Simples, Complexo e Complicado!

Rural Willys, Decada de 60, estrada e mecanica simples

O Brasil está cheio de problemas.  Nada de novidade!  Mas olhemos a evolução para tentar entender.

Do meu ponto de vista, o país passou do simples para o complexo num curto período, e a sociedade brasileira não conseguiu acompanhar a evolução.  Não tantos anos fazem, as coisas eram bem mais simples.  A ordem social era nítida.  Havia ricos, alguns no meio e uma grande maioria pobre.  Os com privilégios criaram um sistema bastante funcional para si e com uma aceitação razoável pelos de baixo.  A pobreza e o analfabetismo eram a norma.  O branco era branco e o preto era preto com algumas exceções.  Quem tinha educação superior era “doutor”, bacharel, ou medico.  Eram as profissões de prestigio.  Grande parte da sociedade era rural e vivia na dependência do patrão, do Senhor e a consequente relação patriarcal.  Quando havia um problema, recorria-se ao Senhor para resolver.  O homem era homem e tinha seus direitos.  A mulher seria sempre subordinada numa ordem natural das coisas.  Os varões eram criados para eventualmente assumir o papel do pai, e as moças esperavam casar-se com quem elas gostassem mas dentro dos parâmetros de raça e classe.  Quarto ano do primário bastava para grande parte da sociedade, e as mulheres mais ambiciosas poderiam cursar o normal para serem professoras.  Raras eram as mulheres que entravam na faculdade e, uma vez lá, eram vistas com desconfiança.

Tinha uma igreja, a Católica.  Cada cidade tinha seu padre e havia obediência a hierarquia clerical.  O Papa era supremo, com ordens de Roma de preferencia em Latim, que teria que ser interpretadas para os leigos.  Um protestante assustava e a reação intima era “Cruz Credo”.

O espaço dividia entre a casa grande e a senzala, e depois entre as casas da cidade com o barracão no fundo para os criados, e depois para os apartamentos com “dependência completa”.  Quem tinha carro e empregada domestica se distinguia do resto, que andava a pé ou de lotação.  Tinha o bom colégio, geralmente marista, e tinha as escolas publicas que eram para quem não podia pagar o particular.  A universidade mais desejada era a federal que era muito disputada e que só tinha na Capital.  As universidades católicas eram caras e expandiram mais tarde.

O namoro começava em casa sob o olhar dos pais e com sua aprovação.  Não se podia sair a não ser acompanhados.  Era normal a moca casar-se virgem e também normal o rapaz ter suas experiencias nas casas de tolerância.  Não havia divorcio e o homem podia ter, sem muito questionamento, seus casos.

Enfim ate mais ou menos 1960, as coisas eram bem simples, claras e de certa forma inquestionáveis.  A mudança veio com uma velocidade assustadora.  Dentro de poucos anos e a olhos vistos, a sociedade adquiriu uma complexidade, embora aceita de forma parcial  e ainda incomoda.  As mulheres ficaram independentes, a família ruiu, o divorcio passou a ser normal, o preto quis direitos, o pobre não quis ser submisso, os trabalhadores e pasmem, ate as empregadas, quiseram os seus com carteira assinada, férias e 13º. 

O sistema politico que tinha partido da monarquia e depois o republicano, foram seguidos de partidos de proprietários rurais, depois UDN com interesses industrias e urbanos, eventualmente surgindo de cima para baixo, um partido para quem trabalha, PTB. 

No século XX, os bacharéis, ciente de seus interesses, importaram uma estrutura republicana simples e moderna com três poderes.  Porem, espertamente se resguardaram, garantindo uma complexidade de operações e de legalidade, que só poderiam ser compreendidas por eles.  Ao mesmo tempo, enquanto a sociedade se transformava, o sistema educacional continuou separador e elitizante.  A universidade federal seria gratuita para todos, porem só as elites conseguiam ultrapassar as barreiras de entrada.

A população passou rapidamente de 50 milhões com a maioria no campo para 220 milhões com mais de 85% em densos centros urbanos.  A riqueza expandiu muito mais continuou extremamente centralizada e concentrada. 

Esse crescimento populacional súbito exigiu mudanças de comportamento e forcou a abertura para todo tipo de posicionamento individual.  Ganhou-se o direito de ser um “individuo” mas perdeu-se a identidade orgânica e coletiva da família, da igreja e do agrupamento social primário. 

De repente o Brasil passou de um país conhecido por sua democracia racial para ser considerado a terra que excluiu negros, índios e ainda as mulheres (principalmente as mulheres negras).  Ao mesmo tempo, abriu se o espaço para autoidentificação de gênero e orientação sexual.

Na aparência ou “para inglês ver”, os bacharéis criaram um sistema democrático, que resultou hoje em dezenas de partidos políticos, e ninguém entende o que representam.

Desafio aos meus colegas cientistas políticos a me explicar esse sistema eleitoral, que proporciona partidos tais que permitem que um Tiririca não só se elege, mas também puxa um bocado de correligionários.  O sistema jurídico, como parte do sistema criado também vai além da compreensão.  Quem é que pode explicar as decisões?  Um dia um politico ou um empresário recebe uma condenação e, em seguida, tudo é revertido. 

Enquanto isso, o pobre que vende maconha na esquina ou pratica um furto, acaba na prisão e muitas vezes não consegue nem ser julgado, e certamente sem defesa, já que ele dificilmente teria acesso a um advogado.  O presidente consegue tumultuar o processo e ameaça as instituições, e do outro lado, querem que as coisas mudem ou não, conforme o interesse e o politicamente correto do momento.

Enfim, do simples passou para o complexo.  Todo mundo de fora é burro.  Os cães ladram e a caravana passa.  Da para voltar para o passado simples?  Não, mas quem pode construir o futuro na santa ignorância?  Complicado, ne!?

