Brasil: Marcha Ré para o Futuro

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Sempre que chego de volta ao Brasil, tenho que acostumar com o fuso horário, mas não só. A distância física, a diferença de clima, o ambiente, a comida, as pessoas e o astral são diferentes. A impressão, sob a perspectiva norte-americana, mesmo em um mundo tomado de assalto por Trumpistas, Trumbetas e Trambiques, é que o Brasil continua sendo o Brasil e nunca perde uma boa oportunidade para se estrepar. O país que tem tudo para dar certo só tropeça.

Entretanto, a impressão de longe não é completa. Entre as duzentos e tanto de milhões de pessoas, há quem procura viver com boas expectativas e com esperança. Há ceticismo, mas também há a idéia de que as coisas podem e devem melhorar. Um dos problemas, no entanto, vem da tradição ibérica de fechar o foco apenas naquilo que se tem à mão: a família dentro da proteção das paredes. Aceita-se como imutável aquilo que parece impossível mudar ou que nunca mudou. Fecha-se entre paredes, liga-se a TV e se protege ou se aliena como pode.

Como se pode esperar, surgem as reclamações: Não há emprego, a escola está ruim e/ou chata, os serviços de saúde não prestam e o perigo mora do lado de fora, no mero malandro ou no assassino cruel ou simplesmente estúpido. A TV alardeia e os jornais vendem o sensacional, a realidade sanguenta.

E apesar de tudo, o futuro chega. E fica a questão: o que futuro? O país sai lentamente da recessão e a economia é cíclica. Mas quais são as possibilidades de trabalho para quem hoje está com 10 anos e estará com 20 logo depois da Copa em Qatar? Quais são as chances de quem egressa da escola pública? Quem pode subir se ainda tropeça no esgoto e lama das chuvas por falta de interesse no saneamento básico?

Reclama-se, mas quem faz algo para melhorar? O Presidente manda o exército para intervir no Rio e ainda faz paralelo com a participação através da ONU no Haiti. O Haiti é aqui, mas o exército não é a solução do problema de violência no Rio.

Com certeza, temos que reconhecer os movimentos sociais e as tentativas individuais e coletivas para atenuar a situação. Infelizmente, contudo, os movimentos ainda não alcançam o “tipping point” para virar a direção e alterar profundamente o quadro. A vontade que existe não basta, não atinge a massa critica.

Com o discurso direita x esquerda e apenas a identificação da corrupção como problema fundamental, as pessoas bem informadas acabam com um enfoque limitado. Intelectuais de esquerda como Vladimir Safatle, desencantado com qualquer progresso político institucional, advoga uma democracia direta que parece ser uma “solução” Cubana ou Chavista, o que, por sua vez, não vai resolver nem o problema de corrupção e muito menos o problema econômico de gerir produção. A direita, por sua vez, na forma populista de um capitão, clama por uma solução voltando para a intervenção militar mais ampla do que o atual experimento no Rio. E quem conhece ou viveu nos anos de chumbo, sabe que o governo pela armas não oferece nada de positivo e duradouro. É nada mais que falsa solução enraizada no desespero e desencanto.

A construção da democracia no Brasil, embora árdua, não é impossível ou não menos improvável do que o voluntarismo de esquerda ou de uma investida militar. Na realidade, tudo é possível. Mas espero que o caminho atual no sentido de realização de eleições abertas e da participação das pessoas na política e no mercado ainda represente a direção mais acertada. Talvez o mundo tenha implodido ou explodido antes da chegada de uma solução melhor no Brasil, mas as duas opções vislumbradas até agora são ainda menos atraentes.

Paciência e vamos para o futuro, sem um regresso indevido ao passado ditatorial. Sem retrocesso, por favor.

 

 

 

 

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Qualcomm and Brazil: Semiconductors in Sao Paulo

Screen Shot 2018-02-12 at 16.59.24Qualcomm is San Diego’s claim to fame in high tech.  The company was founded by Irwin Jacobs and held naming rights to our major stadium until the Chargers decamped to Los Angeles last year.  Currently, the company faces a hostile take over bid from its competitor Broadcomm.  It is not clear, at this point, if the Broadcomm will have success but Qualcomm has also faced litigation with Apple over patents and royalty payments

In the larger scope of Qualcomm”s endeavors, Brazil has not been that significant although the company has had a presence there at least since the 1990’s with its Omnitrac system, which the corporation sold several years ago.

