Roubos, Fogos, Desperdícios: É a Cultura?

Citacão copiada de Facebook: Conta Bruno Souza

Sabemos que há muitos problemas neste Brasil de 2021 e que as perspectivas para 2022 não animam. O próprio presidente acabou de declarar que nada é tão ruim que não pode piorar. Enfim, basicamente confessa que perdeu o controle. O ex-presidente Fernando Henrique declarou no início do ano que “Líder é quem simboliza um sentimento”. A certa altura digamos na eleição de 2018, Bolsonaro galgando 58 milhões votos captou um sentimento de rejeição da política do Temer, do PT da Dilma e da corrupção que vinha crescendo desde pelo menos a campanha de reeleição do Presidente Cardoso.  Diante das desigualdades e lacunas de todo tipo, certamente há um desejo latente de uma tabua de salvação.  Como já havia a tendência incorporada em Bolsonaro, a facada não mortífera do Adélio consolidou a ideia ridícula do “Mito”.  Sua sobrevida acabou sendo um “milagre” e que só Deus poderia alterar a situação.  Não há STF ou Congresso, nesta ótica, capaz de mudar o curso.

Entretanto, as coisas mudam.  Hoje Bolsonaro ilustra um sentimento de falta de direção, de Norte, de plano e de destino.  Mas não é só Bolsonaro.  O país todo demonstra resignação e aceitação de situações que normalmente são no mínimo irresponsáveis e muitas vezes criminosas.  Confesso que fiquei fora por dois anos, mas pude acompanhar o mal-estar a distância.  O que acontece é uma progressiva patologia cultural.  A resignação e a tendência para o Sebastianismo vêm de longa data da herança colonial de Portugal.  Com a modernização iniciada há 100 anos, com o marco da Semana de Arte Moderna, o Brasil começou a sacudir.  O país formalmente foi se liberando da tradição escravagista, a economia industrializou e urbanizou assim como a população.

Apesar das pesadas transformações estruturais, a cultura de uma compreensão compartilhada de valores e organização hierárquica pouco mudou e inclusive sofre reveses.

Da mesma forma, a economia estagnou nos ultimos 20 anos e regressou para um modelo extrativista dependente do setor rural para seu dinamismo.

O povo quer a salvação.  O Estado é ou deve ser o pai provedor.  Os homens (não as mulheres) estão no comando.  A autoridade deve ser imposta.  Os que tem, tem por direito adquirido. E os que não tem ficam de fora olhando para dentro esperando qualquer migalha.  A classe média e as elites querem seus servidores e embora possam até ajudar o filho ou filha da empregada com a faculdade, ainda não querem abrir mão do servidor domestico.  As desigualdades e a discriminação são funcionais e parte da cultura.  Embora haja iniciativas individuais, não existe um projeto popular para mudar.  Certamente, as tentativas existem mas não atingem uma massa critica que possa transformar a cultura dominante.  Iniciativas individuais são ate apreciadas ou reconhecidas. Alem disso, teria a alternativa da emigração.  E sabemos que entre os jovens, uma grande parcela, talvez a maioria, não vê opções no Brasil.  Só no mês passado foram apanhados na fronteira americana algo em torno de 50 mil brasileiros tentando cruzar de qualquer maneira a fronteira americana.

A enroscada e triste realidade política e econômica que vivemos hoje representa a continua falta uma visão abrangente e mais educada e igualitária para o país.  Indo aos “trancos e barrancos” sem mudanças na política e na economia o país segue ladeira abaixo.

Como mudar?  O mais fácil é emigrar. Porém a alternativa de “escape” não existe para a maioria.  Mudar comportamento individual também pode e muitos estão fazendo esforços e assim participando de movimentos anti-isso ou aquilo.  Nunca houve uma mudança na educação, sempre existindo o favoritismo ao status quo da elite e da classe média alta.  O analfabetismo rola solto até nas universidades.  O imediatismo que vem da herança inflacionaria (que é também renascente) resulta utilização e plena aceitação da filosofia – “se o mingau tá pouco, o meu primeiro”.  Assim as “rachadinhas” são normais e perdoadas e as mortes pela Covid e a grande corrupção também.

Não há empoderamento geral.  Só aceitação, resignação, desprezo e eventual revolta em forma de crimes de todo tipo.

Ha fogos, há roubos, e desperdícios.  As pessoas são jogadas fora e é assim mesmo.

A realidade é dura, mas fazer o que? E assim vai a cultura e o Brasil.  Resta saber até quando.

Fogo no Parque Mangabeiras em BH

2 comments on “Roubos, Fogos, Desperdícios: É a Cultura?

  1. Colltales says:

    Isto é tão deprimente mas é a verdade, Stephen.
    Este desprezo pela vida humana, pelo planeta, pelos anseios de cada ser humano de crescer, aprender e evoluir. No brasa, isto parece ser considerado luxúria. abs

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s