Lula: Estou Triste

Lulascreenshot

A condenação do Lula por unanimidade certamente é um marco na historia recente.  Talvez não seja surpresa, mas ainda assim mexa com as emoções.

Pessoalmente, o que me deixa triste e frustrado é aquilo que talvez podia ser sido e não foi.  Me lembro muito bem das eleições de 1989: Lula contra Fernando Collor.  Embora o Collor apareceu do nada como algo modernizante num Brasil saindo das trevas da ditadura, Lula tinha mais historia e oferecia uma narrativa de justiça muito mais atraente do que o garoto dourado que de repente galgou toda a simpatia da mídia tradicional.

Na época, Lula ainda tinha as origens de pobreza.  Ele ainda não tinha o transito fácil entre as elites.  Ele pregava uma mensagem de mudança e de esperança baseado na sua historia de migrante nordestino, de militância sindical, na sua luta contra os governos militares pelo menos desde Geisel e na personificação de uma mudança radical que prometia mais igualdade, diminuição das diferenças, libertação de jovens e mulheres e todo um projeto de busca de modernização à parte das oligarquias tradicionais.

Não tinha jeito e Collor foi eleito.  Somente, depois de uma nova passagem de construção e evolução com Fernando Henrique Cardoso, o plano Real, e a crise econômica do inicio do século, que Luís Ignácio finalmente conseguiu com todo direito e todas as honras sua eleição como presidente batendo nitidamente o candidato Tucano, Geraldo Alckmin em 2002.

Lula, eleito inicialmente criou um ambiente de incerteza, mas logo, logo com a indicação de Antônio Palocci e a carta ao povo brasileiro, Lula acabou tranquilizando o mercado financeiro e assim eliminou uma grande e potencial fonte de instabilidade.  Apaziguado o mercado, Lula galgou a simpatia não só de sua base tradicional, mas também das elites diante de sua atuação em prol das politicas econômicas tradicionais.  Prometeu e deu continuidade a politica econômica de seu antecessor.   O ambiente externo favorável puxou o crescimento e Lula soube administrar a expansão no sentido de corrigir de uma forma mais acentuada o salario mínimo e também ampliar o programa fome zero para bolsa família.  Como Presidente, ele continuou e melhorou as medidas de correção já iniciadas.

Entretanto, o grande desapontamento foi que a partir do discurso de maior igualdade, o Presidente Lula acabou aceitando e elevando uma proposta para firmar o PT no poder.  E assim começou a ampliação do poder através de medidas cooptativas e de compra aberta de votos e aliados não com o intuito de redistribuir, mas com o objetivo de criar uma base de poder assentada no controle da maquina publica usando a em favor de um projeto de acomodar aqueles que trocavam apoio politico pelo acesso aos recursos da administração publica.  Lula usou e abusou o sistema, expandindo sem preocupação, os postos de trabalho na maquina publica.

A politica de cooptação através do uso do estado a nível nacional, estadual e local funcionou até certo ponto.  Mas foi uma expansão aonde o PT e os partidos aliados não se preocuparam tanto com a boa administração, mas muito mais com o acesso aos recursos e seu uso “liberal”.  Lambuzaram-se no poder.

Infelizmente, Lula não usou educação e cultura para melhorar a aprendizagem e escolaridade.  Embora foram criadas escolas técnicas e universidades, perdeu-se em qualidade e recursos produtivos. Infelizmente, educação não foi seu enfoque.   As taxas de aproveitamento escolar não melhoraram e a baita diferença de qualidade entre a escolas publicas e privadas permaneceu.  De forma semelhante, aconteceu o mesmo com a saúde e reformas no setor primário.  Lula foi tolerante ou conivente com o MST, mas na realidade não fez nenhuma reforma agraria com assentamentos e reais inovações na oferta de recursos para trabalhadores sem terra.  Em vez disso, os supostos trabalhadores viraram apenas massa de manobra na luta politica com objetivos limitados que pouco tinham a ver com produção rural.  Durante o governo Lula e do PT expandiu-se a fronteira agrícola de mãos dadas com os latifundiários que tiveram basicamente mão livre nos cerrados e na Amazônia.  O mesmo ocorreu com a aliança desenvolvimentista do governo e os empreiteiros na construção das barragens e obras antiecológicas.  Bel Monte começou com Lula e foi em frente com sua agressão antropológica e ambiental no governo Dilma.