Qualcomm now has just announced plans for an important joint venture to build a major semi-conductor module  factory in Sao Paulo.  Investe Sao Paulo, which has also worked with All Abroad Consulting has provided significant support to Qualcomm and their Chinese joint venture partner ASE.  My friend, Sergio Rodrigues Costa, the Managing Director at Investe Sao Paulo stated: “The implementation of this project has the support from Investe São Paulo, the investment promotion agency of the state government, which is advising Qualcomm and USI on site location, environmental, infrastructure and tax matters. We are proud of serving this investment, offering strategic information key to the success of the project,”  More information can be found at http://www.investesp.org.br

Here is the press release from Qualcomm and ASE:

Qualcomm and USI Enter Agreement to Form Joint Venture for Semiconductor Module Factory in Brazil FEB 5, 2018SAO PAULO Qualcomm products mentioned within this press release are offered by Qualcomm Technologies, Inc. and/or its subsidiaries. In São Paulo today Qualcomm Technologies, Inc., a subsidiary of Qualcomm Incorporated, and Universal Scientific Industrial (Shanghai) Co., Ltd. (USI), a subsidiary of Advanced Semiconductor Engineering, Inc. (ASE), signed an agreement to form a joint venture. This joint venture, which remains subject to various closing conditions, would focus on an installation of a semiconductor module facility in São Paulo dedicated to the design, development and fabrication of modules and components for smartphones and IoT devices in Brazil. The agreement formalizes the non-binding memorandum of understanding signed by the two parties in March 2017 with the Ministry of Science, Technology, Innovation and Communications (MCTIC), the Ministry of Industry, Foreign Trade and Services (MIDC) and Investe Sao Paulo, representing the Sao Paulo State government. The agreement to form the joint venture is a result of ongoing collaboration among Qualcomm Technologies, USI and the government entities who have been working together to lay the foundation and foster the growth of the semiconductor industry in Brazil, as well as set the conditions for the possible creation of this joint venture. Building on the heritage and industry leading Qualcomm® technologies, the flagship products of the joint venture will be a line of system in package modules powered by Qualcomm® chipsets and the modules include, in a single component, the radio frequency and digital components for smartphones and IoT devices. These products are designed to help dramatically simplify the device engineering and manufacturing processes, and should also provide cost and development time savings to OEMs and IoT device manufacturers. Manufacturing these components in Brazil may also assist in the reduction of the import deficit of integrated circuits, by expanding and diversifying the Brazilian production of semiconductors. “The platforms and solutions of Qualcomm Technologies continue to support and accelerate the mobile industry and beyond,” said Cristiano Amon, president, Qualcomm Incorporated. “The collaboration between Qualcomm Technologies and USI aims to develop best-in-class solutions for smartphones and IoT system platforms by offering connectivity, security and accessibility that customers need to create innovative products and better user experiences.” “This project should help foster the adoption of IoT in Brazil, as some of the technology platforms being supported by this joint venture will be designed with an eye towards helping to facilitate the development and manufacturing of connected devices beyond smartphones across the country,” said Rafael Steinhauser, senior vice president and president, Qualcomm Latin America. “USI has been at the forefront of miniaturization technology for more than 15 years. Our track record and experience make us an ideal collaborator for the manufacturing of highly integrated multi-component modules used in smartphones and IoT devices,” said Mr. C. Y. Wei, president of USI. “Brazil is the largest economy in Latin America with a significant growth potential for integrated modules. USI will be utilizing the technological competence of its parent company, ASE, to help build up the semiconductor cluster in Brazil and Latin America. We are excited to be a part of this joint venture that could help boost local employment in the next five years,” he added. “The creation of this joint venture by world class companies is a major step towards the insertion of Brazil into the global semiconductor chain, accelerating the development of high technology products and creating important competencies in our country by bringing highly specialized jobs to Brazil in the areas of design and manufacturing of semiconductor modules”, says the Minister of Science, Technology, Innovations and Communications, Gilberto Kassab. The joint venture is likely to be set up in the state of Sao Paulo as a result of the effort and collaboration between the State of Sao Paulo, USI and Qualcomm Technologies. Assuming successful formation, the joint venture is expected to start manufacturing in 2020. About Qualcomm Qualcomm’s technologies powered the smartphone revolution and connected billions of people. We pioneered 3G and 4G – and now we are leading the way to 5G and a new era of intelligent, connected devices. Our products are revolutionizing industries, including automotive, computing, IoT, healthcare and data center, and are allowing millions of devices to connect with each other in ways never before imagined. Qualcomm Incorporated includes our licensing business, QTL, and the vast majority of our patent portfolio. Qualcomm Technologies, Inc., a subsidiary of Qualcomm Incorporated, operates, along with its subsidiaries, all of our engineering, research and development functions, and all of our products and services businesses, including, our QCT semiconductor business. For more information, visit Qualcomm’s website, OnQ blog, Twitter and Facebook pages. About the ASE Group The ASE Group is among the main independent suppliers of semiconductor manufacturing services in mounting, testing and conception of materials and design fabrication. As a global leader, it meets the growing demands and necessities of the industry for more performance in faster and smaller chipsets by developing and offering an ample portfolio of solutions and technologies that include design of integrated circuit test programing, front-end engineering tests, wafer probes, flip chips, systems in package, final test services and manufacturing of electronics through Universal Scientific Industrial Co., Ltd. and its subsidiaries, members of the ASE Group. For more information, visit the website www.aseglobal.com. About USI USI is a global ODM/EMS leading company providing design, miniaturization, material sourcing, manufacturing, logistics, and after services of electronic devices/modules for brand owners. USI is a member of ASE Group and has been listed in Shanghai Stock Exchange in 2012. It has many years of experience in the electronics manufacturing services industry and leverages the industry-leading technology of ASE Group, which enables USI to offer customer diversify product in the sectors of wireless communication, computer and storage, consumer, industrial, and automotive electronics worldwide. Through the sales service network in North America, Europe, Japan, China, Taiwan, and manufacturing sites in China, Taiwan and Mexico. USI has about 15,000 people worldwide. For more information, please visit the website www.usish.com.

