Post-Election Brazil: Careful with the TP

It was great to be in Brazil for the second round of the presidential election and get a grip on the changes taking place.  I confess that I was surprised by the Captain’s election and from now on I will start referring to him as President Bolsonaro as a sign of my respect for the electoral process and the vote both of those who supported the number 17 and those who did not.

The reasons for President Bolsonaro’s striking victory have and continue to be discussed and explained extensively.  Suffice it to say that in spite of Mr. Bolsonaro’s personal drawbacks and defects, a substantial plurality of electors could no longer support the stench of corruption attributed to Lula and his PT.  Having said this, we still must remember that had Lula not been jailed, it is likely that he would have easily won the election.  Still, Lula was condemned with due process and Jair Messias Bolsonaro has been elected in an open and fair voting process.  He has the legitimacy of almost 58 million votes.

Today is the 15th of November and a holiday in Brazil commemorating the establishment of the Republic (by military putsch) in 1889.  The Republic sent the Emperor Pedro II into exile while promising modernity for Brazil.  Today, with President Bolsonaro and his personal penchant for the simple and traditional, Brazil once again illustrates its struggle to establish a coherent and acceptable identity.

Paulo Guedes, the chosen super Finance Minister represents contemporary liberal market acceptable trends countering the statist direction inherited not only from the previous PT governments but also much further back.  Sergio Moro, the national hero of the moralistic anti-corruption crusade, is the super Minister of Justice and promises to clean up the public and private sectors while attacking organized crime.  This too is an acceptable contemporary ideal.  Most curious, though, and perhaps the clearest example of the fight between the traditional and modern, is Ernesto Araujo, an almost totally unknown figure until last week.  Apparently, Araujo was chosen as Chancellor for his early support of Mr. Bolsonaro on the blog Metapolitica 17 Contra o Globalismo, as he was only recently elevated to the rank of Ambassador and has never headed an Embassy.  On his blog, a cursory and perhaps simplified reading shows Araujo as a Trump supporter, a nationalist, a Christian, and an ardent anti-PT ideologue.   One of the more radical quotations of Araujo’s writing currently making the rounds on Twitter reads: “I want to help Brazil and the world liberate themselves from globalist ideology.  Globalism is economic globalization that has come to be piloted by cultural Marxism.  Essentially it is an anti-human and anti-Christian system.”

It is not clear how Brazil’s Foreign Minister sees his role, say at the UN or in other multilateral agreements.  Given his praise of Trump, it may be that he will advocate for only bilateral agreements.  However, the larger question in the Brazilian context is what will be the face of Brazil?

Will there be a single conservative creed for the economy and for society?  What will this look like?  In spite of Brazil’s conservative mores, it is well down the road of globalized entertainment, social media and economic integration.  It seems that Guedes would open Brazil’s economy and Araujo might advocate the opposite.  Moro might combat corruption but also advocate for the protection of individual rights such as those of minorities.  Araujo might repeat Bolsonaro’s more radical rhetoric that minorities must fall in line and that there will be no more coddling of so called victims of racism or sexual discrimination.

These are just a few examples of not only the tensions in Brazilian society but also their manifestation within Bolsonaro’s own team.  I am pretty certain that there will be no “final solution” and I am encouraged by the memories of the resistance and opposition to the military dictatorship that could neither thrive nor survive.

After three weeks in Brazil with a week in Bahia, I trust that Brazil’s institutions will survive. But I would also like to see some basic improvements, which mysteriously have never taken place in my nearly 60 years there.  The picture at the beginning of this text tells us not to throw toilet paper down the toilet.  With all of its wealth, with all of its growth, with all of its worldly or global sophistication, the basic areas of sanitation, education and public health remain precarious.  Before being right wing or left wing, it would be nice to flush the toilet knowing that the sewage is not flowing directly into the street or the ocean.

Is the new administration up for this challenge?

 

Advertisements

Sintomas, Causas e Falso Dilema

1539543596-5bc3948eb702c_haddad_bolsonaro

Fonte Foto: Bem Paraná

Há hoje uma mistura estranha de euforia e desespero.  Os que apoiam o capitão reformado, Jair Bolsonaro estão felizes e esperançosos apos os resultados do primeiro turno.  Por outro lado, os Petista estão magoados por vários motivos, mas o principal é que o ex-Presidente Lula continua preso em Curitiba.  Mas a maior tristeza e por parte da grande maioria dos brasileiros que rejeitam os dois candidatos que vão para o segundo turno.

