Rio de Janeiro: Como Chegamos Aqui?, Julia Michael, 1ª Edição; Rio de Janeiro. Editora Raiz, 2020.

Uma Resenha:

Rio de Janeiro: Como Chegamos Aqui? é o livro mais recente de Julia Michaels.  Em 2015, fiz uma resenha de seu livro Solteira no Rio: As Aventuras de uma Gringa Cinquentona que relata suas peripécias de mulher divorciada se conhecendo e conhecendo mais a fundo o Rio principalmente através de paqueras, encontros, casos e imersão na cultura popular.  Aqui estah o link para meus comentários: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2015/11/09/expats-and-love-for-brazil-4-books/

Junto com o livro da Julia, também comentei mais 3 livros de expatriados tentando entender seu amor pela cidade e também de se entender dentro do contexto da “Cidade Maravilhosa”.

“Como Chegamos…” representa a continuidade da busca de compreender o Rio, o Brasil e por extensão a própria vida de uma mulher jornalista, ativista, engajada, mãe, moradora de Ipanema e companheira de Strudel, um cao dachshund que ficou bem conhecido na Praça da Paz.

Embora tenhamos uma vida inteira no Rio ou no Brasil, nossa visão e interpretação sempre falha e peca pela falta de um dado, por uma visão miopica, ou as vezes, simplesmente, pela complexidade do tópico.  O Rio é uma cidade de 14 milhões de habitantes e com uma história de 500 anos que ainda não foi contada em toda sua riqueza.  Julia inicia seu relato citando Chuck Palahniuk: “O que chamamos de caos é somente padrões que não reconhecemos.  O que chamamos de aleatoriedade é apenas padrões que não conseguimos decifrar.”  Julia reconhece que ha uma logica mas que muitas vezes a razão foge de nossa compreensão e da ordem esperada ou antecipada. Apenas captamos uma parte.  Assim é o Rio e assim também é o livro. 

Ainda no governo do Lula, Julia começa a conhecer a cidade para além de Ipanema e Zona Sul.  Antes de divorciar, Julia tinha uma vida bem burguesa andando pela cidade com chofer e carro blindado.  Agora independente, ela resolve sair atrás da realidade do Rio e começa um blog chamado RioReal.  Neste período, o Brasil experimentava o boom das commodities, a popularidade do presidente Lula, a ideia que o Brasil podia tudo, inclusive com o aproveitamento do pre-sal e os recursos que certamente viriam com as massivas descobertas de petróleo.  Enfim, como é típico no Brasil havia uma onda de otimismo e euforia com as potencialidades e a esperada decolagem do Brasil.  Era a época onde o Brasil se destacava na revista The Economist com a imagem do Cristo decolando com a potencia de um foguete.

Obviamente, as coisas mudaram e aí vem a pergunta do subtítulo:  “Como Chegamos Aqui?”

A pergunta reflete a decepção do carioca e por extensão do brasileiro.  Como e que o Rio, com tanta beleza, com tantos recursos, tanta competência humana e tantas manifestações culturais acaba na desgraça e decepção?  Entre os capítulos de “Como Chegamos…”, talvez os mais importantes para entender são: “Políticos e Política, “Paraiso de Promessas Furadas” e “Segurança Publica: A Chave de Tudo”. 

Com muitos recursos (inclusive os prometidos), com enorme população, e muitos problemas, as responsabilidades são imensas.  No Brasil, e no Rio em particular, como antiga capital da república e histórica sede do império, a expectativa da população é de que as soluções vêm de cima.  Formalmente democrático, o voto (que e obrigatorio) mais comum nas eleições é nulo ou em branco.  Os políticos são vistos como poderosos mas geralmente distantes.  Formados numa sociedade patrimonial, ha a necessidade de um contato direto, um intermediador.  Ha cem anos atrás, este sistema de acomodação e ajeitamento de interesses poderia funcionar, mas hoje a complexidade e tamanho da população acaba com a funcionalidade do arranjo pessoal e patrimonial.

Assim as instituições políticas não funcionam, são constantemente corrompidas, as desigualdades permanecem e são agravadas e então as promessas são furadas.  Quando o Brasil foi escolhido para sede da Copa do Mundo de futebol e Rio foi escolhido para o local das Olimpíadas e havia as promessas do Brasil grande e que cidades como São Paulo e Rio seriam “World Cities”.   Com o novo status, a mobilidade urbana (outro capítulo importante no livro), o crescimento econômico através de investimentos em turismo, infraestrutura, a limpeza da Bahia e no saneamento básico (outro capítulo) e a solução dos problemas de segurança publica foram “vendidas” e de certa forma “compradas” pela população.  Em 2010, mesmo com a grave recessão mundial de 2008, o Brasil projetava, com Lula como principal porta-voz, grande otimismo.

Infelizmente como aponta Julia, as promessas não prosperam e já em 2013 começaram grandes protestos de rua e as revelações de corrupção, principalmente na Petrobras e os nefastos arranjos entre políticos, empresários e partidos ficaram cada vez mais óbvios e impossíveis de aceitar.  No contexto, o Brasil levou a surra de 7 x 1 perante a Alemanha e foi eliminado da Copa.  Os empreiteiros não conseguiram terminar as obras de infraestrutura como a limpeza da Bahia.

Agora em 2020, fazem exatamente 10 anos do início da tentativa de pacificação das favelas através de policiamento comunitário, os famoso UPPs.  A ideia era que a polícia seria da comunidade para servir a comunidade.  Obviamente isso não aconteceu e os UPPs estão fechados e todo santo dia do ano a polícia mata, em média, 5 pessoas por dia so na cidade do Rio de Janeiro.

Enfim, o Rio continua sendo aquela dama balzaquiana.  Bonita e atraente de longe, mas vendo de perto, as rugas e fissuras aparecem e a coisa fica feia.  A vida humana não custa nada, as pessoas morrem nas ruas, colapsam sem cerimonia nas padarias, os hospitais são locais para morrer.  Por outro lado, com pandemia e tudo, as praias estão cheias (mesmo com arrastões e assaltinhos).  Ha pessoas como a Julia ainda apaixonadas e engajadas.  A sociedade civil movimenta, organiza e reage aos poucos.  Julia mostra este lado e lembra que ainda ha chance de melhorar o Rio (embora ela esteja em New York, temporariamente).  Quando ela chegou no Rio, sentiu a falta de um guia e agora, depois de mais de duas décadas e de dois livros, ela se habilitou para ser uma orientadora apaixonada mas equilibrada da cena carioca.

Em tempo, vale ainda notar que, como um tipo de post-scriptum, Julia oferece uma boa cronologia de eventos de 1991 a 2018 e também ao longo do livro lista um grande numero de personagens que ganharam punições significantes como o ex-governador Sergio Cabral e quem milagrosamente escapou de sanções como ex-prefeito Eduardo Paes, que acaba de ser eleito para guiar o município outra vez.  Logo, muda tudo e não muda nada!

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