The proposed investment is reported at approximately 200 million US dollars with funding coming from the BNDES, Qualcomm and ASE Group.  It is also important to note that this announcement was first made in March of 2017 and hopefully with Investe SP and the new announcements, the project is ready to move forward.  On the positive side, it definitely shows that Qualcomm has a long term commitment to Brazil, while the downside could be a change if the Broadcomm acquisition goes through and leads to a change of plans.  Semiconductor plants and their functioning depend on the rapid evolution of technology and production processes.  Such plants can quickly become obsolete if the technology is not continually upgraded.  It is unlikely, in my opinion, that Qualcomm will be making the latest versions of its Snapdragon chips.  Nevertheless, the project represents technology transfer and the creation of high tech opportunities which Brazil needs and welcomes.

 

 

 

 

 

Abuse and Other Addictions: USA x Brazil

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Source: FrostSnow.com, Rio Gold Medal Winner Simone Biles and Larry Nassar

 

I can’t but help compare the actions of Larry Nassar, the so called Michigan physician in charge of the US Olympic gymnastics team and the many abuses that take place in Brazil on a daily basis.  Curiously, I am not thinking of sexual abuse under the guise of authority.  Maybe this type does not frighten that much.  After all, for years, Brazilian women would not go to their doctor unaccompanied under the presumption of abuse.  What I have in mind is the type of malfeasance causing furor on Brazilian social media: the current outcry over a housing stipend for judges.

The Nassar story in the US caused outrage because young girls and women were victimized for years, no one complained, a pattern of acceptance of authority prevailed and there supposedly was a reward (gold medals) at the end of the story which perhaps resulted in complicity and connivance.

In recent years, with the rise of social media, Brazilians have identified corruption as their most detested form of systemic abuse.  However, corruption is only a symptom

Brazilians are strivers and see competition and tests as a means to meeting their goals.  These public exams cover everything from being hired as a primary school teacher, a highway patrolman, a public servant, a public prosecutor, a university professor or a judge.  In the end, all of these positions are offered and controlled within the state apparatus.  In most cases, these positions offer success in that once you pass your public exam, you have job stability, with benefits and compensations for life.

On the gymnastics team, Nassar somehow created, and my feeling is that he was not alone, an image that he was instrumental to athletic triumph.  It is well known that sports involve training, physical and mental preparation and possible injury.  Nassar positioned himself as one who could help, assist, facilitate, advise, support and contribute to winning at the highest levels of competition.

The state and those in control are thus positioned similar to Nassar.  The paternalistic state authority offers power, influence and reward to those who are willing to participate and win as well as those who participate and fall by the wayside.  People make assumptions, play the game and render authority in a cavalier fashion.  The state channels and even censures, and its actions are not transparent.  Participants accept the state’s paternalistic power, a certain the invasion of their privacy and a loss of political autonomy.  All this, in the hope that the same state will offer something in return, i.e., a sinecure or a contract.