Forcados a optar entre um e outro na votação final, tudo indica que o capitão prevalecera com ampla vantagem.  A escolha de um candidato sobre outro, baseia-se na construção de uma narrativa que deve ter um certo fundamento racional, mas que é na realidade, sobretudo emocional.  As emoções viscerais que o brasileiro sente são:

Corrupção e roubalheira

Crime e violência

Desemprego e falta de oportunidade

Cada item da lista toca as pessoas no seu interior, no seu coração mais do que na cabeça.  E nitidamente todo mundo condena o roubo, a violência e as dificuldades de se arrumar na vida.  E a condenação vem de um sentimento de revolta com um sistema que aparentemente falhou.  As pessoas percebem que embora querendo trabalhar honestamente, não veem chance de progredir sem fazer ou sem aceitar aquilo que percebem como equivocado, errado ou errôneo.  Acabam por concluir que quem está mais errada e mais injusta e a classe politica que administra o pais.   Racionalmente, as pessoas reconhecem a necessidade de um poder publico ou de um gestor do bem-estar, mas na emoção rejeitam toda a classe politica e por extensão todos aqueles que talvez poderiam resgatar o pais desta situação.

Bolsonaro lidera, porque ele capturou e transmitiu bem o desespero e rejeição do povo, prometendo uma solução para os males que assolam o pais.  O candidato Haddad, por outro lado, também tenta apelar para a emoção invocando as lembranças já distantes dos bons dias da administração do Presidente Lula quando o Brasil “estava feliz” e o presidente operário gozava de seu 80% de aprovação.

Entretanto, os problemas de corrupção, crime e desemprego não são causas, mas apenas sintomas.  A corrupção e causada pela falta de transparência. As ações e infrações são feitas secretamente, sem o conhecimento e a revelia do povo.  E quando por ventura vem à tona, as instituições existentes ou são fracas e sem poder para inibir e punir.  Vale lembrar que crime não ocorre porque as pessoas são naturalmente más ou bandidas, mas porque aproveitam as oportunidades, sabendo que o policiamento é precário e a justiça não funciona. A questão do desemprego ocorre de forma similar.  O governo inibe investimentos com uma burocracia e um sistema de tributação excessivo. Os recursos arrecadados desaparecem antes de serem reinvestidos em benefícios prioritários como educação, saúde e segurança.

O que preocupa no Brasil de hoje são as emoções exacerbadas, a busca de soluções simplistas, e a falta de engajamento das pessoas na sociedade civil fora do período eleitoral.  A aceitação e passividade diante da agressividade da campanha, principalmente da direita, são notórias.

Por outro lado, o Brasil tem uma economia relativamente complexa, com uma população grande e em evolução, e com uma estrutura democrática. Possui eleições, liberdade de imprensa, direitos individuais, acesso (embora parcial) a propriedade e a ideia de prosperidade individual. Essas características e a possibilidade de novos partidos e participação politica com a ideia emergente de que mudanças são possíveis, constituem, em seu conjunto, fatores de alento.  Ao poucos os indivíduos vão melhorando sua educação.  Os próprios bandidos almejam uma vida diferente para seus filhos, e a corrupção e roubo não correspondem aos anseios reais e razoáveis das pessoas.  O sentimento de revolta e rejeição eventualmente levam ao reconhecimento de que as causas precisam ser endereçadas.  O sistema autoritário sempre tem um problema de sucessão.  As pessoas no Brasil hoje não acreditam piamente na democracia, mas quando chega a vez de substituir o novo mandatário, o pais ainda recorre as eleições.  As ditaduras podem durar anos, a economia pode empacar e perder décadas e as pessoas podem continuar analfabetas e ignorantes, mas este não é automaticamente o destino do Brasil.

Embora a escolha entre Haddad e Bolsonaro apareça como um dilema, mas não é.  Na realidade, são opções que retratam o estado da politica do momento. O que precisa ser feito depende das ações responsáveis de atores dentro dos parâmetros da sociedade civil em sua interação com as instituições. Neste processo, os eleitores vão escolher e de certa forma legitimar o eleito.   Mas o dilema real é descobrir como se educar e proporcionar saúde e segurança.  O dilema é prover saneamento básico.  O dilema real será achar a formula para deixar o mercado e a economia funcionarem num quadro de interesses encastelados dentro da maquina publica.

Infelizmente, nem Haddad e nem Bolsonaro tem propostas claras que lidam com os dilemas reais. Dai, a escolha entre um ou outro não é nada mais do que um falso dilema.

Entretanto, anular voto ou votar em branco não é boa solução.  Ao contrario, as pessoas devem escolher, nem que seja candidato “menos ruim” a seu ver.  E aí, depois das eleições, o vencedor terá que algo de legitimidade a manter e a sociedade civil tem que resolver assumir o mando sobre os políticos.

