2020 – Dificuldades e Desafios – Revendo Minhas Previsões

Todo ano escrevo um blog que nada mais é um exercício em futurologia. Procuro fazer projeções baseadas em longos anos de experiência, observações de pessoas e instituições respeitadas e usando algo de bom senso. Mesmo assim quando releio depois de um ano vejo, não sem surpresa, que acabei talvez mais palpitando do que prevendo. Tudo bem.

Vamos lá.  Em 14 de janeiro deste ano, publiquei “Previsões para 2020”.  Aqui vai o link:

https://allabroadconsulting.wordpress.com/2020/01/14/2020-previsoes-para-um-brasil-cheio-de-desafios/

Falta ainda um dia para terminar o ano, mas ainda assim podemos avaliar os acertos, os erros e as surpresas.

Surpresas

Claro que a grande surpresa foi o alastramento da COVID19.  Hoje sabemos que o contagio já estava presente na China no final de 2019 mas a pandemia só ganhou corpo e efeito avassalador em 2020.  Olhando para trás, talvez não deveríamos sentir surpresa.  Afinal as pragas, os contágios, os vírus, e as doenças são coisas perenes.  Antes de Covid, o mundo sentiu o impacto, de Mers, SARS, H1N1, influenza de Hong Kong, de suínos, e há 100 anos, a chamada “Gripe Espanhola”.  Mas a grande surpresa em 2020, foi o alcance mundial, o numero de casos e o alto grau de contagio e morbidade.  Mais impressionante ainda, foi o impacto nos EUA que lidera o mundo no numero de morte e casos e com o Brasil logo em seguida.  Os EUA como o pais mais rico e com mais recursos não esperava pagar um preço tão alto.  O Brasil, por sua vez, tem experiência com epidemias e portanto tinha um bom sistema de saúde publica que no passado foi exemplar no controle de doenças contagiosas causadas por viroses.  Basta observar que o Brasil foi exemplar no controle de AIDS, em outros surtos e na rápida identificação e controle de Zica em 2016.  Agora quase que repentinamente o Brasil torna um campeão de perversidade no trato de uma doença que ceifou mais 200 mil pessoas (numero que ainda cresce) e com um numero incerto de milhões de infectados.  Além disso, enquanto outros países aproveitam e tem acesso as vacinas, o Brasil patina sem plano com um custo adicional de doentes e mortos.

Erros meus, Econômicos e Outros

Enfim, não previ COVID19 e foi um erro que levou também a errar outras previsões.  Na economia, previ um crescimento fraco de menos de 2% e agora em 2020 o pais não cresceu nada e encolheu algo em torno de 5%.  O Brasil já não consta nos 10 maiores economias mundiais e regrediu para a 12ª posição.  Previ uma inflação em torno de 5% com tendência de crescimento caso que a economia ganhasse corpo.  Bem a inflação segundo o boletim Focus do Banco Central anda em 4.39% ao ano com base em a penúltima semana de dezembro.

Como a economia encolheu, o desemprego e subemprego aumentaram.  Com minha previsão em torno de 11 a 12% que já é muito elevado, errei já que a crise impactou principalmente  comercio e serviços e depois indústria e assim o desemprego oficial foi para 14.6%  em novembro segundo o IBGE.  Aqui estamos com um problema grave que foi apenas parcialmente contornado pelo programa emergencial de pagamento de 600 reais mensais.  Este dinheiro já acabou e como o governo vai enfrentar a falta de recursos para consumo e investimento daqui para a frente é uma grande incógnita.

Juros.  Como avaliei que a economia podia crescer modicamente, esperava que os juros também iriam subir acompanhando a demanda de investimento.  Como caiu tudo, os juros também caíram para 2% em termos de SELIC.  Entretanto, acertei que o spread é grande e os juros para empréstimos de longo prazo estão se elevando.  Quando o empresário ou individuo for comprar uma casa, vai pagar juros de 7 a 9% ao ano, com possíveis ajustes.  Juros para compra de um automóvel estão acima de 10% e juros de cartão de credito estão acima de 180% ao ano.  A diferença entre a taxa Selic e o mercado revela um pais com uma crise de credito e confiança.

Investimento Estrangeiro.  Com mais baixas do que altas ao longo dos últimos dez anos, o investimento estrangeiro no Brasil ficou estavel na faixa anual de 65 a 75 bilhões de dólares por ano.  Isso porque o Brasil tem um mercado interno grande e que deve crescer nem que seja com o crescimento da população e pelo fato que as grande empresas multinacionais já instalados tem que  continuar e eventualmente ampliar suas atividades.  Ate agora o mercado de investimento tem tido um certo isolamento e independência.  O ano 2020 foi bem diferente.  Ate novembro, o Brasil recebeu apenas um liquido de 36 bilhões (dado do Banco Central para novembro 2020).  A diminuição do FDI (Foreign Direct Investment) representa mais um erro de previsão mas mais preocupante é também a saída de investimento estrangeiros da bolsa de valores.  Houve uma saída liquida da bolsa de US$ 19 bilhões.  Mais uma vez, pode se culpar a recessão mundial provocada pela Covid mas o Brasil parece que já não é um lugar querido para o investidor e aqui parte da explicação se deve ao fato que o governo não esta oferecendo um quadro de estabilidade e atração seja no trato diplomático, seja diante do desafio da pandemia ou na forma que o Brasil enfrenta o problema dos incêndios e a crise ambiental mundial.  Para crescer precisa-se de investimento e minguam os recursos externos e não ha fontes internas, a economia terá imensas dificuldades.  Enfim, confesso que errei mas pelos dados negativos de óbitos, encolhimento, destruição e rejeição o governo esta errando mais.

