Dilma na California, Lula na Cadeia

 

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Photo by author April 18, 2018

Outro dia escrevi sobre Lula na cadeia e agora, ironicamente, assisto Dilma na Califórnia. Ela está fazendo um giro que inclui UC-Berkeley, Stanford e San Diego State University. Com certeza são bons centros acadêmicos e agregam núcleos de pesquisa que tratam do Brasil e da America Latina. Vale observar que Dilma, como militante, apresenta em locais acadêmicos. Na viagem não há noticias de encontros diplomáticos ou empresariais. É claro que no meio acadêmico e principalmente entre os estudantes, há uma simpatia pelo Lula e também pela Dilma, que se apresentam como vitimas de um golpe contra a democracia. Em Berkeley ela praticamente repetiu o discurso de Lula em São Bernardo. Pode-se prender o homen, mas não uma idéia. São vitimas do coup d’etat ainda em curso. E segundo a ex-Presidenta, sua queda virou um exercício de antropofagia onde o feitiço voltou contra o feiticeiro.  Temer, caracterizado durante o carnaval como Drácula sugando o sangue do povo, é um presidente sem popularidade.  Entretanto, Dilma omite o fato de que ele é presidente hoje pela a coligação PT-PMDB. Além disto, aparentemente ela é ambivalente com relação ao Aécio. O fato de que o Supremo o tornou réu esvaziou seu discurso de que a justiça só indicia um lado.  Ela soberbamente, está se mostrando confiante de que vencerá Aécio num eventual embate em Minas a um cargo no Senado.

Na sua palestra em San Diego, a ex-presidente enfatizou os seguintes pontos:

  1. orgulho de ser mulher, feminista e a primeira “Presidenta” do Brasil
  2. que ela foi vitima de um golpe parlamentar e que as “pedaladas fiscais” não eram diferentes de atos semelhantes do FHC e administrações anteriores e portanto não caracterizam motivo de impeachment
  3. o governo dela foi um governo popular voltado para diminuição da desigualdade e a promoção de mulheres e minorias
  4. o novo governo visa retirar os benefícios e fortalece uma direita violenta e corrupta
  5. Lula é inocente e popular, e que mesmo estando na  “solitária”,  irá vencer
  6. a polarização política agrava no Brasil. Não existe mais centro, apenas extremos. O assassinato da Marielle Franco é resultado do aumento de poder da extrema direita pelo governo atual.
  7. o PT venceu 4 eleições presidências e venceria novamente com Lula porque o seu governo e o governo do Lula foram bem sucedidos ao diminuir a desigualdade e ao promover melhoria e expansão na educação
  8. Ela e Lula representam o oposto do ódio da direita.  O golpe abriu uma “caixa de Pandora” onde as forcas do mal estão soltas.

No final da palestra não teve debate. Apenas foram apresentadas duas perguntas, a primeira lembrando como a Dilma foi um exemplo de uma mulher  que sobreviveu a tortura e a violência. A segunda pergunta tratou da necessidade de democracia.

Os “talking points” da Dilma tem fundamento mas também são sujeitos a contestação. No final, me sentimento foi de melancolia. Embora a Dilma pareça bem fisicamente, ela não cativa pela palavra. Ela não se abriu e nem ofereceu uma autocrítica. Ela não apresenta um programa além do reparo daquilo que ela percebe como injustiça.   Dilma não reconhece o esgotamento do programa do PT e nem a condenação de seus partidários por corrupção. Ela não menciona nenhum erro com relação a Petrobras e nem na promoção de grandes obras tipo Belo Monte que ameaçam o meio ambiente. Para a “ex-Presidenta”, basta o PT voltar ao poder para poder resolver os problemas do Brasil. Ela não quer tocar na perda de densidade eleitoral do partido e na falta atual de quadros. Ela não pautou a unificação da esquerda e só falou de raspão do PSOL quando mencionou a invasão do apartamento de Guarujá por militantes do MTST.

A platéia aplaudiu, teve alguns gritos de “Lula livre” e ai acabou. Enfim, viajou longe para pouca gloria e nada de novo.

