Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma de Monica Baumgarten de Bolle, Comentarios de All Abroad Consulting-Steve Scheibe

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Acabo de ler o novo livro de Monica de Bolle.  Monica é pesquisadora senior do Peterson Institute for International Economics vinculado a John Hopkins University.  Ela também traduziu a edição brasileira do livro Capital de Thomas Piketty.  Ademais escreve blogs e colunas, enfim uma economista que publica bastante, sendo bem visível na mídia social.  Enfim, a autora reúne experiência e competência.  Recentemente, surgiram comentários na mídia que ela poderia integrar o Ministério (Planejamento?) do Presidente Temer.

Borboleta é um resumo dos anos Dilma, principalmente os erros econômicos (e em menor grau) políticos do segundo mandato.  Como uma pessoa muito bem lida, Monica conta a historia usando analogias e paralelos literários.  Assim a destruição da borboleta azul [1] representa a metáfora do período final do governo PT no poder.

Como Monica de Bolle vem acompanhando de perto (mesmo em Washington) a economia brasileira, ela usou blogs e artigos publicados como a espinha dorsal do livro.  Olhando a sequencia dos artigos que ela integra bem no livro, pode-se ver que ela já enxergava onde a economia iria chegar e as consequências politicas para a Presidente Dilma.  Um desastre pré-anunciado.

A autora enfatiza que Borboleta não é um tratado econômico “repleto de gráficos”, mas sua apresentação de uma historia cujo determinante fundamental foi a insistência da governante em não reconhecer seus erros e falhas inerentes em sua visão econômica e também politica.  Enfim, de acordo com a autora, a Presidente Dilma não foi inteligente e insistia em executar as regras da estupidez humana, na expectativa de obter um resultado diferente através repetição insistente das mesmas medidas que estavam dando errado.

Às vezes, para o leigo, e difícil distinguir com precisão as escolas e as matrizes que guiam um economista acadêmico como Monica de Bolle.  Creio, contudo, que se a grosso modo separamos ortodoxos e heterodoxos, Monica se situa no campo do liberalismo tradicional onde o mercado deve ser o determinante principal e não o estado intervencionista.  A Presidente Dilma, é claro, está no lado fazendo parte daqueles que desconfiam do mercado principalmente na situação de um pais em desenvolvimento e com um elevado grau de dependência de fatores externos.  Então, a grosso modo, Monica insiste em criticar Dilma por suas intervenções equivocadas enquanto que Dilma diz que está (ou estava) defendendo o pais e os menos favorecidos e marginalizados, que conquistaram um novo espaço com as medidas econômicas e sociais implementadas pelo governo do Lula e continuadas por ela.  Crise na opinião dela não seria por sua culpa, mas provocados pelas forcas retrogradas no Brasil, principalmente os financistas e rentistas e também pela crise do capitalismo mundo a fora.

Assim enquanto os ortodoxos pregavam austeridade, Dilma, Manteiga, e Nelson Barbosa promoviam a nova Matriz Econômica que visava a implementação de medidas anticíclicas de origem, a meu ver, Keynesiana.  Monica de Bolle não perdoa o que ela vê como prepotência da Presidenta.  Dilma depois de reeleita e mesmo com um Joaquim Levy na Fazenda insiste em uma politica fiscal insustentável e que resulta nas “pedaladas” fiscais, que eventualmente foram a justificativa, prima face, de sua degola.

Monica mostra passo a passo ao longo dos capítulos os anos 2011 até o impeachment em 2016, onde a triste figura de uma “Presidenta” se perde a partir da crise americana e europeia de 2008, que segundo Lula, tratava-se de uma “marolinha” no Brasil.  Ela e seu fiel escudeiro Ministro Mantega procuraram utilizar todas as alavancas para lidar com o fim do modelo Lulista, e também dos impactos do QE (quantitative easing) americano, do impacto na inflação, dos juros, das reservas, dos investimentos/poupança e da politica fiscal.  Mexe aqui, mexe ali e a economia continua encolhendo ate chegar a atual recessão e o quase inevitável impeachment.  De acordo com a avaliação no seu livro, Dilma, Mantega, Trombini e por Nelson Barbosa não acertaram nenhuma.

Embora o livro de Monica seja para o publico geral, não achei a leitura assim tão fácil já que ela introduz termos técnicos como dominância fiscal, erros de macro prudência e razoes de variação cambial.  Não são exatamente termos de fácil compreensão principalmente na forma que inter-relacionam.