Revolução, Golpe, Eleição e 31 de março

Num país como o Brasil, que não consegue encontrar o caminho para o desenvolvimento econômico e social, acabamos aceitando a falta de progresso e optamos por alternativas e saídas pessoais.  A perda de cérebros (brain drain) para o mundo desenvolvido é real.   Esta semana  em 31 de marco “comemora-se” 58 anos da intervenção militar que era celebrada com canhões e presidentes fardados.  O atual presidente Bolsonaro fará sua comemoração, trocando cadeiras entre os comandantes.  O ex-Presidente Lula e a oposição lembrarão dos anos de repressão.  A população geral gostaria de encontrar algo para comemorar (1 de abril?) mas em vez disto, enfocará  na “nova” inflação galopante  e dificuldades em todos os cantos.

Recebi a foto acima de um grande amigo,um pequeno empresário, que teve seu padrao de luz arrancado da parede, por um ladrão que roubou a fiação e o medidor.  E esta não é a primeira vez.  Será que meu amigo está se preocupando com eleição ou golpe?  Não creio. Ele só quer trabalhar com uma certa segurança e previsibilidade. 

A falta de recursos basicos define a pobreza e o subdesenvolvimento.  Há milhoes de pessoas que trabalham, que querem trabalhar, que querem estudar e que desejam coisas fundamentais como andar na rua sem ser molestado ou ter dinheiro suficiente para comprar pão, leite, arroz e feijão.

Para meu amigo, não adiantara chamar a policia.  Pelo menos não foi um assalto violento, o que tambem ocorre, e o prejuizo ele vai conseguir reparar.  O problema, entretanto, reside  na natureza correiqueira do evento.  E pior,  eventos desagradaveis de todo tipo continuam ocorrendo aparentemente com uma frequencia cada vez maior.

Critica-se tudo e todos mas não ha uma reação coletiva, que altere a situação.  A direita pode pedir a volta dos militares e armar a populacao toda, num faroeste de cada um por si e sem Deus no pedaço.  A esquerda pode contemporizar e culpar o governo, mas o fato é que a mesma situacao pendurou e piorou durante seu periodo de governo. 

A polarização política e a acomodação acabam sendo o resultado.  Entretanto, não adianta fazer revolução e nem golpe.  Em vez disto, a única alternativa é a de recomeçar.  No caso do meu amigo, ele vai comprar um novo padrão e fios.  No caso do Brasil, todo mundo vai ter que levantar e procurar como sobreviver.  Na política, vai ter a eleição e o resultado, embora mais ou menos previsivel, não vai resolver o problema, mas é o único passo que existe e vamos ter que arcar com o resultado.  Enquanto isso, ao poucos as pessoas vão tentando dificultar a vida dos ladrões tentando se proteger mais e aos seus bens, até mesmo um padrão de luz, que nao e facil de se roubar.  Ao mesmo tempo, tem-se que lutar para por os filhos na escola e reclamar por um ensino decente.  Tem-se que lutar pelo SUS, tem-se que preservar o que funciona e continuar acreditando nos centros de excelência, empresas sólidas e íntegras , que fucionam e produzem e indivíduos  sérios e honestos

Entretanto, apesar deste contexto negativo,  há condicões de mudancas positivas, embora trabalhosas..   Será necessária  a reversão de tendencias, e talvez  também  da revisão da prática politica,  com significativa participação democrática, pois sem ela, nada é possivel.  Então vale lembrar-se bem de 1964, de suas consequencias, para entao procurar um projeto ou um político, sabendo que tudo tem consequencias mesmo que imprevisiveis e não antecipadas.  Recordamos também dos eventos mais recentes, incluindo a corrupcao, que quase afundou a Petrobras, atingiu politicos e quebrou empresas “campeãs”.  Há que se lembrar ainda dos acertos e fracassos na abordagem legal, e da minima evolução cultural, dentro de uma estrutura institucional precária e incompleta.

Logo virá a eleição e, embora exista o cinismo corriqueiro, o voto com consciencia (em evolução também) torna-se fundamental, para a construção das possibilidades e a redução dessa polarização, que nada traz de positivo.

Existe todavia, um consenso geral, onde acredita-se que:

  1. O Brasil tem que melhorar a educação;  
  2. A economia tem que ser  mais competitiva e aberta a concorrencias;
  3. O Brasil tem que proteger o meio ambiente e a Amazonia no curto e  longo prazo e
  4. O Brasil precisa de reduzir a miseria e atenuar a desigualdade.

Se o Brasil conseguir ao menos canalizar o desejo coletivo em torno de 2 ou 3 destes argumentos, podemos garantir que, com o tempo, meu amigo deixará de ser vitima de roubos e pequenas agressoes,  estancando aos poucos a roubalheira e corrupcao de escala,  que não serão mais aceitas com tanta resignação.  Será que isto é pedir demais?

Nao Precisava!

Será que é possível fugir do destino?  Tragédias acontecem e muitos dizem que são fatalidades e impossíveis de evitar.  Um país, um povo, uma família, um individuo pode fugir e alterar o seu futuro? Pode-se evitar algo que está previsto ou fadado?

Olhando a destruição de Petrópolis, chegam as indagações.  Mas por que questionar e debater se os desastres são sequenciais, acontecendo com frequência? Será que são nada mais que manchetes do dia sem ação consequente?  Uma reportagem demonstra que segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas quase 4 mil pessoas foram mortas em deslizamentos de terra no Brasil nos últimos anos.  Aqui esta o link: https://www.dm.com.br/brasil/2022/02/desde-1988-brasil-soma-quase-4-mil-mortes-em-deslizamentos/#:~:text=Quase%204%20mil%20pessoas%20j%C3%A1%20morreram%20por%20causa,Petr%C3%B3polis%2C%20na%20semana%20passada%2C%20nem%20entram%20nesta%20conta.