Enfim, Lula aprimorou um discurso baseado na sua narrativa de nordestino, trabalhador, engajado, progressista, consciente e reformista.  As boas intenções revolucionarias de mudar a distribuição de renda funcionaram enquanto os ambientes internos e externos proviam recursos suficientes num ciclo positivo.  No entanto, quando reverteu como sempre reverte, não havia uma base de sustentação.  Lula não criou nada solido no sentido de oferecer alternativas reais para os desfavorecidos.  Como sempre, a educação foi insuficiente e de baixa qualidade, a saúde também e até a mobilização politica das pessoas foi feita em troca de favores em vez de objetivos reais de mudança e participação politica.

Infelizmente, o sistema absorveu Lula e ele ofereceu pouca resistência.  Acabou aceitando um projeto de poder para favorecer, em primeiro lugar, um circulo pequeno de sicofantas, em segundo lugar um grupo de oportunistas coniventes de ocasião e em terceiro lugar aqueles que já se apoderavam da maquina publica e continuaram aproveitando de forma conivente com um governo que ficou ideologicamente cego.

Pode-se culpar Lula.  Pode-se chama-lo de grande chefe do esquema criminoso, mas é mais acertado ver Lula como quem chegou e acabou acomodando aos sistemas tradicionais do poder e distribuição de favores.  Ele chegou ao topo do sistema, mas o sistema foi maior do que ele como individuo e ele acomodou na aceitação e administração de demandas.  Assim, ele se confirmou como um populista de esquerda nos moldes do Getúlio da década de 50.

É triste porque, em principio, Lula poderia ter sido mais.  Ele poderia ter liderado a costura de um acordo nacional mais sustentável e favorável às novas classes que emergiram com a estabilidade da moeda (Plano Real e controle da inflação).  Em vez disso, ele optou por um caminho de reformas fáceis e de alcance limitado, e que hoje estão sendo revertidas.

Esta primeira condenação (com apelo) do Lula não será a ultima.  Mas o pior é que Lula se perde hoje na falta de autocritica, não admitindo nenhum erro.  Ele se acha a alma mais honesta, além de ser a própria encarnação o povo.  O que é um auto definição sem base e sem fundo.  Não houve um caminho de construção nem no sentido politico e menos ainda no sentido de um modelo econômico funcional.  Se Lula voltar, é só com as mesmas e cansadas fórmulas anti-mercado, anti-capital e anti-investimento que nunca funcionam.  Definir um modelo sustentável a longo prazo num pais com a tradição escravocrata que o Brasil tem não é fácil, mas está mais do que claro que o estado lotado e capturado por um partido, aliados e/ou castas estatais, se tornou um grande empecilho ao desenvolvimento e redistribuição.  Lula tinha em mãos a forca politica para promover alterações importantes, mas no final do dia isto não aconteceu e ficamos hoje com sua condenação, decepcionados com ele, frustrados e sem projetos.

Há gente feliz, dizendo que as instituições funcionaram.  Não é a verdade completa.  A justiça também anda capenga como a sociedade.  A construção vai ser lenta e resta saber se há um projeto no Brasil que ultrapasse Lula populista ou as elites eternamente enraizadas.

 

 

Advertisements

Foreign Direct Investment in Brazil

Below is a short article published today (Jan 25, 2017)in the international edition of Valor. Some of the questions that come to mind are:

What sectors are receiving the largest inflows?  I would think most likely petroleum exploration with the loosening of restrictions.  The primary sector also is important with the growth of soybeans and large investments in eucaliptus for the pulp industry.

Where are these flows coming from?  China promised 10 billion but the Chinese are notoriously slow in fulfilling their promises.  What companies and countries are the source?  The US has the largest stock of accumulated FDI

Finally, as noted in the article, FDI in Brazil, in spite of uncertainty, recession, political crisis, disease, accidents, death and decline, keeps growing.  Someone must be thinking long term.

FDI reaches record 4.4% of GDP despite recession and political crisis

Recession, impeachment, political crisis, and corruption scandals have not affected the flow of foreign direct investment into the country, which ended 2016 at $78.9 billion, or the record level of 4.37% of GDP. The investment inflow, spread across various sectors of the economy, financed easily the current account deficit, which stood at $23.5 billion, or 1.3 percent of GDP. “This shows that direct investments have specific characteristics, linked to long-term decision and could be maintained even in years of weak economic activity,” said Fernando Rocha, head of Central Bank’s Economic Department. For 2017, the forecast is of $75 billion in FDI, or 3.82% of GDP. 