As criticas à Dilma e seus (des) governos são diretas e sempre com embasamento nos resultados produzidos.   O governo da Dilma não teve uma politica econômica coerente e faltou habilidade em lidar com o Congresso e partidos políticos.  Ela interviu demais, descontrolando os indicadores e sinais do mercado. Por isto, ela acabou inspirando desconfiança, e como politica, foi antipática e teimosa, conseguindo desagradar gregos e troianos inclusive no seu PT.

Ate aí, tudo bem e representa o consenso pôs impeachment.  Mas a questão que emerge e que precisa de resposta é a seguinte:

Além do receituário liberal (austeridade, controle de gastos, menor intervenção, menos burocracia), o que faltou? No Brasil, o peso da cultura e do estado gigantesco nunca deixou os liberais a vontade.   Está surgindo no Brasil um vetor libertário, mas é´ algo meio estranho no contexto.  O Movimento Brasil Livre (MBL) e afins parecem mais uma minoria contestadora, querendo acabar com a corrupção, do que um movimento a favor do livre mercado.  Estes grupos parecem mais modismos vindos de fora, e não constituem um partido e/ou forma durável de representação.

Sucesso politico no Brasil depende tradicionalmente de populismo, e com políticos populistas no poder é praticamente impossível adotar as soluções de mercado que os ortodoxos como a Monica advogam.  O problema de desenvolvimento no Brasil acaba sendo não um problema de soltar o mercado e seus mecanismos, mas em resolver o quebra cabeça politico para poder soltar as chamadas forcas produtivas.  Mas as instituições são fracas, os partidos são veículos de promoção individual, ou apenas agrupamentos que buscam ganhos próprios e individuais ao modo do PMDB.  O PT em seus documentos e cartas seria um belo partido socialista, mas as ações individuais de seus principais membros denunciam qualquer feição socialista em nome do avanço individual encoberto em uma retorica social.

Mas a questão não é só´ político-econômica.  Recentemente, um outro economista, Alexandre Rands Barros, lançou o livro Roots of Brazilian Economic Backwardness (Elsevier, 2016) publicado em inglês.  Este sim é um tratado cheio de gráficos e tabelas, podendo assustar até os experts.  Mas basicamente Barros argumenta, diferente de Monica, que o atraso relativo do Brasil vem do problema histórico de formação de capital humano.  Quer dizer que mesmo se o Brasil operasse de acordo com as expectativas de economistas ortodoxos, ainda assim estaria atrasado.

Creio que o argumento de Barros não é novo e estudiosos como Claudio de Moura Castro e Simon Schwartzman, entre outros, tem pautado no mesmo sentido.

Sem entrar nos méritos acadêmicos, o que me parece interessante e misterioso no Brasil, é tentar entender como uma sociedade, com a herança de escravidão, racismo, corrupção, desigualdade, ignorância cultivada, elites distantes e arrogantes e um povo sofrido ainda consegue existir.  Como é que o Brasil ainda não entrou numa guerra civil aberta?  O que é o super-bond que segura?  Apesar do estado e sociedade em situação de falência, o Brasil ainda possui uma atração como um lugar que encanta pela beleza do povo, pela cultura, pelo potencial e até, pasmem, pela cordialidade.  O povo ainda se declara otimista e feliz.  Como? Por que?

Monica de Bolle, economista ilustre e excelente contadora de casos talvez esteja trabalhando numa historia ou conto, com final feliz, que venha a ajudar esclarecer o mistério.  Assim espero.

[1] Quando cheguei ao Brasil no inicio da década de 60, a bandeja com as asas encrustadas era um “souvenir” de praxe e demonstrava a abundancia do “exótico”.

Erros e Acertos nas Previsoes para 2015

Chegou a hora de avaliar os erros e acertos das previsões que fiz o ano passado. Aqui esta o link para minhas “profecias”:

https://allabroadconsulting.wordpress.com/2015/01/02/previsoes-para-2015-e-a-posse-da-presidenta/

Comecei o blog dizendo: “Por mais que a gente quer uma alteração de rumo, esta difícil enxergar o que pode mudar.” Como nada mudou, alias só piorou, acertei de cara.

Abaixo também cito as palavras ou promessas da Presidenta no seu discurso de posse. Ao que parece, ela ainda não cumpriu nenhuma e a idéia do lema de pátria educadora acabou banalizado com 3 ministros em 1 ano: Gomes, Janine, e Mercadante. Nenhum teve capacidade e/ou recursos para educar ninguém.

Teci previsões quanto a economia, a Petrobras e o setor primário. No geral, acertei.

