Nao Precisava!

Será que é possível fugir do destino?  Tragédias acontecem e muitos dizem que são fatalidades e impossíveis de evitar.  Um país, um povo, uma família, um individuo pode fugir e alterar o seu futuro? Pode-se evitar algo que está previsto ou fadado?

Olhando a destruição de Petrópolis, chegam as indagações.  Mas por que questionar e debater se os desastres são sequenciais, acontecendo com frequência? Será que são nada mais que manchetes do dia sem ação consequente?  Uma reportagem demonstra que segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas quase 4 mil pessoas foram mortas em deslizamentos de terra no Brasil nos últimos anos.  Aqui esta o link: https://www.dm.com.br/brasil/2022/02/desde-1988-brasil-soma-quase-4-mil-mortes-em-deslizamentos/#:~:text=Quase%204%20mil%20pessoas%20j%C3%A1%20morreram%20por%20causa,Petr%C3%B3polis%2C%20na%20semana%20passada%2C%20nem%20entram%20nesta%20conta.

Em vez de simplesmente aceitar as tragédias, não seria o caso de pelo menos questionar, com o intuito de remediar ou evitar.  Mas no Brasil, as coisas acontecem e as pessoas processam as perdas sem reclamar ou revoltar.  A logica disso é que não adianta “dar murro em ponta de faca” e assim os sem recursos acomodam, choram suas perdas e por vezes sentem uma revolta interior.   Por outro lado, os com recursos lamentam mas não fazem nada ou simplesmente fecham os olhos.

Veja que além dos deslizamentos causadas pelas chuvas, há os desastres causados diretamente por atividades econômicas.  Os mais notáveis, mas não os únicos, foram as minerações de Mariana e de Brumadinho.  Ambas em Minas Gerais e cada vinculada ao uso de tecnologias de represamento ultrapassadas que resultaram em centenas de morte diretas e milhares indiretas com a devastação quase total do meio ambiente e de vidas ribeirinhas em grandes áreas geográficas.

Pode-se adicionar ainda as mortes pela pandemia.  Já são mais de 600 mil e talvez atingem 700 mil ainda em 2022.  A morbidade poderia ter sido menor se houvesse mais agilidade no reconhecimento da importância da vacinação e mais eficiência na compra e distribuição das vacinas.

Tratando do Brasil, pode-se construir fácil o muro de lamentações.  Nem mencionamos a violência, crime, e agressões diárias que ocorrem.  Nas reportagens e mesmo nos estudos mais analíticos, é comum apontar a responsabilidade do governo ou da administração publica.  Claro que o cidadão deve cobrar dos governantes mas como os eventos dramáticos são recorrentes, temos que questionar o por que?  Por que que o individuo sem nada, sem recursos e sem instrução pode ou deve exigir algo de um prefeito, deputado, governador ou politico ou administrativo qualquer?  A resposta de quem detém as chaves geralmente é bater a porta na cara do pedinte, chamar a policia ou mandar preencher um formulário.  Conclusão: pouco adianta reclamar.

Em termos de extrema simplificação, o problema reside no subdesenvolvimento.  Detalhando um pouco mais, pode-se dizer que é a falta de recursos ou pobreza.  Mas no Brasil, os recursos são abundantes e comparando o Brasil com digamos Coreia do Sul, o Brasil continua subdesenvolvido por opção.  A cultura elitista aceita e promove a ignorância.  A educação de base e a educação para o trabalho sempre ficaram em segundo lugar aos interesses de quem quer empregadas domesticas e mão de obra para lavar o carro.  O “povão” até que quer educação e enxerga a escola e instrução como meio de ascensão.  Entretanto, o acesso é difícil e a qualidade, para quem não pode pagar, não existe. 

De forma semelhante, enquanto existem algumas normas e padrões que organizam as cidades e o espaço urbano, elas não são observadas na vida dos pobres.  Há anos existem estudos que demonstram a precariedade geológica, a intensidade das chuvas e os perigos de deslizamentos.  Entretanto, a cultura de elitismo, desleixo, transferência dos problemas, e a ignorância construída resulta de forma recorrente em tragédias que são aceitas ou descritas como fatalidades.  A verdade é que são criadas e construídas mas plenamente evitáveis.

Toma-se o caso das minerações.  Em Brumadinho e Mariana as grandes companhias Vale, BHP, Samarco e outras agem na extração e venda de ouro, ferro, bauxita, nióbio, diamantes e outros produtos.  Embora propagam que são verdes, sustentáveis e exemplares de segurança, os eventos dramáticos demonstram justamente o contrario.  Como as empresas pagam grande fatia de impostos, sendo contribuintes principais para os cofres públicos, elas têm uma influencia desproporcional e as entidade do povo, do cidadão e de cidadania não tem recursos para concorrer ou contestar.  O rompimento das barragens, os deslizamentos, e grande parte das mazelas refletem um desleixo e falta de interesse, não só das empresas, mas da sociedade.

As desigualdades criadas no mercado, a falta de mobilização politica e de comunidades, a ignorância de como lidar com a burocracia e mais as dificuldades rotineiras de simples sobrevivência impedem que os pobres e os marginalizados conseguem os recursos necessários para melhorar.  A iniciativa individual e até coletiva acaba sendo atolada pelas estruturas de poder.

A mistura de um estado captado por interesses financeiros, agros e industrias, com uma sociedade civil de baixa grau de instrução e preparação e mais uma cultura patrimonial que ainda tem um certo poder de cooptação constitui a formula para a perpetuação de desastres previsíveis.

No Brasil, falta entre os poderosos a noção de nação e coletividade.  Reina a ideia que as coisas não devem mudar e que a mudança representa uma ameaça.  E assim continua a resignação, a acomodação, a preguiça, a falta de iniciativa e claro as tragédias e vidas perdidas.  Não adianta procurar heróis entre a elite, os políticos e os poderosos.  Triste destino!

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