Em vez de simplesmente aceitar as tragédias, não seria o caso de pelo menos questionar, com o intuito de remediar ou evitar.  Mas no Brasil, as coisas acontecem e as pessoas processam as perdas sem reclamar ou revoltar.  A logica disso é que não adianta “dar murro em ponta de faca” e assim os sem recursos acomodam, choram suas perdas e por vezes sentem uma revolta interior.   Por outro lado, os com recursos lamentam mas não fazem nada ou simplesmente fecham os olhos.

Veja que além dos deslizamentos causadas pelas chuvas, há os desastres causados diretamente por atividades econômicas.  Os mais notáveis, mas não os únicos, foram as minerações de Mariana e de Brumadinho.  Ambas em Minas Gerais e cada vinculada ao uso de tecnologias de represamento ultrapassadas que resultaram em centenas de morte diretas e milhares indiretas com a devastação quase total do meio ambiente e de vidas ribeirinhas em grandes áreas geográficas.

Pode-se adicionar ainda as mortes pela pandemia.  Já são mais de 600 mil e talvez atingem 700 mil ainda em 2022.  A morbidade poderia ter sido menor se houvesse mais agilidade no reconhecimento da importância da vacinação e mais eficiência na compra e distribuição das vacinas.

Tratando do Brasil, pode-se construir fácil o muro de lamentações.  Nem mencionamos a violência, crime, e agressões diárias que ocorrem.  Nas reportagens e mesmo nos estudos mais analíticos, é comum apontar a responsabilidade do governo ou da administração publica.  Claro que o cidadão deve cobrar dos governantes mas como os eventos dramáticos são recorrentes, temos que questionar o por que?  Por que que o individuo sem nada, sem recursos e sem instrução pode ou deve exigir algo de um prefeito, deputado, governador ou politico ou administrativo qualquer?  A resposta de quem detém as chaves geralmente é bater a porta na cara do pedinte, chamar a policia ou mandar preencher um formulário.  Conclusão: pouco adianta reclamar.

Em termos de extrema simplificação, o problema reside no subdesenvolvimento.  Detalhando um pouco mais, pode-se dizer que é a falta de recursos ou pobreza.  Mas no Brasil, os recursos são abundantes e comparando o Brasil com digamos Coreia do Sul, o Brasil continua subdesenvolvido por opção.  A cultura elitista aceita e promove a ignorância.  A educação de base e a educação para o trabalho sempre ficaram em segundo lugar aos interesses de quem quer empregadas domesticas e mão de obra para lavar o carro.  O “povão” até que quer educação e enxerga a escola e instrução como meio de ascensão.  Entretanto, o acesso é difícil e a qualidade, para quem não pode pagar, não existe. 

De forma semelhante, enquanto existem algumas normas e padrões que organizam as cidades e o espaço urbano, elas não são observadas na vida dos pobres.  Há anos existem estudos que demonstram a precariedade geológica, a intensidade das chuvas e os perigos de deslizamentos.  Entretanto, a cultura de elitismo, desleixo, transferência dos problemas, e a ignorância construída resulta de forma recorrente em tragédias que são aceitas ou descritas como fatalidades.  A verdade é que são criadas e construídas mas plenamente evitáveis.

Toma-se o caso das minerações.  Em Brumadinho e Mariana as grandes companhias Vale, BHP, Samarco e outras agem na extração e venda de ouro, ferro, bauxita, nióbio, diamantes e outros produtos.  Embora propagam que são verdes, sustentáveis e exemplares de segurança, os eventos dramáticos demonstram justamente o contrario.  Como as empresas pagam grande fatia de impostos, sendo contribuintes principais para os cofres públicos, elas têm uma influencia desproporcional e as entidade do povo, do cidadão e de cidadania não tem recursos para concorrer ou contestar.  O rompimento das barragens, os deslizamentos, e grande parte das mazelas refletem um desleixo e falta de interesse, não só das empresas, mas da sociedade.

As desigualdades criadas no mercado, a falta de mobilização politica e de comunidades, a ignorância de como lidar com a burocracia e mais as dificuldades rotineiras de simples sobrevivência impedem que os pobres e os marginalizados conseguem os recursos necessários para melhorar.  A iniciativa individual e até coletiva acaba sendo atolada pelas estruturas de poder.

A mistura de um estado captado por interesses financeiros, agros e industrias, com uma sociedade civil de baixa grau de instrução e preparação e mais uma cultura patrimonial que ainda tem um certo poder de cooptação constitui a formula para a perpetuação de desastres previsíveis.

No Brasil, falta entre os poderosos a noção de nação e coletividade.  Reina a ideia que as coisas não devem mudar e que a mudança representa uma ameaça.  E assim continua a resignação, a acomodação, a preguiça, a falta de iniciativa e claro as tragédias e vidas perdidas.  Não adianta procurar heróis entre a elite, os políticos e os poderosos.  Triste destino!

Previsões e Justificativas – Brasil 2022

Recentemente postei minhas previsões anuais para o Brasil em 2022.  (https://allabroadconsulting.wordpress.com/2022/01/21/11-predictions-for-brazil-in-2022/.

As Ideias projetadas aqui, poderao ser confirmadas ou não no desenvolver do ano.

Assim ficou previsto no blog:

Previsão 1:  Lula deve ganhar a eleição, em segundo turno, pelo seguinte: Lula comunica melhor do que qualquer outro candidato e tem base e partido organizado.  Ele tem carisma e apesar de ser idoso, possivelmente corrupto ou muito corrupto, mordido pela mosca azul e com tendências e pressões dos Petistas mais “radicais”, ainda é o politico mais popular.  Claro que ele tem um nível alto de rejeição, talvez em torno de 40%, mas Bolsonaro também tem e além disso, lhe falta popularidade por se apresentar como um machão tipo canalha que agrada apenas talvez 25% da população.  Portanto, ganhará quem o povo gosta mais.