Reflecting in Tumult: Brazil’s Democracy and Election

Screen Shot 2018-09-29 at 21.56.28

Forty years ago this month, I had recently moved from Brazil to LA to start my doctoral program at UCLA’s Department of Sociology.  My scholarship from my employer, the Fundacao Joao Pinheiro, was modest but enough.  General Ernesto Geisel was the President of Brazil and the mood was for the struggle to end military rule and build democracy in Brazil.  Jimmy Carter, a former farmer and submariner, was the President of USA and the Shah of Iran had been overthrown and replaced by Ayatollah Khomeini.  Communism was still seen an imminent threat.

In the fall of 2018, Brazilians appear disappointed by their government and more importantly feel betrayed by the limitations and the results of Brazil’s democratic experience.  Fernando Collor’s presidency ended in impeachment, as did Dilma Roussef’s tenure. Scandals tainted Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) and seemed to worsen during Lula’s presidency (2002 -2010) but, nonetheless, were attenuated by his economic success and his enormous popularity.  He left office in 2010 with an 80% approval rating and was able to elect his successor President Dilma.

Through these years, Brazil has regularly held elections at all levels from municipal to state to federal, political parties of all stripes have been free to form and the press although heavily dominated by economic groups has been vigorous with a very free flow of opinions and ideas.

During these 40 years, Brazil’s population nearly doubled to 210 million and GDP went from 235 billion in 1980 to about 2 trillion in 2017 and this with the lost decade of the 1980’s with it hyperinflation which only ended with Plano Real in 1994.  Lula inherited a stable currency and a favorable international environment.  His promises and delivery of growth with redistribution resonated well throughout the country.   However, his anointed successor poorly managed the economy Brazil’s economy shrank significantly with only weak signs of recovery after her exit.

Throughout these decades of change, Brazil grew but failed to deliver in basic areas of education and infrastructure especially basic sanitation.  Brazil’s schools grew in number but declined in quality.  Sewage and clean water supply did not keep up with urbanization and demographic growth.  Similarly, Brazilians gained access to an industrialized food supply chain and became somewhat healthier while becoming obese.  Coincidence or not, this is the same period that McDonald’s and other fast food chains became predominant.

Even with the drawbacks, one might think that Brazilians would be proud of their accomplishments and supportive of a hard won democratic process.  This is not exactly the case.

Back in 1978, FHC was a leftist university professor with democratic ideals and a major advocate for change in Brazil.  Lula was a union leader about to found a political movement based on the working class in alliance with intellectuals and a portion of the middle class.  Both succeeded in being elected and reelected.

So what went wrong and why is it that Brazilians no longer trust the democratic process?  Why do they now provide substantial support to a Congressman with few accomplishments but who has positioned himself as a militaristic messiah. (Indeed his middle name is Messias and he retired as an Army captain.)

Some of the answers are straightforward.

1) Brazilians have become exasperated with crime and corruption and feel that only a “strongman” can provide a quick remedy.  The captain has captured this malaise.

2) Brazilians associate the political system with crime and corruption.  With a certain imagined nostalgia for the military past which most Brazilians cannot remember as they were too young.   Many fantasize that authoritarian governments actually controlled crime and there was little or no corruption.  Here the captain promotes and projects this false memory.

3) Brazilians seek out and vote for traditional political figures whom they perceive as being able to deliver immediate benefits as patrons.  Thus perceived personal contacts are thought to be needed for access to employment, schooling and basic improvements and even social welfare programs such as bolsa familia.  The captain states that he understand popular demands and that he can deliver.

4) Newspapers, TV, radio, religious organization and social media overwhelmingly promote and reinforce traditional mores, norms and values based on deeply rooted authoritarian and paternalistic modes of behavior.  Thus the father should earn and lead, the mother should engage in domestic activities and the children should be quiet and obedient to authority.  The captain notes his manliness exemplified by his male children noting that he only “weakened” once and produce a lone daughter.

5) Nelson Rodriguez noted the Brazilian inferiority complex (vira-lata) and this lack of confidence is often replaced by the belief in a strong, paternal, authoritarian figure.  The captain projects this image even telling his running mate, a general, to shut up.

6) Corruption derives from lack of transparency and weak institutions, which fail to inhibit misbehavior.  Moreover, both causes have distant historical roots and traditions.  Authoritarian figures are forgiven if they share in ill gain spoils or seem to get things done.  Thus the saying: “rouba mas faz”.  There is evidence of malfeasance in the captain’s past but he denies it. The popular news magazine Veja just published the records of his divorce where the wife gave numerous examples of theft or fraud.  It is ironic though that she has now recanted as she is running for office using the ex-husband’s name to piggy back on his popularity.

