos apenas acaba demonstrando a falta de ideias e projetos.   Este apelo acaba sendo partidário e sem ampla receptividade já que as pessoas não participam dos partidos e a acusação vaga não tem respaldo da população.   Bolsonaro vem de uma formação militar e encampa o discurso de autoridade e moralismo familiar.  Sua pose reflete melhor a experiência do dia a dia das pessoas e sua popularidade tem base num conservadorismo e autoritarismo existente não só entre seus acólitos mas dentro da sociedade.  O Presidente não tem o dom da palavra, usa grosseiras mas não é fascista e certamente não tem controle totalitário e pessoal como Mussolini tinha.  De fato, embora tem um pouco de discurso nacionalista, o Presidente nem chega a fazer parte Integralismo histórico, digamos, do Plinio Salgado.

Nazistas, Fascistas e genocidas tipo Hitler ou Mussolini tinham projetos e partidos e controle quase total do Estado para por em prática seus objetivos.  Todo o poder do Estado estava disponível para prender e massacrar os inimigos ou a parte da sociedade nacional indesejada.  A não ser as milícias localizadas e a longa tradição de arbitrariedade do aparato policial, obviamente não tem nada parecido no Brasil.  Bolsonaro não tem nem o poder dos generais durante o período militar.  Ao contrário da ditadura, ele não tem meios de caçar, prender e matar quem ele quer.  Enfim, Bolsonaro não tem o poder que gostaria de ter e as instituições, embora precárias, ainda freiam as tendências autoritárias do Presidente.

Assim as tentativas do impedimento do Presidente existem embora não prosperam.  Agora com sua aproximação ao Centrão, a distribuição do Coronavoucher e a consistência de sua mensagem de reativação da economia, a realidade de um impeachment torna cada vez mais improvável.  A popularidade do Presidente cresce na medida que ele retorna para a velha política e pelo fato que abraça casos que são do interesse dos Congressistas e os lobbies que os apoiam.  As bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e do Centram, ou seja, os antigos apoiadores do Temer que também evitou o impeachment depois dos escândalos da mala e da JBS através da troca de benesses.

No Brasil e mundo a fora, a popularidade varia.  As subidas e descidas acontecem com uma certa rapidez e com a influência de todo tipo de fatores.  Bolsonaro agora está popularizando entre as pessoas, principalmente no eleitorado do Nordeste, ou seja, exatamente onde era o maior reduto do PT em 2018.  Parece que seu crescimento se deve as transferências de 600 reais mensais, a inauguração de obras, bem como pelo crescimento do conservadorismo evangélico.  Entretanto, paira a pergunta: O que vai acontecer quando acabam os recursos?  Paulo Guedes, o Ministro da Economia, disse que respeita o teto de gastos e que as medidas emergenciais não podem continuar.  Assim ou estoura o teto e virá uma enxurrada inflacionaria e a provável demissão do Guedes ou o Presidente volta a cair em aprovação que o dinheiro acabou.

A eleição americana também pode entrar no jogo.  Bolsonaro atrelou sua política externa a política americana.  Até agora, o retorno real para o Brasil tem sido parco.  Os EUA ainda põem tarifas nos produtos brasileiros como açúcar e bens manufaturados.  O apoio “prometido” para a entrada no grupo de nações desenvolvidas (OECD) ainda não materializou.  Os filhos do Bolsonaro e outros dos seus partidários apoiam Trump abertamente mas ele corre sério risco de ser derrotado pelo Biden.  Biden, por sua vez, cobrara do Brasil seus compromissos com no Acordo de Paris (clima) e portanto mais consistência na preservação da floresta amazônica.  Se uma eventual pressão americana poderá ter um impacto negativo para a reeleição de Bolsonaro é difícil prever.   A popularidade do Brasil no estrangeiro não entra na cabeça do eleitor na hora de votar.  Quando Jimmy Carter veio a substituir os Republicanos em 1976, ele começou uma política de direitos humanos que o Presidente Geisel viu como uma interferência indevida e tomou ojeriza ao Presidente Americano.  Os norte-americanos podem sempre ser vistos como intervencionistas e interesseiros.

Se a economia não mostrar sinais de recuperação e se a inflação voltar com algo com um novo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) e se a miséria continuar aumentando como agora, pode ser que o Presidente tenha dificuldades.  Mas para ganhar, a oposição precisa de novas ideias e ações.  Em 2002, Presidente Lula encontrou durante um certo período a fórmula magica de sossegar o empresariado nacional e multinacional com o afastamento de ideias anticapitalistas e intervencionistas.  Lula na época tinha o charme de “paz e amor” além de seu carisma.  Ele também continuou e aumentou os programas de transferência de renda além de prometer (sem realizar) melhorias em educação e infraestrutura básica.  A queda dos preços das commodities, a corrupção e bitola ideológica estreita promovido pelo Jose Dirceu e companheiros jogo tudo água abaixo com o Mensalão e depois todos os demais escândalos que correram fora de controle.  A fórmula existe mas agora o problema é arrancar a receita das mãos do Bolsonaro e achar quem tem a substância para substitui-lo renovando a crença na possibilidade de um Brasil inteligente, convivial e aberto.

Se não encontrar, o caminho está aberto para a segunda vinda do Jair Messias e com isso, a continuidade do negacionismo na saúde e ciência, do moralismo fajuto, do aumento de ataques a minorias raciais e sexuais, da rejeição das artes, do comodismo com as milícias, da aceitação disfarçada da destruição ambiental, além da continuidade de ataques a imprensa e as instituições que são fundamentais para a construção e manutenção da democracia.