Article from Valor International Edition, Jan. 25, 2017

Grading my Brazil Predictions for 2016

foto-roberto-stuckert-filho

Optimistic Dilma in 2016 – Photo by Roberto Stuckert Filho

 

Some readers have followed, not necessarily religiously, this blog since it went public in January of 2013. Comments have generally been gracious and insightful.

As long-time readers know, I do a New Year’s prediction for how Brazil will fare over the coming 12 months. As part of this, it’s only fair to go back and assess what I got right and wrong. I’m giving my 2016 predictions a gentlemanly B-. Here, for verification, is the link to those year-old predictions: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2016/01/01/brazil-predictions-for-2016/

My biggest 2016 prediction mistake was stating outright that President Dilma would not be impeached. I sincerely believed that she could and would marshal the political forces necessary for her survival. Instead, she went down with hardly a whimper and with little or no political or economic support. . A worsening recession, growing unemployment and above all, her indecisiveness in the economic sphere and her disconnect from Congress ultimately doomed her. Her incompetence and distance even from her own party showed her lack of political skill and desire to save her presidency.

While I missed on Dilma, I predicted correctly Cunha’s (former President of House and the main force in Congress behind the impeachment) ouster and Renan Calheiro’s survival (as the President of the Senate). Mr. Calheiros has indeed prevailed but notably weakened and will soon lose the presidency of the Senate. The new President, Michel Temer, has kept his distance from Calheiros preferring other cronies instead. In my predictions, I did not mention Temer (as I did not think he would actually take over) and I should have looked at his ambitions more closely.

On the economy, like most everyone, I correctly anticipated the continued recession but also expected the cycle to reach bottom by the end of the year and naturally perk up from there. It now appears that the upswing may not begin until the second or third quarter of 2017. The recession, the major increase in unemployment and the consequent lack of demand has kept inflation relatively low. I had expected inflation (again with Dilma) to hit or top 10% due to her maneuvering to please supporters. President Temer has pushed a cap on spending through Congress and this along with lack of demand has held inflation to around 6.5% in 2017 with a current tendency to fall. Brazil’s Central Bank is predicting inflation of less than 5% in 2017. While the official numbers appear reasonable, the impact of price increases certainly feels higher and more worrisome on the street.

Speaking of worrisome, Brazil is mastering the art of year-end crises. It used to be mudslides with summer rains creating havoc. These were largely man made catastrophes because of unregulated and uncontrolled development of unsafe areas. Because the deadly slides were associated with the seasonal downpours, they could be blamed on nature. Similarly, Zika was the New Year concern from 2015 to 16 when thousands of cases appeared and hundreds of babies were born with microcephaly. In this case, nature again was blamed but Brazilians also know that mosquitoes breed and propagate due to a lack of basic infrastructure and sanitation. By August and the Olympics, the pandemic was no longer an international threat and Brazil, as I predicted, successfully held the Games. Of course, the major beneficiaries were not the people of Rio but instead NBC and the Olympic Committee. Rio is now bankrupt and many of the so-called Olympics improvements are rapidly falling into disrepair. This 2017 New Year disaster cannot be blamed on nature but must be laid at the heart of the contradictions inherent in Brazil’s barbaric inequality and violent past. Prison riots in the first days of the year have caused well over 100 deaths and the government seems paralyzed in how to address the gangs that control the prisons, their historically abhorrent (mis)management, and the Justice system itself that operates willy-nilly and condemns the poor, black and powerless. The rebellions and deaths show the bankruptcy of the government and paradoxically the strength for those who have nothing to lose and know that life is cheap. The gangs rule in the absence of any other intervening power.

Last year, I also mentioned the continuity of the corruption investigations and, especially the Lava Jato (Car Wash) with its revelations of unprecedented bribery and the chummy network of exchanges between construction companies, politicians and political nominees positioned to take bribes and distribute contracts favoring the “empreiteiras” (construction companies) and their political allies.   Again, thinking that Dilma would hold on to power, I imagined the extension of the investigations to other areas such as the National Development Bank (BNDES) and more specific projects like the transposition of the San Francisco River. Indeed, there has been mention in this direction but no action. Instead, the Temer government sought to quietly dismantle the main investigations and it has only been through strong public pressure within Brazil and from abroad including the US Department of Justice that the prosecutions actually survive.