Previsão 2: Alckmin como Vice.  Não está totalmente confirmado ainda mas ser vice encanta o ex-Tucano que tem gosto pelo poder.  E ele ainda representa politicamente, mais ou menos o equivalente a “Carta ao Povo” de 2002, que equilibra um pouco o excesso de estatismo e esquerdismo do Lula e a pressão do PT com o projeto de poder hegemónico.  Porem Lula, normalmente pragmático e cartesiano, especialmente em se tratando de sua eleição, usará seu domínio sobre os quadros do PT, para impor sua vontade.

Previsão 3: Trata-se da família Bolsonaro.  Basicamente o Capitão estará fora do poder, mas seus filhos continuarão em cargos eletivos.  Carlos como vereador ou outro cargo, Flavio no Senado e Eduardo como Deputado Federal.  Mais importante será a continuação do “Bolsonarismo” como movimento pautado numa suposta moralização, apoio as milícias e elementos da policia militar, uma agenda de segurança publica pautando armas para a população, e a utilização de recursos naturais, sem muita preocupação com o futuro ou o meio ambiente e as populações indígenas.  Um fracasso (repetição tipo Dilma) de um governo pós Bolsonaro abrirá caminho para a volta da família e/ou seus representantes.

Previsões 4 e 5: Não haverá golpe.  Bolsonaro fez muita coisa material para os militares.  Eles foram preservados na reforma da previdência, seus saldos foram reajustados, na media, mais do que o resto dos servidores públicos, não perderam vantagens conquistadas como a aposentadoria para as filhas solteiras.  Ademais, ainda há entre os oficiais mais graduados a noção das FFAAs como instituição de Estado e não de Governo.  O alto comando manterá a instituição e conseguirá se defender e se aprumar sem o custo da intervenção direta, e isso, mesmo num governo de “esquerda”.  Assim os militares vão aceitar um governo Lula como tão ou mais previsível do que o governo Bolsonaro, assim engolindo o sapo, mas cozinhando ele antes.

Previsões 6 crescimento, 7 inflação e 8 juros:  Conjuntamente pode-se justificar da seguinte forma: a. O país não vai crescer, porque não tem investimentos; b.  O governo, que é o principal motor, está quebrado; c.   O orçamento para 2022 está voltado para atividades de sustentação (folha de pagamento, seguro social, aposentadorias, pagamento de juros, etc.) e o pouco que sobra de investimento está sendo direcionado aos políticos basicamente do Centrão para obras locais. Veja o comentário de Paulo Paiva, ex-Ministro de Trabalho: “O orçamento público é um espelho refletindo o descompromisso das políticas públicas com o crescimento econômico. Políticos, corporações públicas e empresas privadas disputam entre si os recursos públicos, sem nenhuma preocupação com o impacto da ação do Estado no bem-estar da população.”

A ideia do Bolsonaro é conseguir os votos para sua reeleição.  A iniciativa de conquistar ou comprar políticos nada mais é clientelismo e não gera um efeito multiplicador na economia.  Haverá leiloes para obras publicas e tentativas de privatização mas os atrativos são pequenos e as resistências do setor publico são imensas.  Sem duvida, com o crescimento da economia mundial e a instabilidade politica, já ha o aumento do preço de petróleo que também contribuirá para uma inflação alta.  Isso indica um bom ano para Petrobras, embora ela ainda esteja se recuperando, depois do desastre do governo Dilma, portanto grande parte do dinheiro que entrara terá que ser aplicado para sanar dividas e não investimentos.  Com isso a previsão e de crescimento de 1% do PIB e inflação a 10% ou mais, ou seja: “Estagflação”: inflação da moeda, estagnação da economia.

Bolsonaro está usando manobras políticas e econômicas para fingir que não está rompendo o teto de gastos, mas os aumentos concedidos com fins políticos para os militares, o setor publico, policiais e políticos não têm lastro.  É verdade que o tesouro teve uma receita recorde mas grande parte do aumento da arrecadação deve-se a inflação, com um efeito cascata de custos e preços.  O Banco Central elevou os juros de 2% para 9.25% no ano 2021.  Assim o país voltou para os “bons tempos” da Dilma e taxa de inflação de dois dígitos.  Nos EUA, os juros da FED (Banco Central Americano) também vão aumentar a partir de março. Isso terá impacto negativo no Brasil e implicara na desvalorização do Real e a importação de inflação vinda de fora.  O aumento dos juros eleva o custo da divida interna e assim alimenta mais a inflação.  O filme passa em reprise e o Brasil sabe que o mercado, para se resguardar, transfere o peso da inflação para quem não tem como se defender. 

Previsão 9 investimentos: Diante da eleição e a dificuldade de prever o resultado, os investidores preferem esperar pela definição e saber para que lado andara a politica.  Assim os investimentos estrangeiros  entrarão para as atividades de empresas já existentes e com pouca atividade nova ou “green field”.  Por exemplo, os Chineses, continuarão investindo em linhas de transmissão ou atividades extrativas ou primarias.

Finalmente, itens 10 e 11: COVID e Diáspora.  O negacionismo do governo continua e, apesar disso, a população procura os postos de saúde e se vacina.  O que parece é que a população preza o SUS e lembra de campanhas bem sucedidas de vacinação com resultados positivos.  Assim quase 70% da população tem 2 vacinas e a grande maioria quer o “booster” e apoia a vacinação de crianças.  Além disso, a expectativa é que a energia do vírus acabara, uma vez que, não tenha mais a massa critica a infetar.  Espera-se que, até os meados do ano, pode-se viver sem o vírus ou pelo menos conviver com ele já com seus efeitos atenuados e administrados.

Enquanto isso, o Brasil com a população de 220 milhões participa das correntes migratórias mundiais.  As pessoas mais pobres nos países mais pobres querem ir em direção às oportunidades e recursos.  Atualmente, só nos EUA, há algo em torno de 2 milhões de brasileiros imigrantes legalizados ou não.  Com isso, a migração vai continuar por corrente onde os amigos e parentes puxam os novos.  Ao mesmo tempo, os problemas previstos nos itens acima “empurram” outros imigrantes para fora do pais, que tentarão uma vida tida como mais promissora.  Consequentemente, outros milhares serão novamente detidos nas fronteiras dos EUA.