7) All in all, top down rigid power structures in a situation of gross inequality mediated by patriarchs and bosses has created a society of interlocking interdependency.  Power, resources and favors are mediated in real and imagined personal relationships as illustrated by the tradition of the “jeitinho” as a way of attenuating unequal and skewed social relations.  Each party is expected to know and assume its place in society and this placing is defined by both subjective and objective categorizations of dress, body language, race, color, hair and a never-ending gradation of physical and psychological factors.  The captain denigrates homosexuals, blacks, feminist and those who self-identify as minorities. He proclaims they must follow the majority and “accept” their subordination.

8) The lack of access to basics: equal rights, infrastructure, and education perpetuates the system and predisposes large groups of the Brazilian populace to an authoritarian temptation where a single figure appears to embody a promise of progress, dignity and security.  His vision is separate and unequal with each group sorted by gender, race, class, religion, wealth and attainment  When this occurs, it is obvious to Brazilians that the question: “Voce sabe com quem esta falando?” makes total sense.  The captain has always been quick to play the macho, powerful, self-righteous and self-serving white man identity card.  His family basically advocates shoot the black guy first and ask questions later.

These are the factors that contribute to the success of the “myth” and justify why people are now prepared to vote for the army captain in spite of his disdain for women, his racism, his homophobia, his violence, his lack of good manners and his questionable morality.  All of the negatives can be denied because he suddenly embodies a prototype that Brazilians clearly see in themselves.  Brazilians lack power, feel impotent, want change and see the captain as embodying their desire and capable of change.  Much like the Trump supporters in the US, Brazilians can now channel their unconfessed political incorrectness for all to see without shame.

Some things don’t change even after generations.  Messianismo simply reoccurs.

 

Licões de Capitão

Screen Shot 2018-09-16 at 16.34.01

 

O líder das pesquisas sem Lula ficou famoso e há muitos anos vem dando lições e parece que a plateia está gostando.  As aulas são simples e aqui vão 7 resumos:

  • O homem tem que ser macho e se proteger e preservar a família contra o mal
  • Há males na sociedade como bandidos, homossexuais, feministas e comunistas
  • Para se defender a sociedade, é sobretudo os homens/machos que devem se armar e não ter medo de se defender ou mesmo atacar quando o risco está presente
  • A ditadura ou melhor os governos militares foram bem-sucedidos e contribuíram muito para o desenvolvimento do Brasil
  • O uso da violência e ate da tortura e aceitável no combate ao mal
  • Como pregam muitos evangélicos, as mulheres devem submeter-se ao homem que é a cabeça do lar.
  • Só com autoridade, respaldado pela Forcas Armadas é que se pode combater o mal

A representação que o candidato da direita apresenta é de um homem de bem, um homem forte, um homem decidido, patriota e cristão que supostamente tem um passado sem maculas e que não faz parte da política corrupta tradicional.

O problema que vejo não é o “candidato capitão” em si.  O problema maior, que as pessoas, em sua maioria, não quer admitir, é que as lições do Capitão refletem muito bem a essência da sociedade brasileira no momento.  O ambiente é de medo, de pavor, da busca do bem e da busca de soluções imediatas.  O momento também é descrença, de ceticismo e de desespero.  Essa conjunção abre um amplo caminho apos mais de 30 anos de redemocratização, 16 anos de PT e 8 anos de democracia social do PSDB. Desses anos todos a interpretação fácil e aparente é que a democracia só resultou em corrupção e benefícios para uma elite política desacreditada e descomprometida com a realidade do dia a dia da população.  Pelo menos desde a eleição do Fernando Henrique Cardoso e depois do Lula e da Dilma a percepção é que nem centro esquerda e nem esquerda foram capazes de resolver as questões básicas de emprego, educação, saneamento básico e saúde.  Só se escuta que o pais foi saqueado, que nada funciona como deve e que não ha solução fora de um figurão forte.

Assim, o problema então não é o capitão em si.  O problema maior reside na sociedade que não tem mais paciência com o processo democrático e suas falhas e prefere aceitar os valores autoritários como alternativa dos valores liberais.

