Visões Liberais Antagonicas e o Problema Continua

Foto de Murilo Aragao de Arko Advice em CNN

A Revista inglesa, The Economist, tem uma tradição secular na promoção do capitalismo liberal baseados nos princípios do livre mercado e o fluxo desimpedido dos fatores de produção.  A revista apoia o comércio internacional e as trocas entre países dentro dos pressupostos na competividade, especialização e competência.  Também, como correlação, apoia a democracia com eleições abertas, livre imprensa e transições de poder pacíficas e institucionalizadas. 

A revista tem ampla influência internacional e sempre prestou uma atenção especial no Brasil, considerando-o líder da América Latina.  Nos últimos anos, numerosas reportagens especiais e capas foram dedicadas ao país.  Embora goze de prestígio, a revista tem um pouco de fama de pé frio, algo assim como o Mick Jagger.  Em 2009, a capa da revista com o Cristo Redentor, no Rio, decolando como foguete, refletia o otimismo do Pre-Sal, a Copa Mundial e as Olimpíadas.  Quatro anos depois, em 2013, assistimos o mesmo foguete descendo sem controle. A ex-presidente Dilma Rousseff e o atual Jair Bolsonaro, também mereceram capas e análises.  Há duas semanas, antevendo um pouco a marca trágica de 500 mil vidas ceifadas pelo Covid19, o Brasil aparece novamente agora como paciente entubado e a beira do colapso.

Enfim, as reportagens refletem o ambiente e reproduzem, nem sempre de forma original, o que se passa na grande mídia.  Mas é claro que o Brasil não respondeu de forma competente à pandemia e Presidente Bolsonaro tem que ser responsabilizado pela maneira leviana com que tratou a pandemia.

Internacionalmente e dentro do país há um negativismo e pessimismo relevantes.  Mas isso não é novidade.  Internamente o Brasil oscila ao longo da história entre o excesso de otimismo carnavalesco ou a ressaca pós-carnaval.  A consequência é a depressão que bate forte diante da falta de alternativas para sair da crise imediata ou, talvez, dos problemas perenes.

Com a divisão, o Presidente conta com o apoio de um núcleo duro de mais ou menos 25% da população.  No outro lado, a esquerda, representada principalmente por Lula e o PT tem outros 25%.  Entre os dois lados, a turma do Bolsonaro, embora mais raivosa, parece mais otimista e animada com o “mito”.  Com certeza, Lula da “paz e amor” de 2002, ainda não decolou em 2021-22.

Na mesma época da reportagem da Economist, o empresário e analista político Murilo de Aragão foi entrevistado na Brazilian-American Chamber of Commerce de New York.  Murilo de Aragão é fundador da Arko Consultoria e ele junto com seus filhos e Cristiano Noronha atendem um amplo leque de investidores estrangeiros e nacionais.  A empresa pesquisa sempre as tendências no Congresso e tem certa intimidade nos Ministérios e acompanha os programas de investimento e os incentivos ou empecilhos que afetam o mercado entre os dois países.  A Arko atende às elites empresariais nacional e internacional e certamente não contesta os fundamentos do capitalismo brasileiro.  Nesse aspecto, a empresa de Aragão e The Economist são semelhantes, mas guardam distinções.  Murilo de Aragão contestou parcialmente a reportagem citando, por exemplo, que na sua percepção (e que talvez reflita o “andar de cima”) o governo Bolsonaro não é reconhecido pelos seguintes sinais positivos, abaixo alinhados:

As reformas: 1) trabalhista; 2) da previdência; 3) marco de saneamento básico; 4) autonomia do BC; 5) setor público.  Além das reformas, Aragão lembra do incremento na arrecadação de impostos, o combate à corrupção, o crescimento econômico para além das expectativas, a boa administração das exportações agrícolas, e mais de 250 bilhões arrecadas com as concessões na área de infraestrutura, principalmente rodovias, ferrovias e aeroportos.  Salienta ainda   avanços no setor óleo e gás e um superávit primário.  Aragão alega que a ideia de uma década perdida, muito usada pela oposição, está equivocada e que o Brasil de Bolsonaro recupera e representa a alternativa ao capitalismo de “compadrio” do Lula.  Ele admite, entretanto, que o governo Bolsonaro errou com relação ao combate à Covid e está pagando um preço alto.

