Silos e Cultura

Fonte: JBR Brasil

Acabo de passar um mês no Brasil depois de 2 anos afastado devido aos problemas decorrentes da pandemia.  No país, as coisas mudam mas ainda ficam do mesmo jeito.  Continua o interesse pelo futebol, a saída para pizza e chope, a valorização dos amigos e entre muitos uma saudável alienação do processo politico.  Há resignação de sempre misturado com a frustação de falta de poder para mudar as coisas.  Afinal, para a eleição falta um ano e existem coisas importantes para fazer, por exemplo, levantar e ir ao trabalho para não ficar sem ou simplesmente sair a paquera.

No Brasil, lembrei de um projeto que trabalhei na década de 70.  Chamava Polocentro e a ideia era o desenvolvimento do Centro-Oeste usando técnicas e apoio da EMBRAPA para o tratamento de solo e plantio de soja, milho e outras atividades agrícolas.  Deu no que deu.  Na época, um dos grandes problemas era a falta de infraestrutura de transporte e de armazenagem.  Faltava silos.

Hoje vejo que o problema continua mas o problema de silos hoje é diferente.  Vejo a separação das pessoas em “silos”.  Cada grupo tem o seu.  A grosso fala se de polarização e a separação de extremos políticos tipo Bolsonaro x Lula.  Mas mais importante e menos reconhecido tem os “silos” ou grupos que basicamente são de identidade.  Os grupos funcionam como pontos de inserção e referencia e servem para combater o isolamento e anomia da sociedade moderna.  Os grupos são extremamente informais mas as vezes chegam a um nível de organização maior.   Os militares são talvez os mais organizados e coesos mas ainda assim seu silo ainda tem um nível de informalidade. Outro grupo obvio são de torcedores: Gaviões da Fiel ou Galoloucura que tem ate carteiras mas a maior parte das pessoas participa somente através da identificação sem se associar.  Além do futebol, ha as igrejas e cultos.  Os evangélicos crescem de uma forma impressionante mas as pessoas nem sabem a que igreja pertencem.  Ha também os movimentos de “identidade” tipos LGBT ou grupos de mulheres e ate de homens. Em Minas, anos atrás tinha o MMM, Movimento de Machões Mineiros, que se vestiam de mulheres para carnaval e outros eventos.  Claro também que os negros e as comunidades indígenas também tem seus silos.  E ainda tem a pergunta: quem não tem algo de negro ou dos povos originários, apesar das negativas da cultura predominante? Outro silo relevante pode ser identificado como o “mercado” ou os “FariaLimers”.  Este silo exclusivo agrega as elites que supostamente “controlam” as decisões financeiras e a economia.

Participar significa prestação tempo, disponibilidade, recursos e lealdade a algo tido como importante e mais amplo do que o individuo.  Participando a expectativa seria de atenuação do isolamento.  Os meninos desagregados em comunidades pobres ou não são alvos fáceis de recrutamento para as gangues.  Estes prometem prestigio, meninas, dinheiro e a ideia de poder.  Quem está com pouco, se sente forte com uma arma na mão e a ideia de um grupo de solidariedade e afiliação mesmo que seja na direção de uma atividade criminosa e nociva.

Muitas vezes, escutamos o ditado: “O Brasileiro não é solidário nem no câncer.”   A precária solidariedade das relações patriarcais acabou com o crescimento, a complexidade econômica e a urbanização.  Assim, os indivíduos inseridos no novo modelo econômico e o mercado que atomiza as pessoas acabam soltos e na procura de integração e participação constroem ou encontram seus silos.  Os silos servem uma função mas na separação e na falta interação não são suficientes para definir e manter algo maior.  Assim a cultura brasileira e a noção do Brasil começam um declínio ou ao menos uma transformação.  Quem hoje pode definir o que seria a aspiração e o destino do país?

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