Diz a direita, que o PT e os partidos de esquerda querem implantar um regime comunista sem direitos individuais e com o controle do estado sob os meios de produção.  Diz a direita que a esquerda quer promover a ideologia de gênero, o homossexualismo, a liberação do aborto e a destruição do lar com mulheres que não respeitam os maridos e que valorizam seus próprios interesses acima dos interesses da família liderado pelo patriarca.  Diz a direita que os esquerdistas querem pedofilia e não a pedagogia tradicional.  Assim fala a direita e encontra grande ressonância com suas afirmações fantasiosas e mentirosas mas ainda engolidas.

Antes de esfaquear e talvez matar, outra vez, o capitão de forma figurativa, seria bom olhar o nível de crença e evolução da sociedade.  A eleição de uma chapa de oficiais reformados, ou seja, de uma dupla autoritária dará legitimidade e carta branca.   Aqueles que estariam no poder dificilmente vão aceitar as normas de convivência da sociedade liberal.  Eles estão mais aptos para apenas atacar aquilo que definem como o mal.  Quem não aceitar as novas regras terá que calar e consentir ou sair.  Em todo lugar, onde existem governos militares e/ou autoritários mesmo eleitos, a solução passa pelo ataque aos inimigos.  Infelizmente, a memória é curta.  As pessoas não lembram dos desaparecimentos, das perseguições, da censura, do medo e do controle arbitrário imposto pelos militares e seus fieis servidores civis.  Portanto a solução oferecida apenas engana sem resolver.

Às vezes, se progride e depois vem um retrocesso.  Por exemplo, Lula saiu do governo em 2010 com aprovação de 80% do povo.  E agora esta na prisão com uma taxa de rejeição em torno de 40%.  Muitos que adoravam Lula endeusam hoje o “mito”.  O Brasil com o PT entrou no retrocesso, mas a eleição de uma fantasia da direita não tem probabilidade de corrigir os problemas e se “endireitar” algo vai criar novos problemas e ate mais anarquia.

Tinha-se a ideia que o Brasil estava decolando economicamente e tornaria um pais democrático com mercado funcionando em harmonia com empresas estatais.  A partir da Dilma e especialmente seu segundo mandato, ruiu tudo.  Hoje não existe uma crença consolidada da possibilidade de uma politica democrática no Brasil e com isso o pais apela mais uma vez para seu passado autoritário.  E talvez pior, não há vontade entre os candidatos de qualquer lado de definir o modelo econômico que poderia ajudar na busca da democracia.

Muitos fecham os olhos, mesmo sabendo, que as ditaduras são arbitrarias e só funcionam em beneficio daqueles com acesso direto ao poder.  Mas como a ilusão é parte essencial da vida vamos as eleições.

 

Fogo Amigo: Comentarios

Aqui vai uns comentarios de meus amigos Laerte e Marcia, brasileiros recem chegados aqui nos EUA.  Tratam do meu ultimo blog de 8 de setembro logo apos o incendio e o ataque a faca.

https://allabroadconsulting.wordpress.com/2018/09/08/bala-fogo-faca-e-acomodacao-o-choro-e-livre/

Steve, comentários após conversa com o Laerte.

O texto é bastante emotivo e acho que reflete o sentimento de frustração de alguém que é de fora, mas ao mesmo tempo é tanto ou mais brasileiro do que muitos de nós.

O que está acontecendo no Brasil merece uma análise um pouco mais profunda do que classificar os brasileiros entre cordiais e não cordiais. O nosso país é uma grande mistura, sempre foi. A criminalidade está avançando, é verdade, mas não é apenas no Brasil. Todos os países da América do Sul e América Central estão sendo tomados por uma onda de violência absurda. Gangues e o tráfico de drogas estão por trás disso e o buraco é bem mais abaixo do que podemos ver – esse grande poder econômico está financiando os políticos e os governos e isso me parece um caminho sem volta. Eu não costumo ser pessimista, mas acho que eles vão tomar tudo. E os Estados Unidos que se cuidem.

Eu tomaria um pouco de cuidado com os termos superlativos (marquei no texto em amarelo) do tipo “nunca”; “inúteis”.

Acho que você tem toda razão quando diz que falta responsabilidade e podia explorar um pouco melhor esse ponto. Eu acompanho governo federal desde 1990. Participei de um programa de saneamento que foi super eficaz (conseguimos gastar os 500 milhões de dólares financiados pelo BID) em 215 obras de sistemas de esgoto pelo Brasil – foi um sucesso como modelo gerencial. Mas, e daí? as coisas não continuam. O assunto é entregue a políticos, a partidos que querem apenas usar o dinheiro em benefício próprio – nomear os companheiros e desviar. Essa tem sido a regra. O governo FHC também fazia, mas com um pouco mais de pudor…. escolhia certas áreas e entregava. Outras não. Deu no que deu: são já décadas de descaso com o saneamento, educação, saúde, segurança. Desses, acho que o assunto segurança é mais complexo porque vai além da gestão. É guerra velada. Eu vejo um modelo como responsável muito mais do que culpa de quem.