Interestingly as predicted, Brazil continues to receive massive amounts of FDI (Foreign Direct Investment) some 69 billion in 2016. Some of this money is going into the primary sector for land purchases, soybean and pulp plantations. Other sectors are less clear, with industry in decline, the money is likely going to opportunistic acquisitions in manufacturing or processing (i.e. the Petrobras sale of the notorious costly refinery in Pernambuco negotiated recently for 10 cents to the dollar. Other investments are going into education, services, distribution and logistics. Still these have not sufficed to revive the economy. More money is starting to come from China but the Chinese still lack confidence in how to deal with Brazil.

Unfortunately, Dilma’s ouster is still yielding negative returns for Brazil’s institutions. While she was bad, her replacement has not improved the economic situation, slowed the firings, enhanced productive investments or inspired confidence. Dilma, though apparently personally honest, could or would not govern.   President Temer’s rectitude is perhaps less certain. His government is corrupt and weak but more politically adept in dealing with the venal politicians in Congress. Hopefully, the electoral court will not have time to disqualify the Dilma/Temer slate, which would force Temer out and the indirect election of a new interim president who would have filler role to the elections of 2018. If this happens, it will further confuse the public and inhibit the possible emergence of candidates not tied to corrupt schemes or past malfeasance.

Pulling off the Olympics and winning the missing gold medal for the first time in futbol* were the high points, and now Brazil continues to flounder but such is the world in 2017.

*The Olympic gold medal was only major soccer title that Brazil had never won.

Security and Safety at Rio’s Olympics

DelsonSilvaAgNew

I’m frequently asked if Rio is dangerous. While understandable, this question always bothers me. I have friends living in Rio who take all sides on the issue of safety. Their positions range from panic to mild paranoia.   Mild is about as good as it gets. It can be thought of as the normal urban dweller’s awareness and caution. People check out their surroundings, do not venture into certain areas, avoid exposing themselves to perceived danger and make sure that everything that might attract a criminal is dealt with in a fairly rational way. For example, people lock their cars and drive with the windows up. Women protect themselves as they see fit given the situation, which might mean not going out alone. On the mild paranoia side, this is standard behavior for any big city.

On the other end of the scale, I know people in Rio (Cariocas) who avoid going out at all costs. When they do go out, they have to engage in very strategic planning to make sure they are safe. This typically involves only using safe transportation, i.e. a personal car (the car may be armored) with a professional driver and advising friends and relatives of their plans and scheduled arrival and departure times in addition to using a cell phone with GPS locations, communication and emergency resources.

What passes for mild paranoia or panic is of course subjective. Some people, especially the young and sometimes the very poorest, have little fear either because they are fool hardy and feel invincible or have absolutely nothing to lose. The rest of us are somewhere in between. Fear often comes from lack of information, information overflow or sensationalism. Here is a link to the sensationalist Daily Mail (UK) that picked up this quite impressive and scary video: http://dailym.ai/1K5IZJu

The video is not staged but it is edited for its sensationalist effect. The reality is that yes there is street crime perpetrated typically by minors or young men and that awareness is needed. While bump, rob and run and theft of valuables are common, it is still the exception.

Here are some crime statistics and recommendations:

First, the good news: Intentional homicides per 100,000 are falling. The graph from Rio’s Institute of Public Safety (Instituto de Seguranca Publica) shows a decline in intentional homicides over the past 7 years. This information is for the state of Rio while the city of Rio de Janeiro shows a fairly constant rate of something over 1200 killings a year for the last 4 years.

Screen Shot 2016-03-03 at 3.26.28 PM

The US Department of State has a division dedicated to “Diplomatic Safety” that produces a summary covering different risks in the city of Rio de Janeiro including public safety, cyber crime and road safety. Here is the link: https://www.osac.gov/pages/ContentReportDetails.aspx?cid=19071

This report describes Rio’s overall crime rate as “Critical” and further states that “Crime is the principal threat to visitors in Brazil” and “ Low-level criminal activity continues to plague visitors and businesses alike. Drug-dealing, petty theft, and vehicle break-ins are common.” It also notes that assaults are common in beaches or parks especially after dark.

