Sonho e Ilusão: Brasil

Reuters: Sonhos de Democracia, Brasil 2013

“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval.  São estas as duas fontes de sonhos” Carlos Drummond de Andrade.

Os sonhos são ilusões mas dizem que são enraizadas na realidade.  As vezes os sonhos encantam, são românticos, eróticos ou apenas sentimentais.  Às vezes, vem os pesadelos e acordamos assustados, ansiosos ate descobrirmos que não é realidade.

Assim é o Brasil.  Sabemos que o país tem suas belezas, tem um charme real e permanente, tem as pessoas bonitas, as crianças e tradicionalmente a alegria e a esperança que são características básicas dos Brasileiros.  Uma realidade que não é sempre palpável assim como no sonho.

As festas de Iemanjá no Ano Novo são um exemplo.  A multidão se veste de branco e passa a noite nas praias para honrar os Orixás ou ao menos a beleza do espetáculo.  Um sonho que termina ao amanhecer do primeiro dia do ano com toneladas de lixo no mar, na praia e em toda parte.  Ah … ilusão.

E logo depois, ainda no início do ano, em fevereiro, tem Carnaval.  Os enredos das escolas de samba do Rio e São Paulo demonstram a exuberância da cultura e os sonhos de riqueza, igualdade e fim da discriminação.   Assim o Brasil tem sua fama de promover como um sonho e, com alegria, a maior festa do mundo.  O carnaval se estende pelo país inteiro.  E depois do Carna…vem a ilusão.

Durante os 40 dias apos o carnaval, entramos na Quaresma, que inspirada no periodo de provacao em que Jesus passou no deserto a pao e agua. e ao exemplo Dele, pagamos penitencia pelos pecados e excessos praticados durante o carnaval,  culminando com a Semana Santa, que é a celebração mais importante do Cristianismo . Semana Santa termina com a paixao de Cristo na sexta-feira-da-paixao, Sabado de Aleluia, que é celebrado com mais festas carnavalescas e finalmente a Pascoa, com muito chocolate para celebrar Jesus ressuscitado.  E Para quem pode, folgar mais uns dias longe da rotina e realidade do trabalho.  Para quem não pode, a vida continua que nem a procissão de fiéis seguindo as promessas dos santos e santas.  So entao, la pelos meados de abril, terminadas as procissões e confissões, o ano começa de fato ou na ilusão.

E por aí vai, com comemorações que prometem alívio e ajudam a manter a passageira esperança.  O americano Henry David Thoreau, escreveu no século 19 que as pessoas vivem quietas em seu desespero.  O brasileiro é diferente e, ao contrário do americano, vive ativamente buscando a esperança.  E como o povo é mais pobre e carente, agarra-se a qualquer palha ou palhaço, nem que seja Tiririca.

Os brasileiros são extremamente sensíveis e conscientes de poder e limites de aproximação e distanciamento social.  Ha a ideia, o sonho ou talvez a ilusão de que a vida nos EUA ou na Europa seja melhor e ofereça mais oportunidades.  Assim os brasileiros são normalmente agradáveis com estrangeiros por vezes mais por interesse próprio do que por altruísmo.  Afinal os gringos supostamente têm mais recursos.  Então é muito comum o namoro entre um estrangeiro e uma brasileira.  Isso porque a assimetria de poder e a atração favorece o masculino e ainda mais o estrangeiro.  A relação entre um homem brasileiro e uma mulher estrangeira por sua vez, embora possível, acontece relativamente pouco já que a mulher americana ou europeia enxerga o brasileiro, como vítima de machismo, menos poderoso e, portanto, com menos potencial.  Naturalmente ha muitas exceções.  A questão aqui é que existe atração, afeto, e ilusão mas tudo temperado pela percepção e também pela posição dentro da estratificação social.  Pode-se contestar o exemplo acima, mas refletindo honestamente, acaba-se por confirmar.  O brasileiro sonha que é machão mas sabe no seu íntimo que está iludido.

No Brasil a ilusão precede, seguida da desilusão.  Tomando o exemplo acima, o número de divórcios e desacertos entre casais de pátrias diferentes sempre é maior do que entre homens e mulheres do mesmo país.  Da mesma forma, a ilusão do carnaval antecede a desilusão do pileque.

Os sonhos, sejam de carnaval, de amor, de paz, de democracia, ou de desenvolvimento são possíveis mas também ilusórios.  O casamento da brasileira com o gringo acaba em família separada e as vezes lutas notórias para a guarda das crianças em países diferentes e a divisão de bens. 

A democracia existe na narrativa.  O presidente promete e diz que respeita a Constituição, mas quem o abona?  Algumas pessoas enfermas com o Covid buscam desesperadamente soluções, sem saber se tem so uma gripezinha ou se terao que lutar desesperados pela vida, entubados numa clínica particular ou hospital publico, sonhando com um tratamento eficiente.

Os sonhos são nossas narrativas, nossos contos, nossas estórias.  Quando apenas sonhados, eles permanecem em nosso inconsciente mas quando verbalizados, eles vêm para o consciente e se tornam reais, desemborcando na ilusão.  Assim, ficamos receosos de confessar o amor por medo, ou ficamos em casa em vez de sair para a participação e construção, já que antecipamos nossa desilusão e achando que o esforço não vai resultar em nada.

Sonhar é muito bom, desde que lembremos da ilusão como a contrapartida, nos preparando para lidar com o nosso dia a dia da dura realidade.  Falta amor, falta dinheiro, falta oportunidade, falta igualdade, falta democracia enfim as vezes parece que falta tudo menos a ilusão.

As eleições municipais talvez não tenham os candidatos de nossos sonhos mas ainda representam um exercício e uma prática construtiva real.  Votar é preciso.  Mas com certeza, grande parte das pessoas vai ficar ou já esta desiludida.

Paulo Guedes, Ministro da Economia, vive sonhando com um projeto “liberal” que implica na redução do escopo do Estado na economia.  Entretanto, não sai resultado.  Ao contrário, praticamente não ha mudanças ou se ha, não se sente efeito prático.  E tudo uma ilusão.  Embora o tal “mercado” (Av. Faria Lima) quer acreditar, até cair repentinamente na desilusão.

O Presidente, talvez com o marketing, virou mito mas está longe de realizar sua promessa de acabar com a corrupção e a violência.   Para governar ele está recorrendo ao modelo antigo de toma-la e da-cá com o Centrão e o apoio dos políticos da velha guarda.  Enquanto isso, as pessoas vivem com medo e as polícias matam com impunidade.  E o dinheiro continua circulando nas cuecas da classe política.

O Covid no Brasil está ceifando dezenas de milhares de vidas e as pessoas sonham com a imunidade ou vacina.  Ate agora nem um e nem outro.

Podemos concluir que sonhar faz parte de um processo de compreensão e interpretação.

Ter esperança é preciso e ter o sonho também.  O ícone da cultura musical, Tim Maia, nos ensinou que temos que ter motivo para viver e sonhar, e ter “um sonho todo azul, azul da cor do mar.”

E aí vai, mas prepare-se.

https://www.letras.mus.br/tim-maia/48917/

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