In Nassar’s case, many, if not most, of his victims were minors.  They lacked experience, knowledge, maturity, information and strength.  He apparently described his actions as necessary even as they were physically painful and mostly unrelated to anything but the satisfaction of his own perverse desires.

While the Brazilian state does not usually engage directly in sexual assault, it does consider the citizenry as uninformed, inexperienced, weak and vulnerable.  As such the individual is subject to abuse and even becomes, as with the athletes, accustomed to it.

Many in Brazil are upset that judges are abusing the public trust by accepting a housing subsidy and other largesse.  These bonuses are seen as unneeded, immoral and corrupt.  Yet most Brazilians seek public employment or public contracts with an eye to enjoying similar perks.  If we look at the many unions, associations and labor organizations in Brazil we discover that each category has its own lobby whose mission is self-preservation through gaining and protecting benefits.  Thus when one category discovers that magistrates, for example, receive a housing allowance, another caste seeks isonomy or equalization.  Brazilians are well known for being creative with taxes. They are apt to copy revenue enhancements from anywhere in the world.  What people do not know is that Brazilians also create many publically funded perquisites ranging from special commissions, “jetons”, attendance awards, repayments, special compensation, 13th, 14th and even 15th month salaries, vacation stipends and much more.  Moreover, these additional benefits are codified and as such are not seen as special favors but legally sanctioned endowments.

While this is the system, Brazilians miss the mark complaining about corruption while failing to recognize their own participation in and sanctioning of institutional advantages which are viewed (from the outside) as un warranted and immoral .  Larry Nassar is certainly a despicable individual but it is hard to believe that he acted for so many years abusing so many without institutional support and societal connivance.  Likewise, Brazilian only fool themselves if they think they will solve the systemic problem by attacking the individual housing allowance or even the beloved 13th month salary.  As the expression goes, “O buraco é mais embaixo.” (The problem runs deeper.)

Lula: Estou Triste

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A condenação do Lula por unanimidade certamente é um marco na historia recente.  Talvez não seja surpresa, mas ainda assim mexa com as emoções.

Pessoalmente, o que me deixa triste e frustrado é aquilo que talvez podia ser sido e não foi.  Me lembro muito bem das eleições de 1989: Lula contra Fernando Collor.  Embora o Collor apareceu do nada como algo modernizante num Brasil saindo das trevas da ditadura, Lula tinha mais historia e oferecia uma narrativa de justiça muito mais atraente do que o garoto dourado que de repente galgou toda a simpatia da mídia tradicional.

Na época, Lula ainda tinha as origens de pobreza.  Ele ainda não tinha o transito fácil entre as elites.  Ele pregava uma mensagem de mudança e de esperança baseado na sua historia de migrante nordestino, de militância sindical, na sua luta contra os governos militares pelo menos desde Geisel e na personificação de uma mudança radical que prometia mais igualdade, diminuição das diferenças, libertação de jovens e mulheres e todo um projeto de busca de modernização à parte das oligarquias tradicionais.

Não tinha jeito e Collor foi eleito.  Somente, depois de uma nova passagem de construção e evolução com Fernando Henrique Cardoso, o plano Real, e a crise econômica do inicio do século, que Luís Ignácio finalmente conseguiu com todo direito e todas as honras sua eleição como presidente batendo nitidamente o candidato Tucano, Geraldo Alckmin em 2002.

Lula, eleito inicialmente criou um ambiente de incerteza, mas logo, logo com a indicação de Antônio Palocci e a carta ao povo brasileiro, Lula acabou tranquilizando o mercado financeiro e assim eliminou uma grande e potencial fonte de instabilidade.  Apaziguado o mercado, Lula galgou a simpatia não só de sua base tradicional, mas também das elites diante de sua atuação em prol das politicas econômicas tradicionais.  Prometeu e deu continuidade a politica econômica de seu antecessor.   O ambiente externo favorável puxou o crescimento e Lula soube administrar a expansão no sentido de corrigir de uma forma mais acentuada o salario mínimo e também ampliar o programa fome zero para bolsa família.  Como Presidente, ele continuou e melhorou as medidas de correção já iniciadas.