While the objective statistics and the US government evaluation do not paint an encouraging situation, the actual victimization of tourists during the Olympics may actually be less serious. There are a couple of reasons.

First, there will be enhanced security. Second people are being warned and often will be in groups. Third, many Brazilians will help tourists avoid trouble and have a good time. Obviously, if you want the excitement, it can be found. Here is a Brazilian App that is similar to Waze for crime. It can be downloaded to track crime: http://www.ondefuiroubado.com.br/rio-de-janeiro/RJ/

There are a couple of other things to take into account. Zika, Dengue and other mosquito-driven diseases are prevalent and one needs to be educated and informed.

The other great unknown is the possibility in today’s world of a terrorist shooting, bombing or assault of some kind. Brazil’s security apparatus has been collaborating with US and international agencies for a long time and are certainly aware of the potential of terrorism at a major event like the Summer Olympics. I trust nothing will happen and that perhaps as the Brazilian jokes goes: there are too many bureaucratic and infrastructure problems that impede business and terror alike.

Safe travels and enjoy the Games!  Hope to see you there.

 

Photo credit: DelsonSilvaAgnew

Erros e Acertos nas Previsoes para 2015

Chegou a hora de avaliar os erros e acertos das previsões que fiz o ano passado. Aqui esta o link para minhas “profecias”:

https://allabroadconsulting.wordpress.com/2015/01/02/previsoes-para-2015-e-a-posse-da-presidenta/

Comecei o blog dizendo: “Por mais que a gente quer uma alteração de rumo, esta difícil enxergar o que pode mudar.” Como nada mudou, alias só piorou, acertei de cara.

Abaixo também cito as palavras ou promessas da Presidenta no seu discurso de posse. Ao que parece, ela ainda não cumpriu nenhuma e a idéia do lema de pátria educadora acabou banalizado com 3 ministros em 1 ano: Gomes, Janine, e Mercadante. Nenhum teve capacidade e/ou recursos para educar ninguém.

Teci previsões quanto a economia, a Petrobras e o setor primário. No geral, acertei.

A economia passou por um ano difícil com o PIB encolhendo mais de 3 por cento. Os preços de “commodities” (petróleo, soja, minério de ferro e celulose) caíram e o setor primário exportou em US$ aproximadamente 10% a menos em 2015 comparado com 2014. A Petrobras, que não quebrou (ainda), trocou de presidente e mesmo assim o valor das ações continuou caindo. Tenho amigos no mercado que acham que a PBR esta quebrada, e realmente estaria, se não fosse o “backup” do governo que não vai deixar o maior xodó do Brasil ir a bancarrota.

Errei grosseiramente na previsão de cambio. Sendo tímido e algo confiante no Real previ a mudança de 2.70 para apenas 3.10, ligeiramente acima de 10 por cento. Hora bolas, o ano terminou com o real encostando em 4 ou uma desvalorização de 50 por cento. Se 2016 for igual ou pior a 2015 então podemos esperar o real entre 6 e 7 em dezembro. Será?

Em principio, a desvalorização do real deveria ajudar as exportações mas como o Brasil exporta hoje basicamente commodities, os preços caíram e a demanda também. A industria que perdeu, ha’ tempos, seu mercado ainda não recuperou sua produção e nem seus clientes externos. Especificamente no setor automobilístico, o México já ultrapassou o Brasil em termos de produção e produtividade. Ai a falta de avanço acaba em atrasos e encolhimento de um setor que foi importante nas exportações e que hoje vai perdendo significância. O Brasil não produz exatamente “carroças” mas a produção não e’ de vanguarda e nem de altíssima qualidade.

Falei também de protestos e movimentos de rua. Tivemos sim, mas ainda não alteraram o quadro político. Ao final do ano, a movimentação de rua pro – Dilma estava talvez numericamente maior do que anti-Dilma. O povo esta cansado e resignado.

O ano passado, literalmente “achei estranho” que ninguém das grandes empreiteira havia sido preso. De repente no meio do ano, a PF prendeu Marcelo Odebrecht e outros executivos das maiores empresas de construção do Brasil. Então estava equivocado ou certo? Mais de seis meses presos sem acusação formal e negação de habeas corpus continua me parecendo estranho. Creio também que haverá algum tipo de leniência para os grandes empresários e Dilma já esta falando de um novo PAC de construção civil.

Transcrevo aqui as promessas que Dilma fez para o primeiro semestre de 2015.