Na minha opinião, o Brasil precisa de renovação.  A candidatura para o Senado em Minas é conveniente para Dilma, ja que sua eleição não representará nenhum avanço positivo, sendo apenas um ganho de foro privelegiado para si e nao para o Aecio. É certo que estamos ainda há seis meses da eleição, mas seria melhor se Dilma se empenhasse mais pelo Brasil.  Como, por exemplo, batalhar e pressionar o governo do Rio para desvendar a morte da Marielle, ou talvez simplesmente aquietar e escrever suas memórias para melhor explicar sua atuação e muitas contradições durante sua administração. Ai está minha melancolia.

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Photo by author: Membro da plateia 18/04/2018 San Diego State University

 

 

 

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Toma la, da ca

Os debates embora agressivos estao ficando enfadonhos.  Embora descritos nos jornais como o Fla-Flu, os embates sao previsiveis e ficam na mesmice dos ataques pessoais.  Mesmo as tentativas de levantar fatos novos, tipo Sergio Guerra levando bola de Petrobras, nao soam como novas.  Assim o mano a mano esclarece pouco.  Entretanto, creio que o importante eh que temos a eleicao em segundo turno que prova que as instituicoes politicas estao funcionando do seu jeito. Teremos um vencedor que sera empossado.

Agora, com certeza o “vitorioso” tera que alterar politicas para governar.  Esta claro que a Dilma perdeu a aura de tecnocrata competente.  Mas tambem esta claro que ha desconfianca em torno da competencia do Aecio para melhorar o quadro e oferecer algo realmente diferente.  Tanto a Dilma quanto o Aecio sairam manchados, depois de dar bracadas no mar de lama.

Quem ganhar vai ter a  dura tarefa de construir uma legitimidade mais ampla do que a base eleitoral de 50 por cento.  Nao sei se a Dilma vai ter energia para a tarefa.  O partido eh algo diferente de seus eleitores e o PT ja nao e o partido ideologico que era na decada de 80.  Hoje eh fisiologico como os outros partidos.  Para agradar e agradecer seus votos, a logica demanda que a Dilma continue fatiando o estado e dando emprego para seus “correligionarios”.  Penso que, possivelmente no seu intimo, Dilma queira resistir.  So nao sei se tem ou tera forca.

Aecio, por outro lado, tera um problema semelhante e, embora ele promete cortar pela metade os ministerios, a questao politica no Brasil sempre se resolveu no “toma la, da ca”.  Como eh que o Aecio pode resistir?  Ha uma mudanca cultural em curso mas eh muito lenta.  E ao que parece, corre a parte do Aecio.

O fluxo de demandas que afloram nos protestos eh frustado na eleicao quando o cidadao acaba elegendo os mesmo politicos ou o mesmo tipo de politico. Veja so os resultados no Congresso e nas eleicoes estaduais.  Mudar o quadro exige mudar o “status quo” e a mesmice so vai mudar com mais educacao no sentido de questionamento das posturas tradicionais.  Respeitamos a vontade popular manifesta na sabedoria das urnas mas desconfiamos ao mesmo tempo do outro lado, que vota no outro candidato.  E os politicos, uma vez eleitos, nao prestam mais atencao nos eleitores individuais mas so no seus cabos eleitorais e os “lobbies” que oferecem os recursos financeiros que influenciam a votacao.  Portanto, alem da melhoria de educacao (politica), precisa-se da reforma politica com o voto distrital e tambem a reforma do sistema de financiamento das campanhas politicas.

Como todo mundo esta, na linguaguem popular, de rabo preso, pouco vai acontecer.  Como disse o Darcy Ribeiro, o Brasil vai aos “trancos e barrancos”.  As mudancas estao a caminho mas ainda levam tempo.  A eleicao de 2018 vai ser mais importante do que a eleicao de agora e talvez novas liderancas melhores estarao surgindo.  A populacao, embora ainda joven, esta a cada eleicao mais experiente.  Isto eh bom.

Paciencia e profissao esperanca (ou sera que deveria ser “professar esperanca”).  Vamos entao, com expectativa e emocao, para o 26 de outubro e tambem para o dia seguinte quando veremos onde a porca torce o rabo.

Dilma: Estadista ou nao?

Na vespera, o quadro eleitoral esta chegando a definicao final.  Acredito que Presidente Dilma Rousseff sera eleita, proavavelmente nao no primeiro turno, mas praticamente, sem duvida, no segundo.