Entretanto, o grande desapontamento foi que a partir do discurso de maior igualdade, o Presidente Lula acabou aceitando e elevando uma proposta para firmar o PT no poder.  E assim começou a ampliação do poder através de medidas cooptativas e de compra aberta de votos e aliados não com o intuito de redistribuir, mas com o objetivo de criar uma base de poder assentada no controle da maquina publica usando a em favor de um projeto de acomodar aqueles que trocavam apoio politico pelo acesso aos recursos da administração publica.  Lula usou e abusou o sistema, expandindo sem preocupação, os postos de trabalho na maquina publica.

A politica de cooptação através do uso do estado a nível nacional, estadual e local funcionou até certo ponto.  Mas foi uma expansão aonde o PT e os partidos aliados não se preocuparam tanto com a boa administração, mas muito mais com o acesso aos recursos e seu uso “liberal”.  Lambuzaram-se no poder.

Infelizmente, Lula não usou educação e cultura para melhorar a aprendizagem e escolaridade.  Embora foram criadas escolas técnicas e universidades, perdeu-se em qualidade e recursos produtivos. Infelizmente, educação não foi seu enfoque.   As taxas de aproveitamento escolar não melhoraram e a baita diferença de qualidade entre a escolas publicas e privadas permaneceu.  De forma semelhante, aconteceu o mesmo com a saúde e reformas no setor primário.  Lula foi tolerante ou conivente com o MST, mas na realidade não fez nenhuma reforma agraria com assentamentos e reais inovações na oferta de recursos para trabalhadores sem terra.  Em vez disso, os supostos trabalhadores viraram apenas massa de manobra na luta politica com objetivos limitados que pouco tinham a ver com produção rural.  Durante o governo Lula e do PT expandiu-se a fronteira agrícola de mãos dadas com os latifundiários que tiveram basicamente mão livre nos cerrados e na Amazônia.  O mesmo ocorreu com a aliança desenvolvimentista do governo e os empreiteiros na construção das barragens e obras antiecológicas.  Bel Monte começou com Lula e foi em frente com sua agressão antropológica e ambiental no governo Dilma.

Enfim, Lula aprimorou um discurso baseado na sua narrativa de nordestino, trabalhador, engajado, progressista, consciente e reformista.  As boas intenções revolucionarias de mudar a distribuição de renda funcionaram enquanto os ambientes internos e externos proviam recursos suficientes num ciclo positivo.  No entanto, quando reverteu como sempre reverte, não havia uma base de sustentação.  Lula não criou nada solido no sentido de oferecer alternativas reais para os desfavorecidos.  Como sempre, a educação foi insuficiente e de baixa qualidade, a saúde também e até a mobilização politica das pessoas foi feita em troca de favores em vez de objetivos reais de mudança e participação politica.

Infelizmente, o sistema absorveu Lula e ele ofereceu pouca resistência.  Acabou aceitando um projeto de poder para favorecer, em primeiro lugar, um circulo pequeno de sicofantas, em segundo lugar um grupo de oportunistas coniventes de ocasião e em terceiro lugar aqueles que já se apoderavam da maquina publica e continuaram aproveitando de forma conivente com um governo que ficou ideologicamente cego.

Pode-se culpar Lula.  Pode-se chama-lo de grande chefe do esquema criminoso, mas é mais acertado ver Lula como quem chegou e acabou acomodando aos sistemas tradicionais do poder e distribuição de favores.  Ele chegou ao topo do sistema, mas o sistema foi maior do que ele como individuo e ele acomodou na aceitação e administração de demandas.  Assim, ele se confirmou como um populista de esquerda nos moldes do Getúlio da década de 50.

É triste porque, em principio, Lula poderia ter sido mais.  Ele poderia ter liderado a costura de um acordo nacional mais sustentável e favorável às novas classes que emergiram com a estabilidade da moeda (Plano Real e controle da inflação).  Em vez disso, ele optou por um caminho de reformas fáceis e de alcance limitado, e que hoje estão sendo revertidas.