Acertos nas Previsões Politicas, Sociais e Outras

Vale observar alguns acertos.  Previ corretamente que basicamente nada seria privatizada e com isso o Secretario Executivo, Salim Mattar pediu exoneração demonstrando certa frustração.  Também coloquei a saída do Ministro Sergio Moro e observei que sua saída seria em função de um projeto politico pessoal.  Entretanto, achava Moro iria se posicionar para ser candidato a Presidente mas em vez disso, ele foi fritado e feito torresmo pelo Presidente e saiu para ser advogado administrador de uma empresa americana com projeção secundaria.  Cantei também a saída do Weintraub do Ministério de Educação.  Paulo Guedes, embora enfraquecido continua, como também Tereza Cristina e Ministro Tarciso de Infraestrutura.  Acertei parcialmente nas saídas de Rodrigo Maia da Presidência da Câmara e do Davi Alcolumbre da Presidência do Senado.  No caso dos dois, achava que pelo menos iria continuar mas o STF matou a possibilidade e o espaço de manobra dos dois.

Um Bom Erro – Trump

Em janeiro de 2020, o mundo era outro.  A economia americana, a bolsa de valores, o nível de emprego e praticamente todos os indicadores tradicionais eram favoráveis a postura nacional populista do Trump.  Covid acabou com a festa e revelou nitidamente o fraco desempenho da politica pessoal e da competência administrativa do governo instalado em Washington.  `A Biden falta carisma mas tem experiência e parece que tem um plano real de combate a pandemia.  Com isso, ele derrotou Trump com ampla margem.  Comentei que uma derrota eventual de Trump terá consequências negativas para reeleição de Bolsonaro em 2022.  Vale observar já que o Bolsonaro insiste em alguns dos erros que derrubaram Trump.

Finalmente, o ano de 2020 foi terrível e não é preciso repisar todas as desgraças individuais e coletivas.  Resta tomar consciência, conseguir uma vacina que funciona e continuar buscando meios de enfrentar os desafios: 1) manter a democracia; 2) diminuir as desigualdades; e 3) crescer e desenvolver.  Foram muitos anos e décadas perdidas mas ainda assim o pais pode se superar; talvez. 

A ver e Feliz 2021.

Rio de Janeiro: Como Chegamos Aqui?, Julia Michael, 1ª Edição; Rio de Janeiro. Editora Raiz, 2020.

Uma Resenha:

Rio de Janeiro: Como Chegamos Aqui? é o livro mais recente de Julia Michaels.  Em 2015, fiz uma resenha de seu livro Solteira no Rio: As Aventuras de uma Gringa Cinquentona que relata suas peripécias de mulher divorciada se conhecendo e conhecendo mais a fundo o Rio principalmente através de paqueras, encontros, casos e imersão na cultura popular.  Aqui estah o link para meus comentários: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2015/11/09/expats-and-love-for-brazil-4-books/

Junto com o livro da Julia, também comentei mais 3 livros de expatriados tentando entender seu amor pela cidade e também de se entender dentro do contexto da “Cidade Maravilhosa”.

“Como Chegamos…” representa a continuidade da busca de compreender o Rio, o Brasil e por extensão a própria vida de uma mulher jornalista, ativista, engajada, mãe, moradora de Ipanema e companheira de Strudel, um cao dachshund que ficou bem conhecido na Praça da Paz.

Embora tenhamos uma vida inteira no Rio ou no Brasil, nossa visão e interpretação sempre falha e peca pela falta de um dado, por uma visão miopica, ou as vezes, simplesmente, pela complexidade do tópico.  O Rio é uma cidade de 14 milhões de habitantes e com uma história de 500 anos que ainda não foi contada em toda sua riqueza.  Julia inicia seu relato citando Chuck Palahniuk: “O que chamamos de caos é somente padrões que não reconhecemos.  O que chamamos de aleatoriedade é apenas padrões que não conseguimos decifrar.”  Julia reconhece que ha uma logica mas que muitas vezes a razão foge de nossa compreensão e da ordem esperada ou antecipada. Apenas captamos uma parte.  Assim é o Rio e assim também é o livro. 