A economia passou por um ano difícil com o PIB encolhendo mais de 3 por cento. Os preços de “commodities” (petróleo, soja, minério de ferro e celulose) caíram e o setor primário exportou em US$ aproximadamente 10% a menos em 2015 comparado com 2014. A Petrobras, que não quebrou (ainda), trocou de presidente e mesmo assim o valor das ações continuou caindo. Tenho amigos no mercado que acham que a PBR esta quebrada, e realmente estaria, se não fosse o “backup” do governo que não vai deixar o maior xodó do Brasil ir a bancarrota.

Errei grosseiramente na previsão de cambio. Sendo tímido e algo confiante no Real previ a mudança de 2.70 para apenas 3.10, ligeiramente acima de 10 por cento. Hora bolas, o ano terminou com o real encostando em 4 ou uma desvalorização de 50 por cento. Se 2016 for igual ou pior a 2015 então podemos esperar o real entre 6 e 7 em dezembro. Será?

Em principio, a desvalorização do real deveria ajudar as exportações mas como o Brasil exporta hoje basicamente commodities, os preços caíram e a demanda também. A industria que perdeu, ha’ tempos, seu mercado ainda não recuperou sua produção e nem seus clientes externos. Especificamente no setor automobilístico, o México já ultrapassou o Brasil em termos de produção e produtividade. Ai a falta de avanço acaba em atrasos e encolhimento de um setor que foi importante nas exportações e que hoje vai perdendo significância. O Brasil não produz exatamente “carroças” mas a produção não e’ de vanguarda e nem de altíssima qualidade.

Falei também de protestos e movimentos de rua. Tivemos sim, mas ainda não alteraram o quadro político. Ao final do ano, a movimentação de rua pro – Dilma estava talvez numericamente maior do que anti-Dilma. O povo esta cansado e resignado.

O ano passado, literalmente “achei estranho” que ninguém das grandes empreiteira havia sido preso. De repente no meio do ano, a PF prendeu Marcelo Odebrecht e outros executivos das maiores empresas de construção do Brasil. Então estava equivocado ou certo? Mais de seis meses presos sem acusação formal e negação de habeas corpus continua me parecendo estranho. Creio também que haverá algum tipo de leniência para os grandes empresários e Dilma já esta falando de um novo PAC de construção civil.

Transcrevo aqui as promessas que Dilma fez para o primeiro semestre de 2015.

  • transformar em crime e punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa ou não demonstrem a origem dos seus ganhos; 2) modificar a legislação eleitoral para transformar em crime a prática de caixa 2; 3) criar uma nova espécie de ação judicial que permita o confisco dos bens adquiridos de forma ilícita ou sem comprovação; 4) alterar a legislação para agilizar o julgamento de processos envolvendo o desvio de recursos públicos; e 5) criar uma nova estrutura no Poder Judiciário que dê maior agilidade e eficiência às investigações e processos movidos contra aqueles que possuem foro privilegiado. (Fonte: discurso de posse)

Como eu previ, nada disso aconteceu e nada esta na pauta do Congresso.

Finalmente, comentei a tentativa da Dilma em se afastar do Lula na nomeação dos ministros. O principal exemplo foi o Joaquin Levy que durou um ano. O substituto, Barbosa, embora não afiliado ao PT e’ muito mais próximo ao Lula e ao ex-ministro Mantega. Enfim, Dilma começou fraca e continua fraca e sem opções. Mas o pais também se ressente de alternativas e, a não ser que apareça uma prova contundente de corrupção da Presidenta, ela continuara ate o final.

Resumindo, acertei algumas e errei outras coisa. A avaliação pelo menos faz a gente refletir um pouco, para ver se apura as observações.

Previsoes para 2015 e a Posse da Presidenta

Arriscar prever o futuro e’ divertido: com o passar do tempo podemos sorrir um pouco com os acertos e fechar a cara com os erros. O discurso da Dilma ate’ facilita pela listagem dos tópicos. Então vamos la`.

Por mais que a gente quer uma alteração de rumo, esta difícil enxergar o que pode mudar. Apesar da nova equipe econômica ter uma formação tradicional e de mercado, dificilmente vão conseguir um crescimento alem de 1 por cento em 2015. O ano, conforme a Dilma e equipe, e’ de cortes e reajustes. As nomeações políticas para as estatais também pouco prometem. Petrobras esta sob pressão do mercado, a Graça permanece, o preço de petróleo em baixo e assim vai com os demais commodities. Ate a agricultura e setor primário vão ter problemas. Dilma colocou em ultimo lugar os EUA e Europa na lista de prioridades internacionais e os BRICs e países latino americanos faltam condições próprias de sustentar as exportações brasileiras. Então previsão, inflação na meta ou acima, sem crescimento. Agricultura e a exportação de petróleo, minerais, soja e de insumos industriais tipo celulose e ferro gusa não serao suficientes para reverter o quadro. O governo precisa segurar o cambio para ajudar controlar a inflação. Já estamos próximos a 2.70 por dólar e prevejo o cambio a 3.10 ao final de dezembro de 2015.