Esta primeira condenação (com apelo) do Lula não será a ultima.  Mas o pior é que Lula se perde hoje na falta de autocritica, não admitindo nenhum erro.  Ele se acha a alma mais honesta, além de ser a própria encarnação o povo.  O que é um auto definição sem base e sem fundo.  Não houve um caminho de construção nem no sentido politico e menos ainda no sentido de um modelo econômico funcional.  Se Lula voltar, é só com as mesmas e cansadas fórmulas anti-mercado, anti-capital e anti-investimento que nunca funcionam.  Definir um modelo sustentável a longo prazo num pais com a tradição escravocrata que o Brasil tem não é fácil, mas está mais do que claro que o estado lotado e capturado por um partido, aliados e/ou castas estatais, se tornou um grande empecilho ao desenvolvimento e redistribuição.  Lula tinha em mãos a forca politica para promover alterações importantes, mas no final do dia isto não aconteceu e ficamos hoje com sua condenação, decepcionados com ele, frustrados e sem projetos.

Há gente feliz, dizendo que as instituições funcionaram.  Não é a verdade completa.  A justiça também anda capenga como a sociedade.  A construção vai ser lenta e resta saber se há um projeto no Brasil que ultrapasse Lula populista ou as elites eternamente enraizadas.

 

 

Is Brazil a $%*@hole?

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In discussing immigration, Donald Trump recently referred to numerous countries in a very derogative fashion.  Naturally, the foul language caused upset and revolt.  But perhaps, beyond political partisanship, one should use the opportunity to evaluate and honestly reflect whether such an accusation has any substance and how problems might be addressed.

In spite of years of recession and now weak growth, Brazil continues to rank in the 10 largest world economies as measured by GDP.  It still has the world’s fifth largest population and although Brazilians increasingly seek opportunities abroad, they are not considered a major problem migrant population in any of the countries where they have a big presence, with the possible exception of Portugal.

Trump’s America first nativism portrays, when generous, immigrants from the less developed world as advantage seekers, exploiters and opportunists taking away from Americans by overloading the welfare and health care systems and by competing with natives for jobs.  In more drastic, dramatic and derogatory terms, Mr. Trump has called Mexico a place of criminals, rapists, and the unwanted so much so that he demands a wall to be built to keep out what he described as sewage.

Mainly because of Mexican migration and higher birth rates, “Hispanics” threaten, in demographic terms, the US’s Caucasian plurality.  Brazilians hate to be called Hispanics or even Latinos; having an inherent sense of superiority.  Still in Brazil, there are record levels of self-hate, depression and a desire to emigrate.  Problems abound, but do they make the country a latrine worth avoiding or abandoning?

Let’s admit the poverty, inequality, ignorance, crime, gangs, drugs, venality, monopolies, selfishness, immorality and incompetence that haunt Brazil. One could maybe say it is just Brasilia, the capital.  But, sin for sin and defect for defect, it could also be Washington, DC.  Latrine for latrine…no country is perfect.

Still, we can agree that Brazil’s current ranking leaves room for improvement.  The path to a cleaner future is pretty clear.  The photo introduction reportedly shows the WC at the Curitiba lock up where former Rio governor Cabral is being held. While it may not compare favorably with Trump’s purportedly golden throne, it serves as an illustration and allusion.  The human condition involves waste creation and need for disposal.  Brazilians need to improve and this requires just two main components: 1) responsibility and 2) institutions.  If prisoner Cabral uses the hole responsibly and doesn’t miss the mark, that is a first step.  The second is that society has to have institutions in place so that there is water to drain the hole and, hopefully, does not overflow.  The two together represent progress.

The following recent video shows that forward movement in Brazil is tenuous. Instead one sees opportunism, lack of responsibility and perhaps the notion that institutions are not reliable.  While making a transaction at the lottery store, an old lady drops an object which is either a wallet or cell phone.  An adult male approaches from behind and surreptitiously moves the object and puts it in his pocket without inquiring anything of the lady or attendant.  Certainly, the appearance is of petty theft.  The man shows no responsibility to the victim and apparently has only limited concern about being caught and punished.

Here is the link to the video in Porto Uniao, Brazil: http://www.canal4.tv.br/video-senhor-e-flagrado-furtando-carteira-de-idosa-na-fila-de-loterica-em-porto-uniao/

Does this video illustrate the current state of Brazilian culture?  Does it make the country fall into Trump’s despicable categorization?

Certainly, the malfeasance demonstrated by business people and politicians have set a tone.  But, you should also know the man in the video was arrested by police according to press reports.  So the security camera served a purpose. It remains to be seen how the institutions will function in handling the accused.  Similarly, this week ex-President Lula’s corruption conviction and appeal will be judged in Porto Alegre and perhaps more important than the decision will be society’s reaction. Will the institutions show Brazil as a country under the rule of law and institutions which people respect? Or will there be further breakdown and more systemic weakening?  In an election year, with Brazil’s short term hanging in the balance, it is hard to predict.