Ainda no governo do Lula, Julia começa a conhecer a cidade para além de Ipanema e Zona Sul.  Antes de divorciar, Julia tinha uma vida bem burguesa andando pela cidade com chofer e carro blindado.  Agora independente, ela resolve sair atrás da realidade do Rio e começa um blog chamado RioReal.  Neste período, o Brasil experimentava o boom das commodities, a popularidade do presidente Lula, a ideia que o Brasil podia tudo, inclusive com o aproveitamento do pre-sal e os recursos que certamente viriam com as massivas descobertas de petróleo.  Enfim, como é típico no Brasil havia uma onda de otimismo e euforia com as potencialidades e a esperada decolagem do Brasil.  Era a época onde o Brasil se destacava na revista The Economist com a imagem do Cristo decolando com a potencia de um foguete.

Obviamente, as coisas mudaram e aí vem a pergunta do subtítulo:  “Como Chegamos Aqui?”

A pergunta reflete a decepção do carioca e por extensão do brasileiro.  Como e que o Rio, com tanta beleza, com tantos recursos, tanta competência humana e tantas manifestações culturais acaba na desgraça e decepção?  Entre os capítulos de “Como Chegamos…”, talvez os mais importantes para entender são: “Políticos e Política, “Paraiso de Promessas Furadas” e “Segurança Publica: A Chave de Tudo”. 

Com muitos recursos (inclusive os prometidos), com enorme população, e muitos problemas, as responsabilidades são imensas.  No Brasil, e no Rio em particular, como antiga capital da república e histórica sede do império, a expectativa da população é de que as soluções vêm de cima.  Formalmente democrático, o voto (que e obrigatorio) mais comum nas eleições é nulo ou em branco.  Os políticos são vistos como poderosos mas geralmente distantes.  Formados numa sociedade patrimonial, ha a necessidade de um contato direto, um intermediador.  Ha cem anos atrás, este sistema de acomodação e ajeitamento de interesses poderia funcionar, mas hoje a complexidade e tamanho da população acaba com a funcionalidade do arranjo pessoal e patrimonial.

Assim as instituições políticas não funcionam, são constantemente corrompidas, as desigualdades permanecem e são agravadas e então as promessas são furadas.  Quando o Brasil foi escolhido para sede da Copa do Mundo de futebol e Rio foi escolhido para o local das Olimpíadas e havia as promessas do Brasil grande e que cidades como São Paulo e Rio seriam “World Cities”.   Com o novo status, a mobilidade urbana (outro capítulo importante no livro), o crescimento econômico através de investimentos em turismo, infraestrutura, a limpeza da Bahia e no saneamento básico (outro capítulo) e a solução dos problemas de segurança publica foram “vendidas” e de certa forma “compradas” pela população.  Em 2010, mesmo com a grave recessão mundial de 2008, o Brasil projetava, com Lula como principal porta-voz, grande otimismo.

Infelizmente como aponta Julia, as promessas não prosperam e já em 2013 começaram grandes protestos de rua e as revelações de corrupção, principalmente na Petrobras e os nefastos arranjos entre políticos, empresários e partidos ficaram cada vez mais óbvios e impossíveis de aceitar.  No contexto, o Brasil levou a surra de 7 x 1 perante a Alemanha e foi eliminado da Copa.  Os empreiteiros não conseguiram terminar as obras de infraestrutura como a limpeza da Bahia.

Agora em 2020, fazem exatamente 10 anos do início da tentativa de pacificação das favelas através de policiamento comunitário, os famoso UPPs.  A ideia era que a polícia seria da comunidade para servir a comunidade.  Obviamente isso não aconteceu e os UPPs estão fechados e todo santo dia do ano a polícia mata, em média, 5 pessoas por dia so na cidade do Rio de Janeiro.

Enfim, o Rio continua sendo aquela dama balzaquiana.  Bonita e atraente de longe, mas vendo de perto, as rugas e fissuras aparecem e a coisa fica feia.  A vida humana não custa nada, as pessoas morrem nas ruas, colapsam sem cerimonia nas padarias, os hospitais são locais para morrer.  Por outro lado, com pandemia e tudo, as praias estão cheias (mesmo com arrastões e assaltinhos).  Ha pessoas como a Julia ainda apaixonadas e engajadas.  A sociedade civil movimenta, organiza e reage aos poucos.  Julia mostra este lado e lembra que ainda ha chance de melhorar o Rio (embora ela esteja em New York, temporariamente).  Quando ela chegou no Rio, sentiu a falta de um guia e agora, depois de mais de duas décadas e de dois livros, ela se habilitou para ser uma orientadora apaixonada mas equilibrada da cena carioca.

Em tempo, vale ainda notar que, como um tipo de post-scriptum, Julia oferece uma boa cronologia de eventos de 1991 a 2018 e também ao longo do livro lista um grande numero de personagens que ganharam punições significantes como o ex-governador Sergio Cabral e quem milagrosamente escapou de sanções como ex-prefeito Eduardo Paes, que acaba de ser eleito para guiar o município outra vez.  Logo, muda tudo e não muda nada!