Enfim, 2022 será mais um ano sofrido e inquietante.  Faltou prever aqui como o Brasil terminará a Copa Mundial em Qatar.  A ver, fica para os mais sábios e “espertos”.

11 Predictions for Brazil in 2022

Every January, I post a series of predictions for Brazil’s year.

Here is the link to last year’s forecasts: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2021/01/21/11-predictions-for-brazil-2021/

I also a post an evaluation of how my prognosis turned out. Here is the evaluation for last year: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2022/01/05/projections-and-corrections-how-did-our-brazil-predictions-for-2021-turn-out/

Politics

  1. Lula and Bolsonaro will reach the second round and Lula will win the Presidential election with 54% of the valid votes.
  2. Lula’s former and vanquished opponent in 2006, Geraldo Alckmin, will be his Vice-President.
  3. While Jair Bolsonaro will not be reelected, his sons and ardent followers will continue to occupy elected posts.  Flavio is currently a Senator and will not stand for election, while Eduardo will be reelected to the House and younger brother Carlos will also be reelected to the Rio city council if he chooses to run again. 
  4. Any attempt by Bolsonaro to remain in power through a coup or putsch will be unsuccessful as he does not have the undivided support of the military.
  5. While harshly critical and suspicious of a new PT administration headed by Lula, the military will accommodate as they did in the previous left-wing administrations.

Economics

6.Brazil’s GDP will not grow more than 1% in 2022 due to instability and wait and see attitude created by the election.

7. Inflation will continue above 10% as the government will increase electioneering and spending.

8. Interest rates will rise at least two times and reach 14% percent.  However, the Central Bank will not lose its independence.

9. Foreign Direct Invest will be less than 60 billion dollars in 2022 and will favor telecom with 5G and oil, gas and alternative energy and infra-structure.

Covid and General

10. Brazilians already with a vaccination rate of 70% will continue to seek the jab, boosters and reliance on the public health system and Covid deaths will top out at less than 700 thousand total for the pandemic.  By the end of 2021, there were already more than 620 thousand deaths attributed to COVID.

11. Brazil will continue to suffer from a brain drain and diaspora.  As in 2021, more than 40 thousand Brazilians will be detained at the US southern border for attempting illegal entry into the US.

Projections and Corrections: How did our Brazil predictions for 2021 turn out?

Every January, I post a blog trying, based on my experience and background, predicting economic moves, political changes and sometimes election results.  Here is the link to last year’s predictions summarized in 11 points.  https://allabroadconsulting.wordpress.com/2021/01/21/11-predictions-for-brazil-2021/

I also published a longer piece showing the reasoning or the whys and wherefores of how or why I forecast the stated outcomes.  My predictions seek to be objective and thus can be measured in terms of a concrete outcome which can be shown.

Here is the link: https://allabroadconsulting.wordpress.com/2021/01/21/2021-brazil-unfortunately-more-of-the-same/

Of course, we are still suffering in Brazil the ravages of Covid.  That certainly was the big surprise of 2020, but obviously had to be taken into account in 2021.  Unfortunately, Brazil passed the ghastly mark of over 600 thousand fatalities attributed to the virus.  I confessed that I did not foresee 200 thousand deaths in 2020 and still cannot process the additional 400 thousand added in 2021.  Brazil was ravaged.

Looking at list of 11, my first prediction was that Bolsonaro would remain in office and not be impeached.  On that count, 1 for 1.

My second prediction dealt with Covid and the continuity of the pandemic and its management or mismanagement.  I was not foolhardy enough to predict a vaccine or the number of additional deaths.  I did say the General Pazzuello, the Health Minister would fall and indeed he is gone and not much missed.  So, correct on this point.

My third prediction dealt with the economy and the growth of the GNP or gross national product.  I clearly stated that Brazil would grow less than 1% and was wrong.  Although Economic “Czar” Guedes had long predicted a V shaped recovery and growth of 5%, he proved to be more prescient and better at taking into account the growth after the pandemic related shrinkage in 2020 plus the impact of the spending program and major transfer of funds through what used to be Bolsa Familia (Family Fund Program) and later rebranded Auxilio Brasil (Brazil Support).  While the final numbers have not yet confirmed, Brazil’s economy did grow at around 4% in 2021. So my mistake and 1 big wrong on this basic economic indicator.

Still on the economic front, predictions 4 and 5 dealt respectively with unemployment, inflation and interest.   While correct in the direction of my predictions and very close in terms of unemployment(13% then and 12.3 % now), inflation worsened to double digits (over 10 percent year on year) while I only anticipated “higher than 5%”.  Likewise, with interest rates (SELIC), I proved a bit wishful anticipating 4% while the Central Bank’s basic rate moved to 9.25% at year end.  Doing my self-grading here, I will say 1.5 out of 2 points on these economic indicators.

Items 6 and 7 dealt with foreign policy with 6 stating that the anti-globalist and arch conservative Foreign Minister Ernesto Araujo would receive his marching orders and indeed he did.  Araujo, who had helped negotiate the Mercosur agreements in the 1990’s and, with Bolsonaro, had looked to a Mercosur-Europe FTA which also, as I predicted, failed to materialize and faded into the distant horizon.  Brazil and Argentina need each other but  President Bolsonaro does not have the ideological and pragmatic flexibility to get along with the left leaning Fernandes government. Moreover, with the ongoing destruction of the Amazon Forest, the Brazilians fail to please the Europeans, who also do not want to move quickly to protect their farmers. On these, score 2 out of 2 but recognize the complexity involved.