 

 

 

 

 

Predictions and Evaluations – 2017 and 2018

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Predicting the year ahead and then evaluating how precise my forecasts were last year always gives me pleasure, even if it’s a bit perverse.

Last year, I posted in January, “2017-Predictions for Brazil –Happy New Year???”(https://allabroadconsulting.wordpress.com/2017/01/04/2017-predictions-for-brazil-happy-new-year/)

My best prediction for 2017 was that Temer could be removed from office because of his lack of legitimacy and unpopularity.  However, I said that people would have to take to the streets for this to happen. Indeed, Temer could have and probably should have lost his job with the JBS recording and the bag full of money carried by his lackeys.  But it did not happen because no one pounded on pans or took to the street.  Certainly people were and are generally disgusted but prefer not to spend the energy mobilizing, marching and chanting.  Dilma fell partially because of the pressure from the street, but Temer remains because he proved a better politician in that he was able to bend a venal Congress to his will through favors and offers of protection.  And the population just looked on and essentially said “Ok, there is nothing more we can do.”

I also mentioned the mayors that took office in January of last year.  Noting that while they (especially Doria in Sao Paulo and Crivella in Rio), played populist politics to get elected and tried to represent something new, neither was successful.  Doria, after initially pursuing a presidential hope, has become more modest in his aspirations.  Crivella has almost dropped out of sight and the Cariocas are only sometimes complaining about his absence.  In other words, “Who cares?”.

It was easy to be skeptical about progress in Brazil in 2017. And indeed it was another of those years that as you put them together lead to a lost decade.  Certainly the lack of political mobilization was uninspiring. It was sad to see Congressmen vote to absolve and protect themselves.  On a less pessimistic note, the economy stopped moving backward and showed minor signs of recovery where negative cycles eventually end.  TheTemer government boasted about low inflation and the lowest real interest rates ever.  With the end of the depression, foreign capital continued to flow into Brazil seeking deals in oil, gas, and alternative energy, especially wind.  While Brazilians lack the will to invest, foreigners with a long view and a sense of opportunity are taking chances given the capital made available by the generally positive world economic scene.  Investment capital is out there and seeking attractive and profitable projects.

A year ago, I concluded my iffy thoughts on people feeling empowered to make a difference.  It didn’t happen.  In 2018, the people will vote.  There will be winners and losers, so in this light, let me make 10 predictions.

Here we go:

  1. Lula will not win the presidency either because he will be condemned in his appeal or he will lose outright to a more centrist politician.
  2. Barring a health issue, Temer will finish his term and seek to define his successor and his party and the PMDB will continue to have weighty and oligarchic influence.
  3. The economy will grow in 2018 between 1 and 2 percent. This is less than the consensus prediction by Brazil’s central bank.  Poor but an improvement.
  4. There will be little renewal in Congress. While Brazilians claim to hate their politicians, they are re-elected and the campaign finance/electoral reform passed in 2017 favors those currently in elected positions.  Furthermore, pension reform will be kicked down the road to 2019.
  5. Inflation will pick up with money being spent to influence the election as well as kitchen gas, gasoline, electricity and health costs all running ahead of official inflation numbers.
  6. The Selic interest rate will once again go to 8% or more from the current record lows.
  7. Brazil will continue to be a country at war with itself. There will be over 60 thousand homicides and another similar number of traffic deaths.
  8. The World Cup in Russia will be a great distraction and Brazil will finish in the top 4 but will fall short of winning the Cup for the sixth time.
  9. The military will not intervene and Bolsonaro’s presidential candidacy will fail. Alternative candidates such as Joaquim Barbosa, Marina Silva, Henique Meirelles, Ciro Gomes, Luciano Hulk or Joao Doria will also fizzle.
  10. Geraldo Alckmin of Sao Paulo will win the presidency much to everyone’s consternation.

As predictions go, at least these are measurable and verifiable.

Happy 2018 e para o Brasil Happy 2019 que 18 será mais um ano perdido.

2017 – 10 Constrangimentos e 1 Orgulho

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Para o Brasil, 2017 foi mais um ano de constrangimentos.  Aqui vai 10 e com certeza a lista pode crescer.

