Ruptura e Conciliacao

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Brasília – Para evitar confrontos entre manifestantes pró e contra impeachment a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal definiu divisão de espaço na Esplanada dos Ministérios (José Cruz /Agência Brasil)

Desde pelo menos os tempos do Império, o Brasil vive e existe como unidade graças ao poder das elites e sua capacidade de cooptar e reconciliar dentro da ordem política. As rupturas existem mas são superadas e com ligeiras modificações o status quo de antes segue existindo. Assim temos a passagem do Império para a Republica em 1889, a Nova Republica de 1930, a democratização pos guerra, o golpe militar de 1964, o re-estabelecimento do processo democrático em 1985 (Nova Republica), a eleição de Lula em 2002 e agora a provável derrocada da Presidente Dilma em 2016. As rupturas tipicamente são provocadas pela necessidade de absorver novos grupos, novas camadas ou pela exigência de modernizar ou adequar o sistema político e econômico. A historia demonstra a capacidade de manutenção e de acomodação. Ate a eleição de Lula pode ser vista mais como processo de continuidade do que de ruptura. Lula, com sua origem humilde, sua liderança sindical e como criador do PT, representou uma ameaça aos setores conservadores. E assim antes de assumir a presidência, ele escreveu sua famosa carta prometendo a continuidade de uma economia de mercado e a continuidade da política do Plano Real. Assim Lula “tranqüilizou” as elites nacionais e internacionais. E Fernando Henrique lhe passou a faixa presidencial, ate com certo orgulho, talvez misturado com desdém, assim abonando a passagem do poder para uma liderança trabalhista. Em pouco tempo Lula conquistou alianças com amplos setores conservadores da sociedade e ainda alcançou níveis ineditos de popularidade nacional e no exterior. Todos lembram que o recém inaugurado Presidente Obama tratou Lula em seu primeiro encontro como “The Man” ou “O Cara”.

O governo Lula, especialmente no primeiro mandato, aproveitou o terreno plantado e manteve consistencia na política econômica, favorecida tambem pela conjuntura externa e a demanda de “commodities” de exportação principalmente da China. Enquanto o bolo crescia de uma forma favorável as tensões entre empresários e trabalhadores, classe media tradicional e classe media nova, o rural e o urbano e as muitas demandas sociais foram acomodadas.   O carisma do Lula, sua capacidade política e a visão positiva dos BRIC (Brasil, Rusia, Índia, China) como novo pólo dinâmico da economia mundial, legitimou e permitiu políticas sociais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, alem de um amplo programa de obras voltadas para a Copa, as Olimpíadas e infra-estrutura, permitindo uma celebração da possibilidade de um Brasil emergente. Havia na superfície a idéia de que o “Gigante havia despertado.”

Nao obstante os avanços econômicos e a euforia do Brasil grande, os problemas e rupturas nao tardaram em aparecer. O mais obvio foi o escândalo do Mensalao que acabou engolindo o braço direito do Lula, Jose Dirceu que ocupava a Casa Civil. As investigações e eventual condenação do Dirceu levou Lula a optar pela Dilma como a sucessora capaz de continuar os programas de incorporação social e da extensão defato de direitos de cidadania para camada da população tidas como “marginalizadas”.

Na visão política ideológica do PT, o processo seria a conciliação de classes sob a liderança do partido dentro de uma visão nacionalista com controle sobre os mecanismos do mercado. O problema entretanto foi a necessidade de agradar gregos e troianos ou seja o mercado/propriedade privada (capital), o controle pelo Estado do investimentos e os lucros (“trabalho nacional”). Foi nesta dinâmica e talvez pela falta de visão, que emergiu o Petrolao. A ideologia do PT (e oportunisticamente também de seus aliados) justificou o assalto a Petrobras e outros setores do Estado, porque o partido necessitava avançar seu projeto de incorporação e conciliação de grupos que antes eram apenas caudatorios. Ha de notar aqui que alem da ideologia, ha sempre o tradicional cinismo. Assim, entre a necessidade de fazer o bem (avançar politicamente um projeto), juntava se o por que nao avançar também um projeto individual. Na palavras do Jacques Wagner, pessoas que nunca comeram melado acabaram-se lambuzando. Tragicamente, a acomodação e aceitação de um projeto político misturado com ambições pessoais acabou tragando e praticamente destruindo empresas tradicionais que nem sempre eram corruptas em sua cultura mas acabaram tendo que participar e assim também viraram corruptores.

Agora com a provável degola da Presidente com justificativas legais juridicamente questionáveis, fala-se novamente em rupturas e polarização total. O símbolo do momento e a construção da cerca no Planalto para separar a “direita” e a “esquerda”. Do lado da Dilma, acusa-se todos de golpe mas sem levar em conta uma autocrítica das manipulações (leia-se pelo menos parcialmente – pedaladas) que permitiram sua reeleição. Do lado da oposição, ha uma disparada descontrolada para retomar o aparato do Estado as vezes por motivos escusos. Os parlamentares que estão votando o impeachment são também investigados em grandes números e tem como líder o suspeitadissimo Eduardo Cunha.

Ha notadamente uma sensação no ar da necessidade de agir. Dilma nao resolve e nao consegue, ao que parece, nem com a ajuda do Lula articular uma defesa. Mas quem esta pensando no “day after”? Um impeachment agora representara uma ruptura. Senador Jose Serra já fala no fim da Nova Republica. E agora, Jose? Quem terá condições de liderar ou articular uma nova concialiacao?

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