A pergunta “vai mudar algo” é muito complexa de se responder… o que vai mudar, depende de muita coisa… e não vai ser no curto prazo seja lá o que nos aguarda o futuro. Eu não concordo com a sua frase de que o Brasil assiste passivo e acomodado as coisas erradas que estão acontecendo…. há movimentos da sociedade importantes que surgiram nos últimos tempos, de protestos (MBL, Vem Pra Rua), de maior transparência (Observatório Social, Transparência Brasil), e outros tantos. A questão é que eles não têm força e ainda quando ganham essa força têm seus limites. E o limite está na caneta. Quem toma as decisões são os governantes. Um bom governo, com gestão mais técnica ajudaria muito.

Sobre o não funcionamento das coisas: acho que uma parte é reflexo do que eu chamo apagão da educação, que vem apagada desde a redemocratização. Entregar a formação básica para os municípios sem que se tenha dado condições institucionais para isso foi o maior erro que o Brasil cometeu. “Ah, mas precisamos descentralizar as políticas públicas”. Tá… se você quiser que eu cuide de 5 dos seus 10 filhos pra você enquanto você viaja, vai ter que me dar uma força para arrumar camas e pagar a comida deles! Isso foi o que não aconteceu no Brasil. Os municípios estão sempre em estado de penúria. A má qualidade na educação está levando para o mercado profissionais sem qualidade e o resultado disso é que tudo tem que ser refeito ou corrigido. A produtividade despenca!

Sobre os crimes sem solução: a justiça também está corrompida e não há um “ente” que possa fiscalizá-la! Quem é que vai dizer para o Gilmar Mendes que ele não tem legitimidade para soltar os bandidos que solta? Especialmente o “Barata” (de cuja filha ele foi padrinho de casamento) – o Barata é o dono das maiores empresas de transporte urbano do Ceará e Rio de Janeiro, conhecidas pela corrupção, formação de cartel e ineficiência.

Quando vc diz que o brasileiro assiste passivo e besta você está querendo chacoalhar o brasileiro ou ofender? Como brasileira, eu te pergunto: fazer o que? só podemos votar! Vc acha que esse tipo de frase ajuda?

Sobre reinar o pessimismo: é verdade, muito disso tem a ver com a esperança que os brasileiros depositaram nos governos de esquerda e o que receberam de volta foi a realidade do que acontece por trás dos partidos políticos e suas  coligações espúrias. Há o lado bom. Graças às investigações e o noticiário, finalmente o brasileiro pode entender como funcionavam as campanhas e as negociatas, a compra de votos, a troca de favores. Eu acho que na verdade tudo isso faz parte de um processo de transformação, doloroso, mas necessário. Hoje as campanhas já são financiadas de outra maneira, por exemplo, ainda que possivelmente haja dinheiro por baixo dos panos. Temos uma lei da ficha limpa que impede que políticos condenados em 2a instância se candidatem.

Sim, o Brasil continua cordial. Mas agora, as pessoas estão assumindo de forma mais contundente suas posições políticas. E estamos num momento de grande polarização. Como a criança que cai quando começa a andar, assim é nossa democracia. Nunca se discutiu tanto política, e isso tem sido feito de forma desequilibrada porque ainda não somos uma democracia madura. Muitas pessoas ainda vão morrer, árvores vão cair, porque é necessário, porque assim foi e tem sido com o resto do mundo. O que me diz dos milhões que morreram no regime nazista? E as centenas de milhares de sírios? E os 65 milhões de refugiados?

Assim caminha a humanidade, eu incluída, com minhas imensas dúvidas e muita observação.

 

 

Bala, Fogo, Faca e Acomodação: O Choro é Livre

_103254092__103271204_hi049028384-2

Foto: Reuters

O Brasil tem uma reputação de ser o paraíso cordial. Entretanto, está complicado.  Alem de milhares de crimes e homicídios anuais, os hidrantes para combater incêndios nunca tem água.  Desde meus tempos de menino, me pareciam inúteis. Faltava e ainda falta também o básico: saneamento, segurança, saúde, escolas e mais um pouco de tudo, principalmente responsabilidade.

Era uma vez, e o país estava em construção mas perdeu o caminho.  (Será que foi culpa dos ianques imperialistas e do ano 1963 quando cheguei?  Duvido mas tem gente que acha e querem que a culpa seja dos outros.) Será que foi quando Tancredo  morreu?  Será que foi o golpe?  Ou foi culpa dos Portugueses? Será que importa?