1- Constrangimento no executivo. O Presidente Temer não tem legitimidade.  Ele, de fato, ajudou a desconstruir alguma solidez institucional com sua participação na saída da Dilma.  Há justificativas mais obvias para seu próprio impeachment, mas ele vem conseguindo ficar no poder sabendo como manipular votos no Congresso e apoiado na realidade que não tem uma alternativa real.  Além disso não existe uma mobilização popular contra apesar de ninguém apoia lo.

2 – Constrangimento na economia. Os governos estaduais e municipais não têm recursos para investimentos e em casos como Rio de Janeiro e outros estados nem para quitar a folha de pagamento.  Os funcionários estão a mingua.  O governo federal não tem como socorrer que também está falido.  Temer e Meirelles propagam a recuperação e o controle da inflação, mas gás, gasolina, saúde e taxas escolares não refletem o que o governo divulga.

3 – Constrangimento das reformas. Basicamente todos admitem que o pais precisa, mas não há consistência ou coerência.  A complexidade e o alcance das transformações são mal compreendidos e o debate acaba simplificada nas posturas de direita e esquerda.  Este e o caso da reforma previdenciária e da reforma trabalhista.

4 – Constrangimento da justiça.  Ate 2016, a Lava Jato e o Dr. Sergio Moro eram motivos de alivio por processar poderosos pela primeira vez.  Contudo, a Lava Jato vem sendo esvaziado pela falta de julgamento de políticos (principalmente que não sejam do PT e por manobras como as do Ministro Gilmar Mendes e outros.  Ao mesmo tempos, o Ministério Publico quando defende seus privilégios especiais, acaba se revelando incapaz de dar um exemplo de desprendimento.

5 – Constrangimento no Congresso. Os parlamentares não transmitem a impressão de honestidade.  Ao contrario, são praticamente todos suspeitos e muitos sob investigação.  Seus votos são em defesa própria e de interesses muito restritos.  Seus votos são comprados abertamente com cargos, comissões e dinheiro vivo.

6 – Constrangimento do povo. A população assiste atônita ou de verdade bestializada.  As manifestações de rua que afloraram em 2013 não existem mais.  O povo esta cansado e cínico fazendo o julgamento que não vale a pena participar marchando ou batendo panelas.  A saída da Dilma não resultou em nenhuma melhoria.  Ao contrario, todo o sistema institucional ficou ainda mais desacreditado.

7 – Constrangimento da violência: O Brasileiro tem medo de sair de casa e tem medo de ficar. Vive enjaulado cercado de arame farpado, câmeras de segurança, e trancada a múltiplas chaves.  As taxas de homicídios e latrocínios são dos mais elevados do mundo.  E ainda há mais de 50 mil mortes anuais no transito.

8 – Constrangimento nas artes. Na década de 60, o Brasil tinha razoável projeção internacional com bossa nova, musica clássica, arquitetura e até no cinema.  Hoje, Anitta que veio da igreja e acabou encontrando o rebolado sertanejo, caiu no agrado popular.  É constrangedor, mas não tanto quanto a provocação e reação com relação as exposições misturando ataques a religião, suposta incentivo à pedofilia e outras atividades “avant-garde”.  A TV por sua vez continua “politicamente correto” “patrocinando” LBGT, mulheres oprimidas e minorias ignorando ou apenas enfeitando a dura realidade que muitos sofrem.

9 – Constrangimento com o Brasil: Em 2009 e 2010, muitos brasileiros expatriados resolveram voltar para a terra. A alegria durou pouco.  O pais não oferece oportunidades para os seus e assim há outra vez grande migração para Portugal, outros países europeus, Austrália e ate os EUA apesar da politica anti-imigrante do Trump.  Enfim a decepção e grande.

10 – Constrangimento das “cabeças pensantes”. Era uma vez que a intelectualidade brasileira tinha ideias vivas e projetos que poderiam transformar instituições. Minha geração pelo menos tinha o projeto de combate a ditadura.  Hoje as universidades estão em crise, sem verba, sujeitas as invasões.  O debate em torno da economia e da construção institucional é frustração e reclamação só.  Ideias e projetos para melhorar o sistema politico estão engavetados.  Há apenas uma vaga sensação da necessidade de chegar as eleições de 2018 e empurrar as coisas com a barriga.  Melhor isso do que aceitar um “salvador da pátria. “

E agora, o orgulho: Há ainda pessoas bonitas, integras, alegres, trabalhadores, estudando, e procurando de forma decente uma vida digna.  O sol se levanta diariamente numa terra rica, privilegiada e bonita por natureza.