Item 8 stated that there would be “less than 50 billion in FDI”.  Central Bank data shows over 52 billion through the first 11 months and there will probably be another 4 or 5 billion December.  Brazil definitely did recover from the dismal 25 billion of FDI in 2020 but has not approached the 92 billion plus registered in the heydays of 2012.  So, on this point, I missed and will score no point.

Item 9 dealt with the perennial problem of violence in Brazil and predicted an increase in police violence and death at the hands of the police.  This definitely happened.  However, I also predicted a resurgence of  homicides not committed by the police and this did not happen.  Brazil continues to be a violent country, but Bolsonaro’s program of arming the population led perhaps paradoxically and indirectly to a reduction in the number of murders registered.  Score ½ point.

Item 10 addressed the topic of Brazil’s long-term aspiration of OECD membership and there was no progress on this front as Brazil, mainly because of the power of Congress and the Centrao fails to be transparent in how its public accounts are managed.  Brazil has a legal spending cap which has been surpassed, but by using legal maneuvers.  The Ministry of the Economy and Paulo Guedes affirm respect for the spending cap and still deny overspending although this is what has taken place in 2021 with the pandemic and with the milking of the system with an eye to the elections this year.  Score 1 point.

Finally, Brazil has failed to contain its brain drain and the falling behind in education, science and technology.  Bolsonaro severely reduced the budget for the Ministry of Science, Technology and Innovation and almost any professor or researcher who can get an appointment abroad will take it.  Brazilian talent continues to flow abroad unrestrained.  1 point

If I am not in error, something always possible, I calculate 8 points out of 11 or 73% which we can call a gentleman’s C and maybe not brilliant or lucky but also not too shabby.

Rumo e sem Prumo

Dizer que o Brasil foi chato em 2021 talvez seja obvio demais.  Sem duvida, foi mais um ano de crise, de Covid e de retrocessos.  Mas desde que conheço o Brasil da década de 50, o país vive a rotina de pobreza, desigualdade, a falta de expansão econômica, ignorância, problemas de educação, falta de infraestrutura, instabilidade politica, violência, mortes e tudo mais.  Lá se foi a renuncia do Jânio Quadros, o golpe militar (e civil) de 1964, os generais no poder, a corrupção do governo Sarney, o impeachment do Collor, a “compra” do segundo mandato pelo FHC, o mensalão do Lula, o impeachment da primeira mulher presidente do Brasil, a Lava Jato, o governo tampão do Temer, o encolhimento da economia, as 600 mil mortes por Covid, dos últimos dois anos e diminuição do país no cenário internacional com o governo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que nos últimos 60 anos o país quase quadruplicou a população, diminuiu e a certa altura eliminou a fome, criou um sistema de saúde publica funcional, democratizou (com perda de qualidade) o ensino, passou a ser um celeiro mundial com a produção de alimentos, descobriu petróleo e tornou-se quase autônomo em energia, criou uma indústria de aviação e ate aeroespacial, incrementou a diversidade industrial e setor manufatureiro ainda funciona apesar dos trancos.  Teve a constituinte e uma Constituição democrática em 1988 e o Brasil avançou politicamente. A população tem acesso a comunicação, mídia social e a infraestrutura de estradas, ferrovias e portos que cresceram sem precedentes.  Ainda foram criados hospitais, institutos de pesquisa, e razoável sofisticação acadêmica ondes cursos de doutorado nacionais são quase tão prestigiados quanto estrangeiros.  Enfim, apesar dos atrasos, da crise permanente, da desarticulação politico-institucional, o Brasil tem hoje exemplos em todos os campos, do que há de mais moderno, atualizado e contemporâneo mesmo que só sejam accessíveis a classes abastadas.

Com certeza, o Brasil podia estar melhor.  Basta olhar para os países asiáticos que 60 anos atrás eram mais pobres e menos desenvolvidos do que o Brasil e hoje estão na sua frente.  China é o exemplo mais óbvio mas até Vietnam hoje concorre com o Brasil exportando mais de 250 bilhões por ano com uma parcela de bens industrializados significante.

Desde a euforia de 2010 com a perspectivas de riquezas do Pre-Sal, de sediar a Copa e as Olimpíadas, a economia do Brasil quase não cresce.  O governo Dilma trouxe uma recessão imensa.  O país que chegou a ser a quinta economia do mundo, caiu para a decima-segunda posição, com a paulatina redução da renda per capita e o aumento do desemprego.

A vontade de sair alcança níveis inéditos principalmente entre os jovens e atinge não só aqueles com educação superior mas também aqueles, dispostos a arriscar tudo, até mesmo a vida.  As mortes e assaltos de imigrantes brasileiros tentando entrar nos EUA através dos desertos no México mostram o desencanto e desespero.

Como reverter a ideia de que o Brasil não tem jeito?  Propomos o oposto, onde a ideia de que o país seja viável tanto no nível individual e coletivo.  Naturalmente a viabilidade precisaria de respaldo real, onde a emigração deveria ser senão uma ultima opção. 

Apesar de tudo, felizmente há criatividade, empreendedorismo, e muito esforço individual.  Passada a pandemia, (que certamente vai passar), muitas atividades reprimidas irão ganhar vulto. 

Com a eleição geral programada, o ano novo também trará muitas oportunidades de renovação.  No momento, políticos tradicionais lideram as pesquisas, com o ex-Presidente Lula,  na frente, como provável vencedor.  De certa forma, a reciclagem de políticos e da velha politica frustram a população.  Mas as transformações precisam de tempo, e apesar dos desgovernos dos últimos 20 anos ou mais, existem avanços.  Nenhum poder (executivo, legislativo, judiciário, militar ou mídia/imprensa) conseguirá dominar sozinho o cenário. Assim, os “checks and balances” persistem, com todos os defeitos e manipulações.   Todavia demonstram a complexidade e a evolução da sociedade brasileira que apesar de tudo segue seu caminho como um país com uma população ansiosa por melhorias individuais e coletivas.