E as tragédias da semana chocam.  Mas dai?  Vai mudar algo?  O Brasil assiste passivo e acomodado o desaparecimento das florestas, a poluição das águas, o extermínio de culturas indígenas, o roubo dos bandidos, dos políticos, dos quem podem e muitas outras desgraças.  A polícia matou 5 ou 6 rapazes dentro de um carro no Rio o ano passado e não aconteceu nada.  A vereadora do Rio foi brutalmente assassinada e seis meses depois nada.  Um meliante idiota fugiu com um carro arrastando atrás uma criança que morreu triturado e nada.  Um atirador oficial de helicóptero matou um menino de uniforme escolar e nada. Você sai na rua e separa o dinheiro para o assaltante e nada.  Você paga um condomínio alto e o elevador não funciona.  Você paga impostos e cadê os serviços.  E nada!  O museu pegou fogo…outra vez!  E nada!

Vamos pensar bem.  O brasileiro assiste passivo, besta.  Não faz nada.  Será que é covardia ou só falta de opção.

Em menos de um mês vem a eleição, quando serão escolhidos presidente, deputados federais, senadores e governadores. O foco da campanha está na presidência, mas o que importaria em termos de mudança seria o Congresso e as Assembleias.  O Congresso não vai renovar e as poucas associações locais são pulverizadas, controladas ou sem densidade e recursos.  Reina o pessimismo e não sem razão.

Quantas pessoas precisam morrer?  Quantas arvores precisam cair?  Quantas pessoas precisam tornar vitimas?

Sim, o Brasil continua cordial, em família, na turma da praia, na mesa do botequim, na torcida do time, mas não abre a boca lá fora e não perturba, senão vai ser agredido talvez só verbalmente, talvez só na gozação mas pode ser também de outra forma.  Todo cuidado é pouco.

Tranca tudo a sete chaves e não confia em ninguém.  Talvez só Jesus salva mas desconfia do Bispo.  Enfim espera a eleição passar, prepare o passaporte e mala para escapar.  Leva sua idéia do Brasil contigo que a idéia no Brasil já não existe.  Veja se lá fora melhora e assuma a responsabilidade que ninguém quer assumir no Brasil.

E boa sorte que você merece por sofrer tanto!  Mas não se acomode mais.

Nada original, mas o choro é livre enquanto a gente reconstrói a esperança que a eleição deverá celebrar.

My Voters Guide to the Brazilian Elections

Screen Shot 2018-08-29 at 19.57.11

At the end of August, we are now a little more than 40 days from the first round of Brazil’s elections.  Here I want to focus on the presidential election and specifically the 4 leading candidates.  I am leaving ex-President Lula off my guide as, although he is seriously campaigning from his cell in Curitiba it is totally unlikely that he will overcome the legal obstacles impeding his candidacy.  Even so he is the elephant in the room and I will add a few comments on legitimacy and relevance.

The field is crowded and free television campaign time starts on Friday, August 31.  Traditionally time on TV has had a major impact on election results, however with the growth of social media and cable TV (which does not have to carry the campaign ads), many suggest a declining influence of this traditional medium.

The four leading candidates are: Jair Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes and Geraldo Alckmin.

Here’s why people will vote for them.

Jair Bolsonaro is from Rio and retired as Captain from the Brazilian Army.  He has served in Congress for over 20 years but has virtually no legislative accomplishments.  Instead he has become famous and has assumed the moniker- Myth- as he has successfully packaged himself as anti-establishment in spite of his track record.  He is most famous for his macho authoritarianism, his attacks on minorities and gays, his promise to arm the police, the army and the population so they can protect themselves from the criminal gangs and cartels that have taken over much of Rio.  He also affirms that he will eliminate corruption even though he has been accused of various levels venality, nepotism and illicit enrichment.

Bolsonaro represents a popular strain of Brazil’s dictatorial and militaristic past especially in Rio where the right wing has always been prevalent with active and retired military personnel.  Rio’s ongoing violence also makes Bolsonaro simplistic appeal to violent enforcement feel sensible in the absence of an effective state presence.  And as violence and crime are major threads running throughout the country, Bolsonaro’s chutzpah in selling his solution gains favorable repercussion.

Currently, he polls in first place with about 20% of the electorate’s preference.