Entao coloco a questao:  Quem eh a Presidente Dilma?  Ela eh apenas criacao do ex-Presidente Lula marcando lugar ate 2018 e encarregada de encobrir os problemas estruturais que o PT nao ousou enfrentar?  Ou sera que ela eh realmente a pessoa integra,  com um grau de independencia e que, apesar das amarras politicas, ela podera combater os problemas mais obvios que afetam as pessoas diretamente no seu dia a dia. (Veja as manifestacoes de 2013)  Sera que ela tem a competencia e a vontade de mudar o jogo e realmente combater a corrupcao e reforcar a atuacao da policia e judiciario.  No seu primeiro mandato, pode se entender, que ela foi constrangida por circumstancias politicas.  Sera que agora, em segundo ato, ela podera desencantar e  enfrentar os desafios.  Talvez, articular uma nova base e reunir o melhor na administracao publica e no quadro politico (copiando a ideia da Marina?).  Assim ela podera ser a administradora da fama e atacar nao so a corrupcao mas tambem educacao, saneamento basico e infra-estrutura e quem sabe ate a reforma tributaria, politica e previdenciaria.  No Brasil, ha quadros competentes e nem todo mundo em Brasilia quer apenas a roubalheira.

Se a Dilma for um pouco estadista, e se ela for coerente, com seu proprio discurso (e ate diria: fama) ela pode ser realmente o instrumento util na criacao de uma nova mentalidade governamental.  Ela dara autonomia a policia federal.  Ela deixara de pressionar os tribunais e ela podera usar de uma forma legitima a postura da presidente como quem nao vai tolerar a corrupcao mesmo que seja no seio do proprio governo.  Em 2010, quando ela assumiu o primeiro mandato, ela conquistou espaco independente do Lula atraves da demissao de ministros e outros corruptos.  Hoje, ficou claro, que ela apenas arranhou o superficie.  Num suposto segundo mandato, ela tera que fazer muito mais.  A questao eh se ela tera a vontade, a energia e a possibilidade de escolher os auxiliares competentes e idoneos.

Os problemas economicos que ela enfrentara talvez vao empurrar na direcao de usar o combate a corrupcao como meio de ganhar legitimidade.  Talvez combatendo o que existe de podre lhe dara suporte popular mas assim ela podera apenas dar continuidade a uma administracao modesta como tem feito ate agora.

Se ela nao for estadista e continuar a ser apenas a presidenta comun dos ultimos 4 anos, ela continuara sob o dominio do sistema.   No maximo, apresentara pequenos curativos sem atacar a doenca principal.  Neste caso, o PT continuara lotando o estado,  e o status quo atual prevalecera.   Continuando sem mudar,  vao se agravar os problemas fiscais,  e vai ter problemas, possivelmente graves, com inflacao e crescimento.  A Dilma, eleita em segundo mandato tera oportunidade, mas o peso das herancas malditas (nao so do PT)  cerceara qualquer liberdade de acao a nao ser que ela encontra seu norte e crie seu novo espaco e uma nova imagem politica: alem  do combate a corrupcao, ela tera que fazer muito mais.   Tera que dar espaco para a policia e os tribunais inclusive fazendo nomeacoes de juizes nao comprometidos com a politica partidaria.  Mais importante ainda, sera ter um plano de governo que avanca na acumulacao de capital e investimento o que possibilitara a melhoria de infra-estrutura (mas de uma forma com mais controle e menos malandragem das constutoras).  Ela devera sair mais de Brasilia e articular mais ao nivel dos estados e usar sua autoridade moral de presidente para pressionar os politicos tanto governadores quanto congressistas.

A tarefa com certeza eh dificil mas o momento pode ser de transformacao.  Dilma, eleita com a maioria absoluta dos votos e, com margen razoavel sobre a Marina (ou Aecio), tera a legitimidade das urnas e um tempo para impor sua autoridade.  Ela tera que buscar dentro de si a forca da guerrilheira.  Sera que ela encontra?  Sera que ela quer?  E ainda tera que fazer a coisa certa e evitar erros como tentar ameacar com censura a imprensa.

 

Observacao editei o ultimo paragrafo e acrescentei Aecio, ja que hoje dia 5/10 ha a possibilidade (suprendente) dele superar a Marina.