Sem crescimento, seria natural a expectativa da volta dos protestos como tivemos em 2013. Sinceramente acredito que não. Não ha por parte da base social; sindicatos, organizações comunitárias, CEBs etc. autonomia suficiente para contestar na rua. E’ certo que podemos ter protestos locais quanto a precariedade dos serviços urbanos, especialmente transportes, mas o movimento tarifa zero não tem base fora do meio estudantil e olhe la`.

Dilma propôs educação como lema do governo. Em principio achei bacana. Todo mundo concorda que educação e’ a base de tudo. Só que a indicação do Cid Gomes como Ministro, me parece, desmente tudo. Em primeiro lugar, se e’ o lema principal por que não um ministro do PT? Não tem o quadro? Não tem a pessoa? Gomes, embora talvez tenha feito algo para educação no Ceara e’, no mínimo controvertido. Não tem partido e minha amiga, grande educadora (Adriana de Oliveira Lima) apresenta serias restrições. Mais importante, e’que Dilma disse que os recursos para o setor virão do Pré-Sal. Se a Petrobras esta em plena crise de corrupção e administração e não tem recursos para investir, como e’ que vai sair recursos no vulto da necessidade. Ainda mais com o barril de petróleo a 60 dólares e o custo de extração do Pré-Sal (em termos de custo total) próximo a esta cifra.

Falando em corrupção. A reação tradicional seria que tudo vai terminar em pizza. Não acredito. Creio que fomos alem e pessoas graúdas serão julgadas e condenadas. Entretanto, vejo também uma massa (não exatamente pizza e Dilma sancionou o Dia do Macarrão) sendo feita. Odebrecht, por exemplo, a maior empreiteira, escapou de alguma forma, de ter um executivo preso. Achei estranho. Será que tem a ver com Mariel e dinheiro em Cuba?   Quanto as outras empresas, ha gente, sim, em risco mas também ha manobras legais contestando tecnicamente a forma da Polícia Federal conduzir as investigações. Como a justiça no Brasil e’ lenta e outras coisas mais, pode ser que alguns vão escapar com condenações amenizadas e outras “premiações” a mais. Dilma prometeu para o primeiro semestre 5 medidas ou leis que o Congresso precisaria aprovar e não vejo isto acontecendo. As medidas são:

1) transformar em crime e punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa ou não demonstrem a origem dos seus ganhos; 2) modificar a legislação eleitoral para transformar em crime a prática de caixa 2; 3) criar uma nova espécie de ação judicial que permita o confisco dos bens adquiridos de forma ilícita ou sem comprovação; 4) alterar a legislação para agilizar o julgamento de processos envolvendo o desvio de recursos públicos; e 5) criar uma nova estrutura no Poder Judiciário que dê maior agilidade e eficiência às investigações e processos movidos contra aqueles que possuem foro privilegiado. (Fonte: discurso de posse)

O Congresso para passar tais medidas estará se ferindo na suas fontes de renda.

Os ministros escolhidos pela Dilma são de acordo com os comentaristas de sua confiança e não são mais os “olheiros” do Lula. Mas tirando a equipe econômica, não ha nenhuma indicação de mudança qualitativa nos quadros. Pela primeira vez, ministro individuais foram vaiadas pela platéia que na sua imensa maioria estava presente por gostar da Dilma. O novo Ministro de Esportes faz parte da cota evangélica mas duvido que dure ate o final do ano. Colocar o Aldo Rebelo como Ministro de Ciência e Tecnologia joga para baixo a pasta que junto com Educação seria parte do lema Pátria Educadora. Não da para entender fora de um processo precário de acomodação política.

Bom, o ano passado arrisquei previsões esportivas e me ferrei. Brasil perdeu feio. As Olimpíadas vem 2016. Para a TV será um grande sucesso. Para o Rio de Janeiro também um impulso de imagem e auto-estima mas 2015 vai ser critico em termos de andamento das obras. Vejo mais estrutura temporárias e jeitinhos. O resultado vai ser um conta grande na frente mas como na Copa a festa será ótima.

Gostaria de ver meu Galo ganhar novamente Libertadores mas não arrisco garantir.

Finalizando, mais um ano difícil como 2014 mas no fim vamos sobreviver apesar da violência, da corrupção, dos impostos em alto, das deficiências do serviço publico e de todo o rosário de coisas negativas. Enfim, as pessoas se sentem felizes por estar no Brasil.