Marina Silva, a former Senator and Minister of Environment under Lula polls in second place with 16%.  Ms. Silva ran for President in 2014 with the support of Brazil’s greens.  But she is also popular because of her background as a poor woman born in precarious conditions in the Amazon, and rose to prominence without cutting her roots.  Although she had been a member of Lula’s PT party, she separated herself and showed independence and strength in forming Rede, meaning network as a political party representing protection of the environment, Indigenous populations and at the same time a more market friendly approach to economic development.  In 2014, her running mate was the founder and president of Natura, Brazil’s biggest natural cosmetic corporation.  Marina, like Bolsonaro, is also an evangelical Christian.  While over 60% of Brazil’s population still define themselves as Catholics, evangelicals have clout disproportional to their numbers.  So Marina offers an image that Brazil’s masses can associate with.  At the same time, she has worked to become acceptable to elites by advocating for liberal, read less statist, economic policies and reforms.  She also is the favorite candidate among Brazil’s women voters.

Marina has around 12% of the declared votes when Lula is not among choices.

Ciro Gomes is a fairly curious candidate.  He has always pushed left leaning credentials but has moved in and out of over 8 political parties.  He served as a Minister under Fernando Henrique Cardoso who used to on left but is now considered a right wing “neo-liberal” and anathema to the PT and other left wingers.  Ciro also served as governor of Ceara, a state in Brazil’s northeast which while grossly unequal in wealth distribution, has made better progress in economic recovery than most of the rest of the country.  Typically, northeastern states are controlled by local oligarchs and Ciro Gomes comes out of this tradition.  Still he is tip toeing around Lula’s imprisonment and seeking to attract the votes from the poor and the northeast of Brazil that gravitate toward Lula.  One of his leading economic, yet populist, proposals is to reform Brazil’s credit rating agencies where many people in lower economic groupings: C, D and E have files disavowing their credit worthiness and thus limiting their credit and purchasing power.

Ciro is also notorious for shifting political allegiances and for being a loose cannon.  There are many popular You Tube videos of him cussing out partisans, opponents and just about anyone who crosses his path in an unfavorable fashion.

Ciro is polling in single digits at 9% of voter intentions.

Finally, Geraldo Alckmin, the ex-governor of Sao Paulo and soundly defeated (by Lula in 2006) presidential candidate is, almost by default, the PSDB or Tucano candidate.  All of Brazil’s presidential elections in the 21st century have come down to run offs between the PT (read Lula) and the PSDB.  The Tucanos only gained the presidency once with Fernando Henrique Cardoso.  Alckmin suffers from the lack of charisma and is viewed as a loser in presidential races.  He achieved the rare feat of receiving fewer votes in the run-off round in 2002 than he did in the first round.  He also suffers from the lingering effects of Aecio Neves’ defeat against Dilma in 2014 and Neves’ major involvement in corruption although he has been protected by his seat in the Senate and the lack of political will to pursue sitting politicians.  Alckmin has had his own brushes with corruption in Sao Paulo and is certainly viewed as the old whereas someone like Bolsonaro is perceived to represent a new path.  Still Alckmin is a competent politician and a fairly effective manager.  He has the support of business and will be unlikely to support anti-market and “creative” economic policies.  As a social democrat, it is fair to say that he is sensitive to Brazil’s gross inequalities but will try to correct them with market friendly policies perhaps similar to those that Lula actually pursued in his first term.  Alckmin has put together a political alliance with Brazil’s centrist politicians which gives him much more TV time than any other candidate.  It could also theoretically lead to a Congressional base that would allow him to govern.  Nevertheless, these traditional centrists are notoriously corrupt and self-serving and could abandon the candidate should he be elected.  Moreover, many see his centrist support as a compromise with tradition and corruption.

Alckmin is polling at around 7% and it remains to be seen if he can improve this with his free TV time and coalition support.

Of course, Lula is the elephant in the room.  From his jail cell, he has registered as the PT candidate and leads all polls and has actually become more popular since his imprisonment.  Nevertheless, the law is crystal clear that he cannot be a candidate as he has been convicted on appeal by the very legislation that he personally signed in 2010.  Oh the irony!  Still the problem is that the election without his participation risks illegitimacy and irrelevancy.  Unfortunately, President Dilma, even though incompetent, should not have been impeached.  Had Lula been tried while she was still president, his condemnation would be more favorably accepted even with the questionable evidence related to the apartment and purported bribe.  With Dilma’s defenestration and the subsequent failures of President Temer, the PT allegations of a political coup d’état designed to eliminate Lula and the PT as a force have greater meaning.

Although Lula is popular, he will not be able to transfer enough votes to his anointed successor Fernando Haddad who currently has less than 5% in the polls.

Elections should bring legitimacy and stability.  However, a cloud hangs over the October contest and Brazil will still have a tough future no matter who comes out with a victory.