Simples, Complexo e Complicado!

Rural Willys, Decada de 60, estrada e mecanica simples

O Brasil está cheio de problemas.  Nada de novidade!  Mas olhemos a evolução para tentar entender.

Do meu ponto de vista, o país passou do simples para o complexo num curto período, e a sociedade brasileira não conseguiu acompanhar a evolução.  Não tantos anos fazem, as coisas eram bem mais simples.  A ordem social era nítida.  Havia ricos, alguns no meio e uma grande maioria pobre.  Os com privilégios criaram um sistema bastante funcional para si e com uma aceitação razoável pelos de baixo.  A pobreza e o analfabetismo eram a norma.  O branco era branco e o preto era preto com algumas exceções.  Quem tinha educação superior era “doutor”, bacharel, ou medico.  Eram as profissões de prestigio.  Grande parte da sociedade era rural e vivia na dependência do patrão, do Senhor e a consequente relação patriarcal.  Quando havia um problema, recorria-se ao Senhor para resolver.  O homem era homem e tinha seus direitos.  A mulher seria sempre subordinada numa ordem natural das coisas.  Os varões eram criados para eventualmente assumir o papel do pai, e as moças esperavam casar-se com quem elas gostassem mas dentro dos parâmetros de raça e classe.  Quarto ano do primário bastava para grande parte da sociedade, e as mulheres mais ambiciosas poderiam cursar o normal para serem professoras.  Raras eram as mulheres que entravam na faculdade e, uma vez lá, eram vistas com desconfiança.

Tinha uma igreja, a Católica.  Cada cidade tinha seu padre e havia obediência a hierarquia clerical.  O Papa era supremo, com ordens de Roma de preferencia em Latim, que teria que ser interpretadas para os leigos.  Um protestante assustava e a reação intima era “Cruz Credo”.

O espaço dividia entre a casa grande e a senzala, e depois entre as casas da cidade com o barracão no fundo para os criados, e depois para os apartamentos com “dependência completa”.  Quem tinha carro e empregada domestica se distinguia do resto, que andava a pé ou de lotação.  Tinha o bom colégio, geralmente marista, e tinha as escolas publicas que eram para quem não podia pagar o particular.  A universidade mais desejada era a federal que era muito disputada e que só tinha na Capital.  As universidades católicas eram caras e expandiram mais tarde.

O namoro começava em casa sob o olhar dos pais e com sua aprovação.  Não se podia sair a não ser acompanhados.  Era normal a moca casar-se virgem e também normal o rapaz ter suas experiencias nas casas de tolerância.  Não havia divorcio e o homem podia ter, sem muito questionamento, seus casos.

Enfim ate mais ou menos 1960, as coisas eram bem simples, claras e de certa forma inquestionáveis.  A mudança veio com uma velocidade assustadora.  Dentro de poucos anos e a olhos vistos, a sociedade adquiriu uma complexidade, embora aceita de forma parcial  e ainda incomoda.  As mulheres ficaram independentes, a família ruiu, o divorcio passou a ser normal, o preto quis direitos, o pobre não quis ser submisso, os trabalhadores e pasmem, ate as empregadas, quiseram os seus com carteira assinada, férias e 13º. 

O sistema politico que tinha partido da monarquia e depois o republicano, foram seguidos de partidos de proprietários rurais, depois UDN com interesses industrias e urbanos, eventualmente surgindo de cima para baixo, um partido para quem trabalha, PTB. 

No século XX, os bacharéis, ciente de seus interesses, importaram uma estrutura republicana simples e moderna com três poderes.  Porem, espertamente se resguardaram, garantindo uma complexidade de operações e de legalidade, que só poderiam ser compreendidas por eles.  Ao mesmo tempo, enquanto a sociedade se transformava, o sistema educacional continuou separador e elitizante.  A universidade federal seria gratuita para todos, porem só as elites conseguiam ultrapassar as barreiras de entrada.

A população passou rapidamente de 50 milhões com a maioria no campo para 220 milhões com mais de 85% em densos centros urbanos.  A riqueza expandiu muito mais continuou extremamente centralizada e concentrada. 

Esse crescimento populacional súbito exigiu mudanças de comportamento e forcou a abertura para todo tipo de posicionamento individual.  Ganhou-se o direito de ser um “individuo” mas perdeu-se a identidade orgânica e coletiva da família, da igreja e do agrupamento social primário. 

De repente o Brasil passou de um país conhecido por sua democracia racial para ser considerado a terra que excluiu negros, índios e ainda as mulheres (principalmente as mulheres negras).  Ao mesmo tempo, abriu se o espaço para autoidentificação de gênero e orientação sexual.

Na aparência ou “para inglês ver”, os bacharéis criaram um sistema democrático, que resultou hoje em dezenas de partidos políticos, e ninguém entende o que representam.

Desafio aos meus colegas cientistas políticos a me explicar esse sistema eleitoral, que proporciona partidos tais que permitem que um Tiririca não só se elege, mas também puxa um bocado de correligionários.  O sistema jurídico, como parte do sistema criado também vai além da compreensão.  Quem é que pode explicar as decisões?  Um dia um politico ou um empresário recebe uma condenação e, em seguida, tudo é revertido. 

Enquanto isso, o pobre que vende maconha na esquina ou pratica um furto, acaba na prisão e muitas vezes não consegue nem ser julgado, e certamente sem defesa, já que ele dificilmente teria acesso a um advogado.  O presidente consegue tumultuar o processo e ameaça as instituições, e do outro lado, querem que as coisas mudem ou não, conforme o interesse e o politicamente correto do momento.

Enfim, do simples passou para o complexo.  Todo mundo de fora é burro.  Os cães ladram e a caravana passa.  Da para voltar para o passado simples?  Não, mas quem pode construir o futuro na santa ignorância?  Complicado, ne!?