 Olhando as dificuldades do Brasil do século XXI, poderíamos classifica-lo como um país sem futuro.  Entretanto isto seria um equivoco, ainda mais neste momento de fim-de-ano e inicio de outro cheio de expectativas e boas vibrações. 

Vamos iniciar o Ano Novo acreditando que os avanços conseguidos até hoje, continuem a alavancar a economia e melhorar a qualidade de vida.  Exemplos ha muitos, desde iniciativas simples de turismo local, de tentativas de preservação no Pantanal e Amazônia, a intensificação do uso da terra com aumento de produtividade, invenções como o VTOL da Embraer, a reorganizacao da matriz energetica com energias alternativas, a continua melhora do nivel de profissionais em todos os setores e a mobilizacao da criatividade na sociedade civil e principalmente dos jovens.  Há todo um dinamismo e busca de sucesso. Assim, o futuro, com certeza, vai chegar ao Brasil. E que seja melhor.

Presidentes no Exterior

Provavelmente não foi planejado mas Bolsonaro andou pelo Oriente Médio em eventos de promoção e Lula na Europa com ar de campanha politica.  Nas pesquisas os dois lideram a turma de candidatos com Lula em primeiro, pelo menos por enquanto.  Ha fofocas que Bolsonaro está cansado e não quer mais.  Ao mesmo tempo, já levantaram a ideia que Lula não vai concorrer.  E a disputa para a terceira via mais parece a noite dos desesperados.  Muita água a rolar ainda.

Mas os dois Presidentes estão promovendo, cada um a seu modo, a imagem do Brasil.  Bolsonaro, contra a imprensa tradicional, leva a ideia de um Brasil em construção, aberto para investimentos num clima favorável ao capital internacional.  Para ele, Amazonas não é problema já que não pega fogo e é a própria nova fronteira econômica.  Lula, por sua vez, projeta a imagem de quem vai recuperar o Brasil com sua politica de redução de pobreza e incorporação social.  Mas não comenta sua condenação e a roubalheira ocorrida nas administrações do Partido dos Trabalhadores.  Também enrola quando questionam seu apoio aos “companheiros” Maduro, Ortega e Presidente Xi.

Lula e Bolsonaro se projetaram como “outsiders” mas acabaram incorporados pelo sistema.  Lula alcançou o poder, depois de 3 tentativas infrutíferas, em 2002 com fama de socialista.  Para acalmar o país, e em particular as chamadas “forcas produtivas”, Lula teve que produzir a famosa Carta ao Povo onde ele se comprometeu (junto com Antônio Palocci, também condenado pela Lava Jato) a não sacudir as estruturas básicas do mercado.  Assim governou com o presidencialismo de coalização e teve que fazer os arranjos com os partidos tradicionais de centro (Centrão) o que por sua vez desembocou no escândalo do Mensalão.  O projeto do poder do PT não encolheu apesar das condenações e junto com outros partidos criou um escândalo imensamente maior – o Petrólão – que por muito pouco não quebrou a Petrobras, justamente a empresa, com o Pre-Sal, que a esquerda (e outros) projetou como a salvação do Brasil. 

A Lava Jato criou uma fúria e grande indignação.  Mas ao mesmo tempo despertou a reação antissistema e anti-políticos corruptos, e seu sucesso mais importante acabou esvaziado.  O Ministério Publico mostrou incoerência, condenações foram revogadas, os juízes tipo Sergio Moro e promotores como Delton Dallagnol já não são vistos como isentos e viraram políticos em vez de paladinos.

Bolsonaro, apesar de mais de 20 anos como deputado, também se apresentou como quem não tinha nada a ver com a politica tradicional e os malfeitores.  Sua promessa foi acabar com a corrupção, moralizar a sociedade voltando para a religião fundamentalista, liberar as forcas do mercado através de liberalismo econômico e armar a população contra os bandidos.  Dizendo inicialmente que iria acabar com o “dando é que se recebe”, o Presidente hoje está sob o domínio dos políticos tradicionais e basicamente rendido, restando apenas a caneta para liberar algumas prebendas e benesses na compra de apoio.  As reformas prometidas, ou não saíram do papel, ou ficaram muito aquém do prometido na regulamentação e implementação.  A corrupção talvez tenha saído do atacado para o varejo mas a falta de transparência continua e assim reforça a ideia que a ganancia rola e é cada vez mais parte do tecido da sociedade.

Bolsonaro e Lula no exterior apresentam duas visões antagônicas do Brasil, ou seja, a direita (Bolsonaro) contra a esquerda (Lula).  E na superfície isso é verdade.  Mas cavando um pouco e pensando em como o estrangeiro enxerga o país, a percepção pode ser resumida, independente de um presidente da direita ou da esquerda, a um Brasil:

sem lei,

sem administração,

sem legislativo funcional,

sem estabilidade e segurança jurídica,

com setor publico corrupto e imprevisível,

com burocracia incompreensível e fora de controle.

Para o europeu, americano ou praticamente qualquer estrangeiro ainda tem ressonância o ditado atribuído a De Gaulle: “Brasil não é um país sério.”  E em seguida, vem expressões semelhantes das pessoas que não conseguem penetrar no mistério: “Ah só no Brasil”, ou talvez “Como é triste que um país com tantos recursos não consegue avançar”.  Enfim, para quem é de fora, a ideia básica consiste em deixar o Brasil de lado apesar do tamanho e de seu significado em termos de mercado e o papel que tem na destruição ou preservação do meio ambiente e seus impactos climáticos no mundo.

Talvez, gostaríamos de pensar que os presidentes representam e levantam o país.  Mas na realidade para as cabeças minimamente informadas e as pessoas que vão investir seu tempo e dinheiro, a percepção infelizmente venha a ser que o país do futuro não tem futuro agora.  E isso não vai mudar nas próximas décadas.  Assim caminha a América Latina.  E piada que Argentina cambaleante de hoje representa o Brasil amanha talvez ganha cada vez mais forca.  Triste mas ….