  • transformar em crime e punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa ou não demonstrem a origem dos seus ganhos; 2) modificar a legislação eleitoral para transformar em crime a prática de caixa 2; 3) criar uma nova espécie de ação judicial que permita o confisco dos bens adquiridos de forma ilícita ou sem comprovação; 4) alterar a legislação para agilizar o julgamento de processos envolvendo o desvio de recursos públicos; e 5) criar uma nova estrutura no Poder Judiciário que dê maior agilidade e eficiência às investigações e processos movidos contra aqueles que possuem foro privilegiado. (Fonte: discurso de posse)

Como eu previ, nada disso aconteceu e nada esta na pauta do Congresso.

Finalmente, comentei a tentativa da Dilma em se afastar do Lula na nomeação dos ministros. O principal exemplo foi o Joaquin Levy que durou um ano. O substituto, Barbosa, embora não afiliado ao PT e’ muito mais próximo ao Lula e ao ex-ministro Mantega. Enfim, Dilma começou fraca e continua fraca e sem opções. Mas o pais também se ressente de alternativas e, a não ser que apareça uma prova contundente de corrupção da Presidenta, ela continuara ate o final.

Resumindo, acertei algumas e errei outras coisa. A avaliação pelo menos faz a gente refletir um pouco, para ver se apura as observações.

Desigualdade e Legitimidade

Uma sociedade excessivamente desigual, como o Brasil, precisa eliminar barreiras e a promover a possibilidade de ascensão. O desafio e’ a necessidade de entender e contornar as ameaças sentidas pelos grupos que temem as perdas, mesmo relativas. E’ preciso mostrar e ampliar os caminhos para que as pessoas possam enxergar por onde podem manter e subir na vida, fazendo-se relevante. A ordem estabelecida tem profundas raízes no escravidão, racismo e exploração alem da dominação patrimonial. Contra a estrutura tradicional, sempre ha’ uma contra ordem ou uma contra proposta. Muitas vezes a alternativa “contra” carece de definição nítida mas engloba o anseio por participação e voz na definição do objetivo ou destino. A evolução quase que natural, e também controlada, vai na direção da dinâmica extensão/conquista/concessão de direitos individuais. No Brasil as coisas vem de cima e o Estado tem uma longa historia de cooptação, concessão e controle. A libertação e o fim da escravidão se deu por medidas gradativas cedidas no império como a Lei do Ventre Livre, a proibição do trafego de escravos e finalmente a Lei Áurea. Com a republica, a urbanização e industrialização, o Estado continuou promovendo a absorção e também o controle e ate hoje temos a herança trabalhista do ditatorial Estado Novo onde os “direitos” são concedidos e protegidos pelo o Estado. Hoje, quase 70 anos apos, os empregos e posições mais procurados são públicos através de concursos cedidos e controlados pelo Estado onde os vencedores afortunados podem pegar um emprego vitalício com bons benefícios. Formalmente, todos podem mas na realidade poucos conseguem vencer.   Almejar algo fora do estado ou do setor publico representa um risco que, se possível, deve ser evitado.

No sistema legal e corporativista do Estado, existem todo tipo de “proteção” formal. A proteção pode ser mais solida para quem esta dentro (concursados e contratados), mas mais precário para quem esta fora.   Contudo, o mal desempenho do Estado se revela na precariedade de sua oferta real nas áreas mais tradicionais de atuação: educação, saúde, segurança e infra-estrutura. Quando o Estado fracassa nessas áreas básicas torna-se evidente que as ambições daqueles não participantes não terão por onde serem atendidas. Assim temos a crise de políticas publicas. Não sabemos se coloca água/esgoto ou um teleférico na favela. Não conseguimos por professores com condições adequadas para ensinar e o sistema de saúde e’ totalmente deficitária onde as pessoas literalmente morrem nos corredores dos hospitais.

O resultado e’ uma frustração geral. A classe media tradicional procura se manter de todo jeito e fica assustado com cotas para negros e bolsa família. Os de “abajo” procurem entrar ou, talvez melhor, romper as barreiras através de demonstrações de consumo.   Uma TV “flat screen” não e’ visto como luxo mas necessidade de afirmação, mesmo que o proprietário não tenha condições de pagar sua conta de luz e recorre ao gato.   Ai esta’ o famoso jeitinho “la embaixo” enquanto os de acima fazem e se mantenham com suas estripulias, roubalheiras e casos de corrupção envolvendo milhões (o que já não e’ mais jeitinho).