Outros pontos a favor de Bolsonaro que agradam os clientes da Arko são: 1) manutenção e crescimento das reservas internacionais; 2) o crescimento da bolsa de valores apesar da Pandemia; 3) o dinamismo da agroindústria e o crescimento da safra que faz do Brasil um grande exportador de grãos, principalmente soja para China, além de celulose; 4) o Brasil continua como grande fornecedor de minérios e está aproveitando do novo boom de commodities.

Enquanto, The Economist conclui que a prioridade é ”vote him out” (traduzido maliciosamente pelo governo como “eliminar”), Murilo Aragão enfatiza a resiliência de Bolsonaro, a relevância de sua equipe militar, seu apelo popular através do conservadorismo social, o apoio dos evangélicos, e ainda a manutenção de Paulo Guedes apesar de suas derrotas ainda representa a promessa de favorecimento direto do mercado.

A campanha eleitoral já começou e embora uma parcela significativa da população sonhe com uma terceira via, ou seja, a alternativa de centro, não existe um nome de peso que consiga mobilizar o eleitorado.  Lula poderá voltar nos braços do povo, como Getúlio em 1950, mas a idade avançada e as divisões sectárias interferem.  A esquerda de forma geral acaba sendo enganada por seu próprio discurso e sua distância real do povo que vota.  Bolsonaro tem o controle da máquina publica, tem o talão de cheques e a capacidade de dar as migalhas necessárias aos políticos no Congresso.  Claro que enfrenta oposição, mas com um regime federativo de 27 estados e 5567 municípios com interesses muito específicos, quem detém o poder ainda tem grande vantagem.

Bolsonaro é uma genocida, não tem fluência verbal sendo constantemente grosseiro.  Ele e sua família não valorizam liberdades individuais e desprezam todo tipo de minoria.  Ainda assim corre o risco de ser reeleito e não só eleito, mas ainda com a possiblidade fazer uma dinastia familiar com seus filhos.  O quadro não atrai, mas infelizmente não é fora da realidade.  O Brasil corre o risco de repetir o declínio secular da Argentina e acaba sendo talvez um país de futebol menor com um extrativismo que ao longos dos anos acabará com as riquezas finitas do país.  Mas pelo menos será um país “abençoado” e cheio de moralidade de acordo com os apoiadores do Presidente e dos que não acreditam no liberalismo da The Economist. 

O grande problema, entretanto, não reside nem no modelo liberal e nem na pessoa do Bolsonaro.  Se o Capitão de repente ficasse educado e tolerante ainda não resolveria a situação.  Da mesma forma, se as instituições e o mercado começassem a se comportar de acordo com as receitas liberais, ainda não seria a solução para a crise brasileira.  Só com o tempo, (digamos 100 anos) e uma expansão de educação básica e uma eventual melhoria quase utópica da elite predatória reconhecendo o resto da sociedade, os concidadãos, sem desprezo, aí o país talvez encontre um caminho.  Mas por enquanto vai aos trancos e barrancos, sem avanços reais nem na economia e nem na sociedade como um todo, e menos ainda na política.

Entubado ou não, liberal ou não, continua patinando na maionese.

2 comments on “Visões Liberais Antagonicas e o Problema Continua

  1. Helga Hoffmann says:

    Steve, pois é, tristíssimo. Mas não é fora da realidade. O que você não tocou é que para esse Murilo Aragão não existisse a clara opção ditatorial que Bolsonaro sugere. PROBLEMA TÉCNICO: olha aí que o artigo está vindo dobrado, duas vezes em seguida como um contínuo, sem separação. Abraço grande, hh

    Helga Hoffmann Economista, membro do GACINT-IRI/USP

    Colaborador de revistasera.info

    e-mail: helga-hh@uol.com.br tel 5511 3663 6019

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  2. Helga, obrigado! Uma preocupacao grande eh que nao so o Murilo mas muitas pessoas que com certeza se declaram a favor da democracia tem uma tolerancia muito grande com relacao ao autoritarismo e ditaduras no Brasil. Quando nao tem centro e as alternativas sao de extremos e bem intragaveis, acaba engolindo e talvez gostando dos sapos. Nao eh?!

    Acho corrrigi o problema do texto repetido.

    Abs,

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