A terceira via (uma alternativa de centro) faz água e a polarização continua: então quando só tem tu, vai tu mesmo.  A opção clara é a direita do Bolsonaro ou a esquerda do Lula, ou seja mais do mesmo de sempre, a esperança de um salvador da pátria.

Dead or Dormant, Morto ou Dormente

Ha anos procuro lembrar e agradecer a presença e apoio de clientes e amigos.  Sem vocês, não ha resistência e nem sobrevida.  Venho sempre ilustrando isso com uma ou outra foto de uma amendoeira do meu quintal.  Talvez alguns lembram o velho pe finalmente sucumbiu e que plantamos um novo.  Agora com a chegada do outono e do inverno, a arvore nova esta dormente ou talvez morta.  Sao eventos naturais e ate sobrenaturais.  Vou esperar a primavera para ver se o novo pe resistiu.  Da mesma forma nosso trabalho conjunto tem fases.  Agradeço todos que trabalham com a gente e que tenham a paciência de esperar a nova primavera (e no hemisfério sul, o verão que chega).  Apos a pandemia, temos o renascimento.  Esperamos o Natal com esperança, expectativa, amor e animo.  Queremos crer que temos bons anos de trabalhos frutíferos pela frente.
Assim desejo a todos um feliz dia de ação das graças, um Natal abençoado e um ano novo de vida e crescimento.


For years, I have used Thanksgiving week as an opportunity to thank friends and clients.  Without you, we lose significance and don’t survive.  I have illustrated this using a favorite almond tree in my yard.  Some may remember that the old tree finally succumbed to old age last year and I planted a new tree in its place.  The pictures show the planting, the flowering and finally:  dead or dormant.  The event is natural and even supernatural.  I will wait for Spring to see if the new plant survives.  Friendships, business and relationships also have phases.  I am thankful for all of you who have all who have worked with us as we patiently await Spring (Summer coming in southern hemisphere).  We believe firmly that COVID will wane so that we can witness and appreciate rebirth, exactly what we celebrate with Christmas.  We look forward with hope, good expectations, love and energy in the belief that we all have a fruitful holiday season.

Silos e Cultura

Fonte: JBR Brasil

Acabo de passar um mês no Brasil depois de 2 anos afastado devido aos problemas decorrentes da pandemia.  No país, as coisas mudam mas ainda ficam do mesmo jeito.  Continua o interesse pelo futebol, a saída para pizza e chope, a valorização dos amigos e entre muitos uma saudável alienação do processo politico.  Há resignação de sempre misturado com a frustação de falta de poder para mudar as coisas.  Afinal, para a eleição falta um ano e existem coisas importantes para fazer, por exemplo, levantar e ir ao trabalho para não ficar sem ou simplesmente sair a paquera.

No Brasil, lembrei de um projeto que trabalhei na década de 70.  Chamava Polocentro e a ideia era o desenvolvimento do Centro-Oeste usando técnicas e apoio da EMBRAPA para o tratamento de solo e plantio de soja, milho e outras atividades agrícolas.  Deu no que deu.  Na época, um dos grandes problemas era a falta de infraestrutura de transporte e de armazenagem.  Faltava silos.

Hoje vejo que o problema continua mas o problema de silos hoje é diferente.  Vejo a separação das pessoas em “silos”.  Cada grupo tem o seu.  A grosso fala se de polarização e a separação de extremos políticos tipo Bolsonaro x Lula.  Mas mais importante e menos reconhecido tem os “silos” ou grupos que basicamente são de identidade.  Os grupos funcionam como pontos de inserção e referencia e servem para combater o isolamento e anomia da sociedade moderna.  Os grupos são extremamente informais mas as vezes chegam a um nível de organização maior.   Os militares são talvez os mais organizados e coesos mas ainda assim seu silo ainda tem um nível de informalidade. Outro grupo obvio são de torcedores: Gaviões da Fiel ou Galoloucura que tem ate carteiras mas a maior parte das pessoas participa somente através da identificação sem se associar.  Além do futebol, ha as igrejas e cultos.  Os evangélicos crescem de uma forma impressionante mas as pessoas nem sabem a que igreja pertencem.  Ha também os movimentos de “identidade” tipos LGBT ou grupos de mulheres e ate de homens. Em Minas, anos atrás tinha o MMM, Movimento de Machões Mineiros, que se vestiam de mulheres para carnaval e outros eventos.  Claro também que os negros e as comunidades indígenas também tem seus silos.  E ainda tem a pergunta: quem não tem algo de negro ou dos povos originários, apesar das negativas da cultura predominante? Outro silo relevante pode ser identificado como o “mercado” ou os “FariaLimers”.  Este silo exclusivo agrega as elites que supostamente “controlam” as decisões financeiras e a economia.

Participar significa prestação tempo, disponibilidade, recursos e lealdade a algo tido como importante e mais amplo do que o individuo.  Participando a expectativa seria de atenuação do isolamento.  Os meninos desagregados em comunidades pobres ou não são alvos fáceis de recrutamento para as gangues.  Estes prometem prestigio, meninas, dinheiro e a ideia de poder.  Quem está com pouco, se sente forte com uma arma na mão e a ideia de um grupo de solidariedade e afiliação mesmo que seja na direção de uma atividade criminosa e nociva.

Muitas vezes, escutamos o ditado: “O Brasileiro não é solidário nem no câncer.”   A precária solidariedade das relações patriarcais acabou com o crescimento, a complexidade econômica e a urbanização.  Assim, os indivíduos inseridos no novo modelo econômico e o mercado que atomiza as pessoas acabam soltos e na procura de integração e participação constroem ou encontram seus silos.  Os silos servem uma função mas na separação e na falta interação não são suficientes para definir e manter algo maior.  Assim a cultura brasileira e a noção do Brasil começam um declínio ou ao menos uma transformação.  Quem hoje pode definir o que seria a aspiração e o destino do país?