A frustração leva ao desanimo com o sistema e a procura de alternativas fora do oficial. Ai surgem os negócios paralelos (outros jeitinhos) sejam de transporte em vans, a formação de escolas de samba que dependem e convivem com os “bacanas” ou mesmo a formação de gangues para se proteger e prosperar através de comercio clandestino de drogas, armas e contrabando de todo tipo.   Surgem os pequenos assaltos e latrocínios estúpidos que acontecem nesta “arrumação” informal.   As arrastões que tanto incomodam a classe media na praia são apenas uma pequena manifestação do mal e do mal estar.

A sociedade que desenvolveu com base na extrema exploração, hoje procura se defender contra predadores que não tem nenhum compromisso ou interesse na estrutura do status quo. De quem e’ a responsabilidade e de onde podem vir as soluções. A tendência histórica e’ de culpar o governo e, ao mesmo tempo, reclamar uma solução do governo. Paralelamente, quando o governo não responde, as milícias e ou gangues ocupam o vácuo e assumem o controle de territórios.

E’ claro que ha sinais de movimentos alternativos na sociedade civil e ha’ tentativas precárias de responsabilidade individual. Embora a cultura geral trata tais esforços com desprezo e desrespeito. Os sindicatos e movimento sociais (ONGs) dependem do Estado e assim são manipulados. Minorias de toda orientação continuam sendo exóticas e as mulheres continuam como vitimas de todo tipo de violência e discriminação. Se for mulher, negra e gay, imagina então.

Teme-se que o crescimento econômico e a ascensão social da primeira década do novo século tem sido fortuito e esta’ por perder. Já são 4 anos sem crescimento significativo e a estagnação já começa refletir no mercado de trabalho e de oportunidades. Todos os atrasos estão cada vez mais evidentes com a falta de chuva e a falta de demanda da China e ate do mercado interno. A industria brasileira não exporta desde o século passado. As ilhas de excelência são ameaçadas. As jóias produtivas do setor publico foram lotadas e perderam seus rumos. Petrobras e’ nada mais que o exemplo mais evidente, mas o temor esta em sentir que o mal acaba arrastando o que tinha de bom no setor publico.

Tem o ditado atribuído ao alemão Georg Lichtenberg “Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.” Falta de respeito resulta em falta de legitimidade que por sua vez leva a quebra das instituições. O Brasil ainda tem estruturas funcionais e legitimas mas as ameaças estão pairando. Ha muitas pessoas clamando por impeachment da presidenta sem levar em conta o que isto pode representar em termos não só de continuidade institucional mas também em atraso político e social. E’ justo combater o sistema mas dentro do sistema. As eleições de 2018 não demoram em chegar e ai’ esta’ a oportunidade real do Brasil definir nitidamente seu rumo.

Previsoes para 2015 e a Posse da Presidenta

Arriscar prever o futuro e’ divertido: com o passar do tempo podemos sorrir um pouco com os acertos e fechar a cara com os erros. O discurso da Dilma ate’ facilita pela listagem dos tópicos. Então vamos la`.

Por mais que a gente quer uma alteração de rumo, esta difícil enxergar o que pode mudar. Apesar da nova equipe econômica ter uma formação tradicional e de mercado, dificilmente vão conseguir um crescimento alem de 1 por cento em 2015. O ano, conforme a Dilma e equipe, e’ de cortes e reajustes. As nomeações políticas para as estatais também pouco prometem. Petrobras esta sob pressão do mercado, a Graça permanece, o preço de petróleo em baixo e assim vai com os demais commodities. Ate a agricultura e setor primário vão ter problemas. Dilma colocou em ultimo lugar os EUA e Europa na lista de prioridades internacionais e os BRICs e países latino americanos faltam condições próprias de sustentar as exportações brasileiras. Então previsão, inflação na meta ou acima, sem crescimento. Agricultura e a exportação de petróleo, minerais, soja e de insumos industriais tipo celulose e ferro gusa não serao suficientes para reverter o quadro. O governo precisa segurar o cambio para ajudar controlar a inflação. Já estamos próximos a 2.70 por dólar e prevejo o cambio a 3.10 ao final de dezembro de 2015.

Sem crescimento, seria natural a expectativa da volta dos protestos como tivemos em 2013. Sinceramente acredito que não. Não ha por parte da base social; sindicatos, organizações comunitárias, CEBs etc. autonomia suficiente para contestar na rua. E’ certo que podemos ter protestos locais quanto a precariedade dos serviços urbanos, especialmente transportes, mas o movimento tarifa zero não tem base fora do meio estudantil e olhe la`.

Dilma propôs educação como lema do governo. Em principio achei bacana. Todo mundo concorda que educação e’ a base de tudo. Só que a indicação do Cid Gomes como Ministro, me parece, desmente tudo. Em primeiro lugar, se e’ o lema principal por que não um ministro do PT? Não tem o quadro? Não tem a pessoa? Gomes, embora talvez tenha feito algo para educação no Ceara e’, no mínimo controvertido. Não tem partido e minha amiga, grande educadora (Adriana de Oliveira Lima) apresenta serias restrições. Mais importante, e’que Dilma disse que os recursos para o setor virão do Pré-Sal. Se a Petrobras esta em plena crise de corrupção e administração e não tem recursos para investir, como e’ que vai sair recursos no vulto da necessidade. Ainda mais com o barril de petróleo a 60 dólares e o custo de extração do Pré-Sal (em termos de custo total) próximo a esta cifra.

Falando em corrupção. A reação tradicional seria que tudo vai terminar em pizza. Não acredito. Creio que fomos alem e pessoas graúdas serão julgadas e condenadas. Entretanto, vejo também uma massa (não exatamente pizza e Dilma sancionou o Dia do Macarrão) sendo feita. Odebrecht, por exemplo, a maior empreiteira, escapou de alguma forma, de ter um executivo preso. Achei estranho. Será que tem a ver com Mariel e dinheiro em Cuba?   Quanto as outras empresas, ha gente, sim, em risco mas também ha manobras legais contestando tecnicamente a forma da Polícia Federal conduzir as investigações. Como a justiça no Brasil e’ lenta e outras coisas mais, pode ser que alguns vão escapar com condenações amenizadas e outras “premiações” a mais. Dilma prometeu para o primeiro semestre 5 medidas ou leis que o Congresso precisaria aprovar e não vejo isto acontecendo. As medidas são:

1) transformar em crime e punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa ou não demonstrem a origem dos seus ganhos; 2) modificar a legislação eleitoral para transformar em crime a prática de caixa 2; 3) criar uma nova espécie de ação judicial que permita o confisco dos bens adquiridos de forma ilícita ou sem comprovação; 4) alterar a legislação para agilizar o julgamento de processos envolvendo o desvio de recursos públicos; e 5) criar uma nova estrutura no Poder Judiciário que dê maior agilidade e eficiência às investigações e processos movidos contra aqueles que possuem foro privilegiado. (Fonte: discurso de posse)

O Congresso para passar tais medidas estará se ferindo na suas fontes de renda.

Os ministros escolhidos pela Dilma são de acordo com os comentaristas de sua confiança e não são mais os “olheiros” do Lula. Mas tirando a equipe econômica, não ha nenhuma indicação de mudança qualitativa nos quadros. Pela primeira vez, ministro individuais foram vaiadas pela platéia que na sua imensa maioria estava presente por gostar da Dilma. O novo Ministro de Esportes faz parte da cota evangélica mas duvido que dure ate o final do ano. Colocar o Aldo Rebelo como Ministro de Ciência e Tecnologia joga para baixo a pasta que junto com Educação seria parte do lema Pátria Educadora. Não da para entender fora de um processo precário de acomodação política.

Bom, o ano passado arrisquei previsões esportivas e me ferrei. Brasil perdeu feio. As Olimpíadas vem 2016. Para a TV será um grande sucesso. Para o Rio de Janeiro também um impulso de imagem e auto-estima mas 2015 vai ser critico em termos de andamento das obras. Vejo mais estrutura temporárias e jeitinhos. O resultado vai ser um conta grande na frente mas como na Copa a festa será ótima.

Gostaria de ver meu Galo ganhar novamente Libertadores mas não arrisco garantir.

Finalizando, mais um ano difícil como 2014 mas no fim vamos sobreviver apesar da violência, da corrupção, dos impostos em alto, das deficiências do serviço publico e de todo o rosário de coisas negativas. Enfim, as pessoas se sentem felizes por estar no Brasil.